Saudosismo, não. Autoestima.

Talvez seja “fora de tom” neste momento com tantas pessoas sofrendo, falar de arte ou qualquer outro tema sensível que não, “sobrevivência”. Pessoas sem emprego, comida, dignidade e esperança numa progressão constante, clamam pela urgente regeneração de suas identidades e necessidades mais prementes, subtraídas por prefeitos, governadores e outras autoridades que deveriam zelar pela vida do povo, que paga seus salários. Lamentavelmente, há uma disputa entre eles pelo título: “o mais cruel do ano”. ‘

Perdoem o desabafo, mas como o tema desta coluna é “Arte e Reflexão” não é possível prescindir do ser humano e do momento pelo qual passa a sociedade. A arte não existe por si mesma, ela é um serviço “de homem para homem”, que através dela estende os limites da própria existência, “experimentando outras vidas”. No Brasil o teatro é uma manifestação artística forte, porém a tv é o ”produto queridinho nacional”. É através dela que o povo conhece outras realidades além da sua.

A televisão brasileira estreou com um universo riquíssimo de programas, indo do auditório ao teleteatro de Walter Forster e o Grande Teatro, ambos da TV Tupi. O último foi dirigido por Sérgio Brito com textos adaptados do teatro, por Manoel Carlos e contou com a presença de Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Natalia Thimberg, dentre outras grandes nomes dos palcos brasileiros. Cassiano Gabus Mendes, autor da novela-tema deste artigo, fez parte da história do Teleteatro Tupi.

 Com o tempo, o teatro deu lugar às novelas e sua linguagem própria. Um falso naturalismo se impôs e a novela passou a ser sinônimo de produto pasteurizado, pouco elaborado artisticamente. Mas nem sempre foi assim. As reprises atestam que o tempo não apaga as grandes atuações e as grandes histórias; ao contrário, elas deixam saudades. Personagens como Odorico Paraguaçu, Odete Roitman, Gabriela, Viúva Porcina, Sinhozinho Malta e tantos outros estão na memória do povo brasileiro.

Estou revendo uma das melhores novelas, na minha opinião, já feitas no Brasil: “QUE REI SOU EU?”, de Cassiano Gabus Mendes que foi ao ar em 1989. Por que resgatar uma novela tão antiga, neste momento? Porque é um excelente entretenimento, que aborda o absurdo da política no Brasil, a corrupção e a demonização das autoridades com um humor refinadíssimo. O elenco de primeira linha, a direção de Jorge Fernando e o texto de Cassiano juntos, criaram uma “rara obra perfeita”.

Sem nenhum pudor, pode-se dizer que novelas como essa são verdadeiras obras de arte. Hoje em dia não se vê mais “personagens”; o que se tem são atores impondo suas personalidades repetidamente, esgotando a linguagem cotidiana num falso “naturalismo” (com raras exceções). “QUE REI SOU EU” ainda pertencia a uma época em que grandes atores de teatro davam ao público a oportunidade de rir de suas próprias mazelas. Os diálogos perspicazes de trinta anos atrás, caberiam perfeitamente hoje.

A rainha de personalidade forte, (Teresa Rachel), os conselheiros (Jorge Dória, Laerte Morrone, Oswaldo Loureiro, John Herbert e Carlos Augusto Strazzer) que só pensam em falcatruas, dinheiro e mandar pessoas para a guilhotina (que nunca funciona), garantem bons momentos nesta trama. O equilíbrio na alta esfera do poder é Bergeron (Daniel Filho), honesto e que por isso atrapalha os “projetos” de seus colegas, ansiosos para livrarem-se dele.

Madeleine (Marieta Severo), esposa de Bergeron é escritora e sonha em “igualar as mulheres aos homens”; a Princesa Juliette (Claudia Abreu), virgem e romântica espera encontrar o grande amor da sua vida e se opõe aos casamentos por interesse da corte; Suzane e Lucy (Natalia do Vale e Ísis de Oliveira), as belas obrigadas a casar com suas “feras” por dinheiro – ambos bem mais velhos do que elas – são oprimidas e infelizes.

Tem ainda o herói jovem e revolucionário do povo (Edson Celulari) que luta contra as injustiças do reino; seus comparsas (Stênio Garcia, Marcos Breda), sua protetora (Ítala Nandi), sua namorada (Giulia Gam), o “mago” Ravengar (Antônio Abujamra) maquiavélico, aliado da rainha e sua parceira de maldades (Vera Holtz). Tem ainda o falso herdeiro do rei forjado para “subir ao trono” (Tato Gabus) e muito mais.  Cultura popular brasileira de alto nível. Orgulho nacional.

Nunca houve dificuldade das classes mais humildes em acompanhar o(s) folhetim(ns). Bons tempos, verdadeiramente democráticos, onde era possível se expressar livremente. As diferenças humanas não agrediam, ao contrário, mostravam a riqueza que existe em cada classe social sem a hipocrisia “politicamente correta”. Não havia vitimismo; os pobres do Reino de Avilan eram fortes e determinados, cheios de otimismo e nobreza de caráter. Hoje a amoralidade é vista como uma virtude.

Outra característica que chama a atenção em QUE REI SOU EU é um certo grau de inocência, não no sentido infantil, mas no sentido de priorizar o entretenimento. A realidade nua e crua é mais apta para filmes e minisséries, na minha modesta opinião. A novela pode e deve se atualizar, mas sem perder a sua vocação familiar. Precisa manter a leveza. Novela e revolução não combinam, são antagônicas. Só podem se unir numa boa sinopse, nunca como adoção dos valores da segunda, pela primeira.

O Brasil exala sensualidade e sempre abusou disso em sua dramaturgia. A mulher é o maior apelo da tv; cenas como a de “Sônia Braga-Gabriela no telhado”, registro obrigatório da memória televisiva, representa uma provocação – não uma exposição total. Passadas algumas décadas, um encanto se quebrou e o produto perdeu. O espectador também. O apelo gratuito não é a melhor expressão artística, principalmente num veículo tão invasivo.

É comum ouvir de algumas pessoas da área artística que “gente feia não pode fazer tv”.  Discordo veementemente; sempre vai haver lugar para o talento e a expertise de artistas consagrados. Um grande personagem só pode ser feito por um grande ator. Sem exagero, o Brasil tinha excesso de talento e grandes atuações na tv. Ainda existe, claro, mas em menor quantidade. Atores bons não são mais prioridade nas escalações de elenco. Ou talvez o conceito de bom ator tenha mudado.  

O Brasil exporta suas novelas para o mundo e é referência no assunto. Parei de ver novela há algum tempo, mas continuo gostando do gênero. Seria bom ver uma novela hoje que abordasse o drama dos cristãos no Brasil ou os absurdos que as autoridades cometem em nome de um vírus. Que falta faz Cassiano Gabus Mendes ou outros de sua grandeza. Chico Anysio com seu humor sarcástico também. Quem sabe Silvio de Abreu nos salva. Não creio, o tema é feio demais. Ainda bem que existe a internet para relembrarmos as glórias do passado.

Eu sou Bianca Montanas (Twitter @biancamontanas1), atriz, titular da coluna Arte & Reflexão, do Tribuna de Santa Cruz. Vamos conversar!

Uma rua e duas casas III

Crônicas do Brasil que se foi

Este conto autoral de Renata Araujo, faz parte de um livro autoral de contos, o conteúdo autoral é protegido por lei e publicado em primeira mão e com exclusividade no Tribuna de Santa Cruz. A reprodução é autorizada com citação da fonte, exemplo: ARAUJO, Renata. Uma rua e duas casas: crônicas do Brasil que se foi, 2019. Disponível em: <https://tribunadesantacruz.com/2021/03/13/uma-rua-e-tres-casas/&gt;. Acesso em: 29 de mar 2021.

Casa de Adelaide, desenhada por Amélia.

O ano é 2020. Alexandre Vieira II, neto do casal Álvaro e Amélia está na padaria, onde um dia – ele o sabia agora – funcionou o negócio do Sr. Vicente.

Ele está tendo um mau dia. Tenta vender a casa que foi de seus avós, mostrando-a aos interessados com o corretor pela décima vez, sem sucesso.

A casa está ótima, os cômodos lindos, seus avôs viveram uma grande história de amor ali e isso se refletiu na casa. Sim, tiveram uma boa vida.

A verdade é que Alexandre não sabe muito bem o que fazer com a casa, os tempos são outros. Acredita que precisa vender antes que o imóvel se degrade e seja invadido, ou precise ser demolido. Ele não quer que isso aconteça de jeito nenhum, precisa do dinheiro, mas não a esse custo.

Ainda mais agora, que encontrou os diários de sua avó nas coisas de seu pai.

De início ficou emocionado demais com a leitura daqueles 8 cadernos e teve que interrompê-la algumas vezes, seja por saudade, seja por tristeza ou alegria. Ler aquelas linhas era uma torrente de emoções que era difícil suportar às vezes.

Em variados cadernos estavam dados do cotidiano da vida de Amélia, registros de conversas e eventos, sentimentos, detalhes de festividades e registro de momentos tristes: como falecimentos de parentes e amigos. O dia do nascimento de seu pai em 1919 e o seu próprio nascimento em 1960.

A leitura lhe dava uma sensação estranha de que existem dimensões, camadas no tempo aonde aqueles eventos ainda estavam acontecendo:

“-Certamente Deus usa essas camadas para registro de eventos a serem julgados no dia do Juízo Final”, pensava, enquanto tomava seu capuccino e esperava o bom e velho pão na chapa.

Os itens eram apreciados desde seus tempos de Pedro II e depois, Ferreira Viana, colégio técnico ali em frente.

Alexandre tinha a mesma sensação quando estava na escola técnica e por alguma razão tinha acesso aos laboratórios na ala esquerda do colégio, que ficava do lado oposto ao auditório. Cheio de tubos de ensaio e equipamentos que não eram utilizados por falta de verba para oferecimento do curso, problema que havia, então.

Ele olhava para aquela estrutura e sonhava em como seria bom estar naquela sala, com todos os equipamentos funcionando, com os colegas uniformizados (decentemente, sem fazer o uniforme de ‘abadá’) e pensava que, aqueles que puderam estudar ali na época de ouro, foram privilegiados.

Seu amigo, Ivan, costumava dizer que a Escola então “-Rivalizava com a Federal de Química”.

Quando o amigo falava, Alexandre tinha dúvidas, mas ao olhar para o laboratório desativado, sabia que era verdade. A arquitetura, as instalações, projetos e o urbanismo de uma época dão uma vista geral de como era a vida das pessoas.

A casa de seus avós dava um testemunho de quão maravilhosa fora a vida deles e os diários, de como as pessoas eram cultas.

Escreviam, tocavam músicas, falavam idiomas de maneira perfeita, tudo aprendido na escola. Seu nome de batismo foi escolhido porque seu vô Álvaro dizia que: “-Alexandre foi o maior guerreiro que já existiu” e logicamente chamou assim ao filho, pai de Alexandre, que o chamou de Alexandre II.

Pensava, levemente amargurado com tudo que estava acontecendo: seu divórcio e o que viu no caminho da padaria. Pensava:

“-Alexandre II… logo eu fiquei com o nome igual ao mais devasso…muita sorte. Meu pai se chamou Alexandre I e eu, II. Meu avô obviamente não tinha tido o desprazer de assistir aos comunistas destruírem a imagem de todos os personagens históricos, tachando-os de pederastas, devassos, sodomitas, idiotas, estúpidos e toda a banalização das figuras outrora tidas como heroicas, que serviram como base dos arquétipos mentais atuais. Graças a Deus não soube antecipadamente as merdas que falariam no futuro da Família Real brasileira, senão teria morrido ainda antes.

Além de todos os seus problemas estava triste: identificou após a leitura do diário qual era a casa da tia-avó Adelaide, bem como a casa de seu avô, com o tio-avô Alberto.

A casa de D. Adelaide estava prestes a ser demolida! Em outra visita do corretor de imóveis passou em frente e ainda estava com as portas, janelas do térreo, ferros da cerca baixa da mureta e do portão, lustre antigo na entrada, bem como as porteiras. Agora estava sem nada disso e com tapumes.

Se sentiu muito mal em passar defronte a ela hoje e saber, por uma senhora que saía do prédio ao lado, que seria demolida para dar lugar a algum edifício idiota, de arquitetura inexpressiva que teria apartamentos cada vez menores vendidos pelo triplo do valor da casa, que para ele era um palacete.

Sem saber bem o que fazer, tirou fotos do interior, dos pontos que conseguiu enxergar: o teto detalhado com tanta precisão em um dos diários tinha desabado, restando apenas uma moldura do forro, em madeira, toda trabalhada.

Da rua, conseguia ver pedaços de gravuras nas paredes, distribuídas nos cômodos conforme… preferência dos ocupantes? Era o que parecia…conseguiu antever painéis desbotados em veludo nas paredes, topos de colunas renascentistas ainda lindas, apesar do descaso, distribuídas pelo hall de entrada e nos cantos da sala.

Lembrou do que estava escrito nos diários, das festas lindas que foram feitas ali, nos jardins que existiam na época e que hoje eram prédios baixos, um de cada lado.

Havia menções às paqueras, declamações e saraus e subitamente foi tomado de uma saudade inexplicável, uma sensação de perda, dor quase física, não somente de uma casa, não somente do que foi vivido ali, mas de um mundo que passou que não volta mais.

Pessoas, valores e costumes, que poderíamos ter dado continuidade como povo, mas não. Fomos atrás de idiotices e doutrinas revolucionárias que nos trouxeram a isso. Escravizados pelo Estado, frustrados nos relacionamentos, tristes com Deus e sem legado.

E chamamos isso de modernidade. Pensou:

-Meu Deus, se isso é modernidade, não a quero, prefiro um mês nessa casa com minha família, do que minha vida inteira num país que me frustra, numa sociedade que me irrita, com relacionamentos que nada valem; tudo é falsidade e interesse. Um país sem missas campais, sem saraus, com cada vez menos músicos competentes e estrelas cada vez mais nojentas e pornográficas a influenciar todo o comportamento da juventude. Um país onde se lê cada vez menos e se escreve cada vez pior.

Olhou para a casa e disse ainda, em tom baixo:

“-Os invejo, meu único consolo é esperar Deus me levar para onde vocês estão.

Lembremos que era um mau dia e ele estava irritado, mas tinha índole de lutador, em pouco tempo ouviria algum pássaro cantar ou olharia para o céu e algumas árvores e ficaria bem, era assim que funcionava.

Alexandre pensou, enquanto olhava os painéis, que estes deviam estar presos com tachas de estofamento, pois os buracos no centro ainda estavam lá, como se houvesse uma sobreposição e o veludo fosse um…passe-partout?

Nos quartos do andar de cima, em trechos que se podia ver e não tinham caído com o tempo, ainda estavam detalhes das gravuras nas paredes: “Houve muito amor naquela casa para terminar assim…parece até meu casamento com a Beatriz” pensou. Sem ter mais o que fazer, resolveu desenhar esses detalhes tão logo pudesse, tirou fotos com o seu celular e resignou-se.

Se não estivesse tão ferrado de grana compraria. Tão escravizado pela merda dos impostos que pagava para custear um Estado gigantesco. Ganhava bem, mas nunca sobrava nada, tinha que pagar caro por tudo aquilo que devia vir como retribuição de seus impostos e não tinha dinheiro para comprar uma casa que fazia parte de sua história, reformar e fazer algum centro cultural para divulgar alguma coisa que sua família tivesse defendido ao longo dos anos.

Talvez tivesse sido a gastança absurda e o descaso como dinheiro público que ocorreu a partir do golpe de 1889, se não fosse isso, o Brasil não tinha entrado nesse ciclo de super salários do funcionalismo militar e do alto escalão do funcionalismo geral.

Pensava ainda: Se fosse Império ainda, duvido que a doutrina fiscal austera de D. Pedro II teria deixado acontecer essa desgraça toda. Essa Constituição… ainda têm o desplante de chamarem de “cidadã”, só se for cidadã da Coreia do Norte! A de 1824 é muito mais liberal do que essa!

E ainda têm a cara de pau de chamar de “progresso”. Como meus antepassados tinham dinheiro para construir isso?

Pelo que li eu ganho mais ou menos o que ganhava meu avô…talvez porque não tivessem que dar todo o dinheiro para o Estado e ter umas esmolas de volta. É isso que somos: escravos do Estado, todos, sem distinção.

A atendente da padaria trouxe o pão na chapa que havia pedido e deixou na mesa. Ele agradeceu e teve o cuidado de não parecer que falava sozinho. Só o que faltava: parecer doido.

Alexandre se lembrou de outra coisa que o entristeceu na rua, andando um pouco mais, antes de entrar na Padaria. Diferente, mas com resultado parecido: a casa que outrora fora da família de seu pai, de esquina, foi “atacada por cracudos” que roubaram materiais de ferro, sem distinção, para vender ao ferro-velho ou como peça de demolição depois da pandemia. Todas as grades da mureta, portas, bem como o portão foram levadas.

Não foi sutil, deixaram as paredes quebradas e a mureta destruída.

A casa dos vôs se encontrava totalmente devassada e sem telhado para evitar que a ocupassem. Nos anos 80 o imóvel foi vendido para um curso de informática, que deixou-o, após falir, chegando nesse estado. Desanimador.

A casa de onde Alberto acenava para Adelaide, de onde se via passar as paradas de Sete de Setembro dos colégios, de onde se podia ver passar Thomaz Coelho com a Comitiva do Imperador na direção do Colégio Militar para as providências necessárias sobre a compra do Palácio da Babylonia (em homenagem à Pedra da Babilônia que existe no Campus, perto dos estábulos, quadras e campos de tiro).

Rua esta que era – na extensão da Quinta – caminho de D. Pedro I indo para a Igreja de S. Fco Xavier, com seu cavalo, a galope (o qual ainda é detentor do menor tempo no trajeto Rio-SP a cavalo, até hoje!).

Aonde, quando criança costumava assistir TV e onde seu avô e seu pai moraram e receberam os amigos para fazer trabalhos do Colégio Militar. Destruída.

Subitamente entendeu que:

“-A morte não se dá com o fim da vida, mas com o fim do mundo como o conhecemos, o fim das coisas, pessoas, obras e valores que dão sentido à vida. Entendo agora o meu ódio por revoluções, que destroem tudo com promessa de “um mundo melhor”. Aonde as revoluções militares e comunistas nos trouxeram? A esse mundo de feúria. Entendo agora, como nunca, a frase de G.K Chesterton: “A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns”.

Alexandre pediu a conta, tomou o caminho rumo a seu apartamento, disposto a redecorá-lo, colocando na sua residência um pouco do que tinha visto ali.

Subitamente teve uma ideia, parou e pensou melhor:

“- Vou vender meu apartamento, redecorar a casa da minha avó com alguns desses elementos em homenagem à tia-vó Adelaide e ao tio-vô Betinho”.

Saiu da padaria, ouviu os passarinhos nas árvores da rua enquanto caminhava… olhou o céu e à frente, no final da rua, avistou o portão do Colégio Militar. Pensou:

“-Bem, algumas coisas ainda nos restam e por essas coisas, vale a pena lutar e conservar.”

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O Feminismo de Ibsen

Há poucos dias comemorou-se O DIA INTERNACIONAL DA MULHER. Em muitos países, entretanto, aquelas que se arrogam o título de feministas comemoraram a data queimando e vilipendiando igrejas. Em outras palavras, ofendendo a Jesus, Deus e salvador da Humanidade, Sua Mãe Santíssima e toda a riqueza que Ele nos legou e a Igreja preservou. Com tantos temas caros na vida de uma mulher, perder tempo destruindo o patrimônio da fé e da cultura num momento tão trágico para o mundo é no mínimo uma falta total de bom senso e respeito.

Não é preciso ser muito perspicaz para ver a desfiguração destas que se autointitulam feministas. Muitas pessoas lutam por uma sociedade sem Deus, mas aquelas que querem viver diferente precisam ter os seus direitos garantidos. A liberdade de crença é um direito garantido pela Constituição Federal em muitos países, mas para um determinado grupo de mulheres as outras não contam. As mães, as esposas “belas recatadas e do lar”, as cristãs, as conservadoras ou quaisquer outras que discordem da pauta ideológica feminista são atacadas sem dó, nem piedade.

A Ministra Damares foi humilhada publicamente por ter revelado a triste história de violência sexual que sofreu na infância e posterior tentativa de suicídio, impedida por uma visão de Cristo sobre uma goiabeira. Não lembro de nenhuma feminista tê-la defendido, apesar do estupro ser um de seus temas preferidos. Não há feminismo para todas as mulheres. Ter cabelo no braço, ódio à beleza, ao homem, tirar a roupa “para protestar” e enfiar cruzes em seus corpos traduz um comportamento minoritário que não representa ninguém, nem elas mesmas.

E o que dizer do aborto, a pior e mais nefasta escolha que uma mulher pode fazer? Quem pare para ouvir depoimento de alguma mulher que tenha passado por isso, sabe que o arrependimento é certo. E necessário. Não há como defender tamanho crime, nem com meias-palavras cínicas que dizem: “é uma massa de células“ e não, um “ser”. Ora, mas se vai virar um ser e alguém impede é morte do mesmo jeito. E este é o ponto: a cultura da morte, outra agenda falsamente feminista para agredir a essência da mulher. Cristãos entendem bem a origem deste assunto.

Em meio a todo o cenário desolador em que vivemos, resolvi alimentar minha alma com algo que vale a pena: a arte. Parti para um destino certo e não me arrependi; Ibsen é uma excelente companhia. Ele constrói o universo dramatúrgico expondo a hipocrisia social e a falsa moral daqueles que se julgam superiores, mantendo a leveza apesar da verdade. A obra em referência é Casa de Bonecas, cuja protagonista é a bela e jovem Nora, casada com o advogado Torvald Helmer e mãe de três filhos. Ibsen gosta de retratar a família em seus dramas.

Helmer acaba de conquistar um alto cargo num banco que lhe trará prestigio, poder e um salário abastado. Sua “cotoviazinha” (apelido de Nora) está cheia de alegria e orgulho. O casal é apaixonado e vive uma vida feliz. Nora é ingênua e não sabe nada da vida, mas a realidade a encontra como faz com todos. Uma antiga amiga, a senhora Linde, acaba de ficar viúva e está em situação difícil. Procura Nora para ajudá-la, pedindo uma oportunidade de trabalho para seu marido, que a atende prontamente. A presença dela permite que Nora divida seus segredos.

Ela endividou-se com um agiota de péssima reputação, conhecido por fazer “negócios escusos”, para salvar a vida do seu marido. Nora custeou uma viagem deles para a Itália para recuperar a saúde de Torvald, porém mentiu para ele dizendo que o dinheiro foi emprestado por seu pai. Torvald nem pode desconfiar dos deslizes de sua esposa, pois é excessivamente moralista. Nora é um alvo daqueles que almejam vantagens de seu marido e seu agiota é justamente um deles. Krogstad foi demitido por Torvald e em seu lugar vai ficar a senhora Linde; ele quer que Nora ajude-o a reverter esta situação.

Numa conversa a dois, Nora se perturba com as opiniões intransigentes do marido sobre a vida e passa a se sentir culpada pelas escolhas que fez. Torvald acredita que a família é amaldiçoada quando vive “numa atmosfera de mentira” e conclui que como advogado, pôde perceber que “quase todos os jovens envolvidos com crimes tiveram mães mentirosas” Nora passa então a pensar em suicídio e a viver sob a pressão de ser dedurada por Krogstad, o agiota. A vida da protagonista passa por uma grande transformação: a Boneca está virando mulher.

Ibsen fecha o cerco em torno de Nora até o clímax da história. Nora dança para Torvald, revelando uma inquietação e intensidade que o incomodam. Ele quer a mulher perfeita para ele e para exibir socialmente, mas Krogstad avança sem piedade sobre ela, ameaçando-a cada vez mais com uma carta para seu marido, até que a ameaça se concretiza. Nora pela primeira vez enxerga o homem com quem é casada. Puro realismo. O choque a que é submetida a transforma profundamente. A ideia de suicídio dá lugar à necessidade de se separar de alguém que não ama mais. Quanto feminismo.

A angústia da mulher que não pode errar, para não “desfigurar a imagem da Boneca” que o marido deseja. Um paradoxo muito bem delineado por Ibsen: durante toda a trama, Nora ama verdadeiramente seu marido a ponto de sacrificar-se por ele. A recíproca parece ser verdadeira, mas cai por terra no diálogo final. Nora então, perde a pureza de seus sentimentos e a substitui pela decisão de deixá-lo, chegando a dizer que não o ama mais. O mundo de Torvald desmorona e ele percebe que ela é uma mulher, humana, a quem ama e necessita de sua presença. Tarde. Ele agora quer um milagre.

A verdadeira arte deixa a sua marca. Ibsen atinge a alma feminina em cheio, proporcionando uma experiência humana enriquecedora. Ousaria dizer que tanto o homem, como a mulher amadurecem um pouco mais diante do conflito de Nora e Torvald. O verdadeiro conflito entre homem e mulher não tem nada a ver com ódio ou com tornarem-se inimigos, como hoje o feminismo prega. Ou o “ódio ao patriarcado” seja lá o que isso significa. Toda mulher quer ser amada e todo homem também, de formas diferentes e complementares. Bem, o “todo” é sempre um risco…

Ibsen surpreende a cada minuto, induzindo o pensamento do público para um lado, enquanto redescobre a história, por outro, enchendo-a de magnetismo. A reviravolta na vida do casal mostra que a mentira cobra seu preço, exigindo força e coragem para tomar o rumo certo. Viver um relacionamento superficial é um risco para ambos. Nora passa a encarnar outra personagem; a verdadeira feminista que vai ter que lutar muito para se (r)estabelecer-se sozinha e adquirir respeito por si mesma. Torvald por sua vez, olhar para dentro de si e ver quem realmente é. Ele e Nora terão uma nova chance?

Quem dera que todos os relacionamentos se iniciassem com pessoas maduras, inteiras, sem máscaras. Nenhuma mulher quer um feminismo de escândalo; o que toda mulher quer é conquistar seu lugar no mundo ao lado ou não, de um homem. Direito de amar, de ser mãe, de lutar, crescer, educar, realizar e ser feliz com as próprias escolhas. Este é o verdadeiro feminismo. O resto é ceninha de péssimo gosto.

Eu sou Bianca Montanas e esta é a coluna Arte & Reflexão, me siga no Twitter: @biancamontanas1, vamos conversar!

Uma rua e duas casas II

Continuação. Este conto autoral de Renata Araujo, faz parte de um livro autoral de contos, o conteúdo autoral é protegido por lei e publicado em primeira mão e com exclusividade no Tribuna de Santa Cruz. A reprodução é autorizada com citação da fonte, exemplo: ARAUJO, Renata. Uma rua e duas casas: crônicas do Brasil que se foi, 2019. Disponível em: <https://tribunadesantacruz.com/2021/03/13/uma-rua-e-tres-casas/>. Acesso em: 16 de mar 2021. Confira a primeira parte neste link.

Reprodução: Paço Isabel

Olá, como foi a Escola?

Adelaide respondeu feliz, ainda vendo o rapaz entrar em casa:

Colégio, mãezinha, sou a mais nova pré-debutante da mui leal e heroica cidade do Rio de Janeiro! Disse gracejando, fazendo entonação empostada no final da frase e subindo as escadas para seus aposentos.

D. Severa respondeu empolgada: – Seu vestido está ficando simplesmente divino, serás a moça mais linda da última década!

D. Severa era a típica esposa de comerciante, mulher valorosa e organizada que ajudava muito o marido, não somente na gestão da casa, mas também das finanças e na organização da loja. A formosa casa onde moravam tinha elementos ecléticos e barrocos, resultando num conjunto clássico.

A casa contava com porão que servia para prevenção de enchentes e umidade no andar térreo, que era o xodó da matriarca e onde passava os dias a inventar novas decorações e a ler, bordar e organizar as coisas da casa.

Severa admirava e tinha certa inveja de D. Eufrásia Teixeira Leite, herdeira do Vale do Café da região de Vassouras, que havia deixado sua mansão das heras para ir morar em Paris, que aventura! Eufrásia foi a primeira mulher do mundo a operar em bolsa de valores! Tão inteligente e capacitada que chegou a operar em 13 países diferentes, com êxito, multiplicando muitas vezes a herança recebida.

Eufrásia e a irmã herdaram uma fortuna equivalente a 5% do PIB do Brasil com a morte precoce de seus pais. Sua mãe em 1871 e o pai em 1872, deixando títulos financeiros, títulos da dívida pública do Empréstimo Nacional de 1868, ações do Banco do Brasil e crédito de dívidas de terceiros.

Enlutadas, as irmãs milionárias, educadas, órfãs e já consideradas solteironas fizeram as malas e foram morar em Paris.

Ali, Eufrásia começou a operar nas bolsas de valores de todo o mundo, chegando a operar em 13 países diferentes, até onde uma amiga de sua mãe, que trabalhou na casa de Joaquim Nabuco (com quem Eufrásia teve um romance, como corria à boa pequena), havia contado, aprendendo com maestria funções do mercado financeiro que era dominado pelos homens. Pensava:

“-Que sortuda, Dr. Nabuco era tão bonito! Até seu recente falecimento era um homem bonito, que Deus o tenha! Só não é mais bonito do que meu Vicente, que precisa só engordar um pouquinho mais, está magro de ficar o dia inteiro para cima e para baixo no comércio”

Às vezes, Severa até duvidava da história de D. Lídia, que ouvira na cozinha da casa de sua mãe, contada diretamente, enquanto tomavam café e comiam bolinhos de chuva que só a mãe de D. Severa sabia fazer… sentiu uma saudade profunda por um momento de sua mãe e da casa onde crescera, mas logo se recompôs. Voltando ao que pensava sobre os feitos de D. Eufrásia, sabia que no fundo poderia fazer os mesmos prodígios, mas não sem desistir de sua maior riqueza: o casamento e sua filha, que tanto amava.

O amor que Severa dedicava à casa era uma extensão do amor que sentia por sua família. Pensava:

“-Não…nenhuma fortuna do mundo substituiria a falta daquilo, da sensação de amar e ser amada, gerir uma casa como esta, educar e apreciar todas as fases da vida de uma filha como Adelaide, tão fofinha, esperta e amorosa quando pequena e agora, que está se tornando moça, tão responsável e culta”.

Admirava as paredes, cuidadosamente adornadas que davam a cada cômodo uma decoração diferente, sendo as paredes da sala revestidas com painéis de veludo e molduras de madeira, contando ainda com colunas gregas de estilo clássico e lustres iguais para toda a casa, variando apenas nos tamanhos e cores, sendo os lustres dos ambientes internos menores e de cores claras e o da sala grande, com armações douradas e cristais pendurados.

Cada parede possuía desenhos variados, sendo notável o esmero na parede da sala em relação às demais, de aposentos interiores; no sentido de que os demais painéis foram apenas pintados e não estofados.

Os painéis da sala de estar e hall de entrada, em azul marinho, davam um ar sóbrio que ornava perfeitamente com a mobília pintada de dourado, com paisagens campestres ou em madeira, com design vienense, de efeito listrado e ultrabrilhoso nas superfícies arrendondadas e acabamentos dourados, com metais forjados em formas de laços e fitas.

Adelaide gostava de ajudar a mãe a arrumar tudo, amava muito aquela casa na verdade. Seu quarto, no andar superior tinha uma sacadinha lateral para a rua, sendo, as duas janelas da frente da casa do quarto de seus pais.

D. Severa fez questão, após debate formidável, que a menina ficasse com “o quarto da sacada”. Para alguns, o efusivo debate teria beirado uma briga com Sr. Vicente, pai de Adelaide. A finalidade era convencê-lo a deixar o quarto, que tinha a sacada para frente da casa, com a filha do casal.

“-Nunca haverá de conseguir um bom noivo, se não puder olhar as estrelas, ter sonhos românticos e projetar o futuro, Augusto! Imagine se Rapunzel ou se Julieta não tivessem uma sacada? Nós já estamos resolvidos, meu senhor, vamos até o fim da vida na nossa alcova, mas Adelaide ainda precisa arrumar bom casamento!

Ao que Sr. Vicente respondia:

-Pois, debalde ao mostrar a fronte na sacada, mulher! Julieta terminou bem mal, deveras!

Dizia Sr. Vicente, ao final, cedendo, pois sabia que a filha tinha juízo e ademais, a esposa, estrategicamente, já tinha mandado fazer a pintura mimosa, com fundo rosa e turquesa claro nos detalhes, com motivos românticos como: guirlandas de flores, laços e paisagens bucólicas na parede do quarto com a sacada. Continuou:

“-Com essa pintura de moça que fizestes, como um homem de respeito conseguiria dormir aí? Bem, faça como quiseres, vou ao armazém ver as coisas.

Disse, cedendo ao final, rindo-se no íntimo, pois também ficava feliz em deixar sua filha com o lindo aposento, que só não era mais bonito do que a moça, que tinha definido o rumo de sua vida ao nascer.

Por sua família, Vicente se dedicava, saindo de casa às cinco da manhã todos os dias, para que às 6h pudesse abrir as portas de seu comércio. Sua jornada terminava às 20h, pois mesmo após fechar as portas ainda restava atender demandas dos funcionários, comida para família de um, adiantamento para compra de remédios a outro, arrumação, limpeza, caixa, contabilidade, estoque, reservar caixa para pagamentos no dia útil seguinte e só depois, então, poderia ir para casa, banhar-se, trocar de roupa e ir atender a mulher para a convivência em família e com a esposa.

A convivência, que era para ele o descanso do dia, era no jantar ouvir as novidades e os assuntos da esposa, que periodicamente ia à rua do Ouvidor e à rua Direita, atual Primeiro de Março e lhe trazia notícias do mercado, com a ótica de D. Severa, que obviamente era diferente dos amigos comerciantes.

Vicente gostava de ouvir a esposa porque, além dela sempre ter algo para falar, ansiava por aquela rotina, o banhar-se, vestir-se, ir jantar, sentar na saleta do quarto, olhar as estrelas da janela ou descansar na sua poltrona favorita na sala de estar e ouvir sua esposa, sua filha e alguma música no piano ou no gramofone.

Que investimento, aquele, aliás, amava a música, os livros e o jornal. Sim, o jornal era uma mania, fonte de informação e de sensação de pertencimento. Dia sem ler o jornal não era um dia completo.

Na esquina, onde hoje (2021) existe uma padaria, havia a loja do Sr. Vicente em 1910. O pai de Adelaide se referia ao negócio secular da família como armazém devido às suas lembranças de infância.

D. Severa não gostava de chamar o negócio de “armazém”, preferia “comércio”. Achava que “armazém’ dava a entender que o marido: engenheiro formado, admirador dos irmãos Rebouças e Miguel de Frias na juventude, desprezava os rumos que sua vida havia tomado, ao decidir gerir o negócio familiar.

Sr. Vicente assegurava que não, apenas tinha a sensação de que poderia ter feito mais, não fosse pelo clima que ocorreu no país após o golpe militar de 1889.

Monarquistas eram perseguidos como subversivos e seu pai, que fora fiel ao Imperador, fez automaticamente todas as portas se fecharem para a família nas indicações a cargos e grandes obras do período.

Sobrevindo em 1897 o óbito de Sr. Américo, pai de Vicente, a necessidade de cuidar dos negócios da família foi imperativa e ele aceitou a missão para preservar o legado familiar. Muito embora rentável, a atividade ocasionalmente o fazia se sentir reflexivo.

Vicente não contrariava a memória do pai, secretamente também se via como monarquista, bastava ver a conduta dos atuais governantes e a gastança desenfreada de dinheiro público, o abuso na criação de títulos ufanistas para substituir a dignidade da estrutura do Império.

Sentia-se vivendo numa imitação barata do que havia sido o seu País e temia pelo futuro, afinal os comerciantes eram os primeiros a perder seus negócios em ambiente revolucionário, sendo achacados pelo poder constituído e acusados de desigualdades, quando eram os primeiros a contratar, trazer inovações para o País e movimentar a economia, desde tempos imemoriais.

Bastava ver tudo o que alguns de seus amigos contavam sobre o que ocorria vez em quando no Uruguai e no Paraguai, saques, confiscos, desordem pública generalizada e muitos suicídios de negociantes falidos, de pais de família sem conseguirem sustentá-la, pagar tributos e manter uma vida digna.

Sr. Vicente não falava muito disso com seu amigo, pai dos meninos que moravam em frente ao seu negócio, porque este era militar e, embora fosse tenente, não queria ofendê-lo. Muito embora soubesse que o vizinho e conhecido, Sr. Ary criticasse demais os Generais de então, dizendo: “que eram bacharéis, não soldados” e que “havia quem desmaiasse ao ver sangue, seguramente; nada obstante almejassem o título de ‘generalíssimo’, somente digno daqueles que praticavam atos de notória grandeza em campanhas de guerra” e por fim que no Brasil só existiam “generalíssimos de academia”.

O discurso casava com o que dizia seu pai, para quem “se quisesse ainda encontrar guerreiros deveria buscar, no máximo, dentre capitães, pois ao passar disso, perdiam os bigodes e ganhavam diplomas”.

CONTINUA –

Poder Global vs. Estado Nacional

Quando vemos indivíduos simples, desprovidos de cultura apresentarem reações mais coerentes que a de outros mais esclarecidos devemos no mínimo perceber que a cultura está envenenada. Um dos elementos que envenena a nossa cultura é a crença mística nas instituições democráticas.

Via SHOCKWAVE NEWS – Por Michel Barcellos

Coroação de Carlos VII de França, por Jules Eugène Lenepveu, extraído de Wikipédia

Na semana que passou passamos pela agonia de ver um representante do povo ser mantido preso à revelia da lei, sob a escusa de que aquele ato justamente serviria para manter a lei e a ordem. Em meio à confusão o parlamentar desculpou-se inúmeras vezes diante de todos os seus algozes, na esperança de ser agraciado com a mercê destes. Em inglês há um termo para definir esse tipo de reação: DOA – Dead On Arrival –, um termo usado na saúde para designar que o paciente já estava “morto na chegada” do socorro.

Se as instituições em que o poder é concentrado se assemelham a uma raça de víboras, o pior momento para retratar manifestação a respeito do caráter dos envolvidos é quando estes estão na posição de julgadores. A humilhação diante do mau faz-lhe parecer que é bom.

Quando vemos indivíduos simples, desprovidos de cultura apresentarem reações mais coerentes que a de outros mais esclarecidos devemos no mínimo perceber que a cultura está envenenada. Um dos elementos que envenena a nossa cultura é a crença mística nas instituições democráticas.

Qualquer um que trabalha sob o pressuposto da manutenção das “instituições democráticas” está fadado a cair numa armadilha enorme, pois “um pequeno erro no início torna-se grande no fim”, como ensina S. Tomás de Aquino, ao citar Aristóteles. Em que pese minhas técnicas de redação serem deprimentes, vou tentar explicar o problema das instituições democráticas da melhor maneira que eu possa me fazer entender.

Ao final do século passado o ex-agente da KGB, Yuri Bezmenov, desertou e conseguiu asilo no Ocidente, e logo expôs em palestras e entrevistas a estratégia de subversão das nações pela qual a agência onde trabalhava movia esforços para desestabilizar os países, para poder tomar controle deles. Dentre as inúmeras táticas mencionadas por ele temos a criação de órgãos artificiais na sociedade, para que o povo ficasse confuso no momento em que sentisse a nação ruir e recorresse a mecanismos de defesa que apenas a destruiriam ainda mais. Quando a União Soviética se formou, montou a KGB, a estratégia de subversão das nações e a tática de criação de órgãos artificiais as bases para estes já estavam muito bem fundamentadas e estas eram as instituições democráticas.

As instituições democráticas estão fundamentadas na teoria da tripartição dos poderes, de Montesquieu, onde temos os poderes executivo, legislativo e judiciário governando e fiscalizando uns aos outros para que nenhum se sobreponha ao outro e a nação siga sempre em direção ao bem comum. Pela assimilação dessa teoria as reações de enfrentamento de problemas endêmicos apresentados nos três poderes tendem as da ordem da limpeza destes organismos, pela mudança de seus agentes, ou até mesmo pela criação de um quarto poder moderador dos anteriores, como o fez D. Pedro I na primeira constituição brasileira, e hoje requerida por muitos monarquistas, e até alguns republicanos aleatórios. Sucede que esta teoria já é desde sua concepção um mecanismo artificial de controle da sociedade.

Na aula 556 do Curso Online de Filosofia o professor Olavo de Carvalho ressaltou que, na verdade, há apenas dois poderes: o espiritual e o temporal, sendo o espiritual representado pela Igreja e o temporal representado pelos detentores das forças armadas organizadas. Diante da submissão do poder temporal ao poder espiritual o Antigo Regime reconheceu a existência de um terceiro poder: o poder do povo. Por isso, ancien régime se dividia em três poderes: Primeiro Estado (monarca e nobreza), Segundo Estado (clero), Terceiro Estado (o povo, representado por seus “bons homens” – cidadãos de valor comprovado por medidas legais positivas não muito precisas, mas que satisfaziam as necessidades da época – que tinham direito ao voto). Havia legislativo e judiciário no antigo regime, mas estes não eram poderes, e sim mecanismos de exercício de poder compartilhados pelos Três Estados.

Ainda que houvesse determinada submissão do Primeiro Estado ao Segundo Estado, o Antigo Regime pode já ter se estabelecido diante de um vício: o poderio militar ajuntado pela nobreza foi determinante para a formação dos estados-nações, independentes do poder romano, controlado pela Igreja Católica, que deu origem à Reforma Protestante, com a instituição das igrejas nacionais.

Apesar de o surgimento dos estados nacionais ser anterior à Reforma Protestante a questão da sobreposição do poder temporal sobre o poder espiritual é pertinente. O poder espiritual é um poder universal, como o próprio nome da Igreja Católica traz em si, sendo “católica” tradução para universal, ou global, até certa medida.

Há narrações de formações de nações independentes que apontam influência divina. No século XIII, S. Tomás de Aquino escreve Do Reino, onde ensina que o melhor chefe de estado para conduzir a nação deve ser o rei e que este, se exercer seu ofício com virtudes para guiar sua nação a Cristo, receberá o prêmio da bem-aventurança.

Quando Cristo declara que seu Reino não é deste mundo ele estabelece a linha de sucessão apostólica para o exercício temporal do governo de seu reino espiritual, isso não faz com que o governo temporal deixe de ser competência divina. Pois, se o objetivo de todo ser humano é encontrar-se com Deus, em última instância quem deve guiá-los para Deus é o Próprio e qualquer homem que receba a função de tomar a liderança do governo deve estar ciente que para exercer seu trabalho com excelência deve este buscar submissão de seus atos à vontade de Deus.

Não é por razão diferente que nações antigas tomavam os seus governantes por personalidades divinas. Não é necessário conhecer a Deus para saber que o governo é função divina, já que o próprio mundo foi criado sob essa ordem. E, ainda que não se conheça a Deus, qualquer um que vive no mundo conhece ao menos a parte onde vive, sendo natural reconhecer a competência divina do governo, já que o homem é criação divina, e a ligação com o Criador está na natureza do homem, ainda que, decaído, desconheça quem seja Ele.

A divisão de poderes de governo sobre o homem não pode decorrer de outra coisa senão do próprio homem. O poder temporal é a ampliação do poder físico do homem e o poder espiritual é a ampliação do poder intelectual do homem. Corpo e mente, ou corpo e espírito são o que dão origem aos poderes do estado. Só que um dos poderes do estado não é do estado nacional, mas do estado universal, pois é exercido pela Igreja.

Isso não é uma projeção de ideais, mas uma análise da realidade. Não se deve buscar que os poderes sejam esses porque eles já o são. A sociedade que vive em termos distintos não pode estabelecer outros poderes, mas apenas estabelecer uma mentira para controlar o povo e governá-lo sob essa mentira. Não é idealismo reconhecer que os poderes verdadeiros são o físico e o intelectual. Idealismo é inventar que os poderes são executivo, legislativo e judiciário. Enquanto um é reflexo da natureza, o outro é artifício de controle.

Compreendidos os poderes físico e espiritual cabe perguntar se estes são os únicos. E a resposta é não. Se a sociedade é reflexo do indivíduo e as partes do estado são reflexo das partes do indivíduo, o ser humano é dividido em três partes: corpo, alma e espírito. O poder físico é reflexo do corpo e o poder intelectual é reflexo do espírito. Que poder é reflexo da alma?

Para responder a essa pergunta é necessário compreender o que é a alma. A alma é a parte do homem responsável pelos sentimentos. A alma ama, a alma odeia, a alma deseja. A alma tem desejos e o espírito tem vontades. A alma tem sentimentos e o corpo tem sentidos. A alma é a ligação do corpo com o espírito. Esta é a função do terceiro poder: fazer o contrapeso entre os dois primeiros.

Sendo a alma aquela quem carrega os sentimentos e reconhecendo que dentre os sentimentos existem aqueles mais elevados, que refletem o bem, e aqueles mais baixos, que refletem o mal, o poder da alma na sociedade se reflete no seu povo. Dentre o povo existem os que se mostram mais virtuosos e os que se mostram menos virtuosos e é assim que se seleciona os que podem se candidatar para o exercício deste poder na sociedade, por meio do sufrágio e da ocupação de cargos públicos.

Se o terceiro poder é o poder do povo e este poder decorre da alma, sendo a alma capaz de vícios e virtudes, o sufrágio universal é a elevação dos vícios à mesma categoria das virtudes e a eliminação das diferenças entre certo e errado. O sufrágio universal é a permissão para o governo dos vícios em detrimento das virtudes.

Enquanto toda a ciência jurídica empreende enormes esforços para fazer funcionar a teoria de tripartição de poderes de Montesquieu, o Antigo Regime já tinha tudo solucionado com a divisão de poderes nos Três Estados, que eram reflexo perfeito da natureza humana, sendo o Primeiro Estado reflexo do corpo, o Segundo Estado reflexo do espírito e o Terceiro Estado reflexo da alma.

Por isso é que qualquer político que resolver defender as “instituições democráticas” estará entregando ao inimigo a corda com que será enforcado.

Sem a compreensão dos verdadeiros três poderes do estado é impossível discutir-se a questão do poder global e do estado nacional.

Em que pese Yoram Hazony ser brilhante em seu livro A Virtude do Nacionalismo este não resolve o problema por ele mesmo proposto quanto à questão de ser a Igreja Católica um poder de característica imperialista. Hazony propõe que para uma sociedade ser livre ela deve fortalecer a sua nação, para proteger-se de qualquer império que queira subjugá-la, sendo a natureza do império subjugar as nações. Ele fundamenta sua proposição com base na história de formação das sociedades narradas tanto na Bíblia como em outros livros históricos. E eu não discordo dele sobre a virtude do nacionalismo.

É muito interessante o modo que Hazony trata a Igreja Católica, colocando-a em paralelo com os globalistas, comunistas e todos que pretendem governar o mundo inteiro sob um império global, porque podemos enxergar a Igreja Católica como concorrente dos globalistas! E essa percepção é importante até mesmo para identificar as maneiras com que eles podem agir para dominar os povos da terra.

Ao perceber o modo como os três poderes se estabelecem, não como uma possibilidade, mas como um reflexo da realidade, sendo o poder espiritual internacional e os poderes temporal e do povo nacionais, a análise de todos os meios de ação aplicada às forças que pretendem subjugar as nações do mundo pode passar pela maneira como a mudança dos critérios morais servirá para erigir uma nova religião universal para servir de poder espiritual que submeterá os outros dois poderes a ela.

Sob essa perspectiva a ação de instituições metacapitalistas ligadas a pautas morais podem ser identificadas como a formação e elevação de um novo poder espiritual para submeter os governos e as nações. Assim como a Igreja Católica converteu povos e governantes, o novo poder espiritual trabalha na conversão aos seus novos valores morais – que são um tanto quanto imorais, diga-se de passagem, tendo como uma de suas ferramentas de conversão o suborno.

Ou seja, o incentivo de pautas nacionalistas como “Brasil acima de tudo” e “make America great again” sem a percepção do poder espiritual que se forma para subjugar as nações torna todas as ações dessas pautas inócuas.

Temos uma religião universal dada pelo próprio Deus em pessoa, o catolicismo. Ela é o poder espiritual e um poder global. Temos os poderes nacionais, que são as armas e o povo. Mas eles estão completamente desordenados. O poder temporal englobou o poder do povo dentro de si, enganou-o dizendo que não existe poder espiritual, usando das pseudo-religiões iluminista e positivista para ludibriar o povo e utilizando-se da teoria tripartite de poderes de Montesquieu para colocá-lo no círculo vicioso da democracia.

O povo exerce seu poder praticando virtudes, começando pela submissão ao poder espiritual e pela formação de núcleos familiares fortes. Com a submissão ao poder espiritual o povo pode se organizar em instituições decorrentes da família, como clãs e tribos ou outros tipos de associações que tenham como pressuposto a submissão da família a Deus para que com isso se atinja a liberdade de espírito. Quando todo empreendimento comercial, político, social, ou qualquer que seja se empenha na submissão à vontade de Deus o povo consegue fazer o poder temporal se espelhar nele. O poder de coerção do povo é mínimo, assim como o poder de coerção do poder espiritual. Mas a união do poder do povo com o poder espiritual faz com que o poder temporal não consiga obrigar o poder do povo a se submeter a ele, ainda que seja o que detém poder coercitivo maior.

O poder de resistência que o povo adquire com o acesso às armas de nada serve se não for usado para submeter o poder temporal ao poder espiritual, sendo que o poder espiritual dá limites para a resistência que o poder do povo pode oferecer ao poder temporal, já que o poder temporal também é um poder divino.

Por isso é que Gene Sharp, quando afirma que a resistência não violenta tende a ser mais perene, ele tem um fundo de razão. As próprias armas são o poder temporal e o acesso às armas é o acesso a uma parcela do poder temporal. É bom que o povo tenha acesso a parte do poder temporal, assim como ele tem acesso ao poder espiritual cada vez que coloca um de seus filhos em seminários. Ao fazer isso o integrante do poder do povo deixa de pertencer a este para pertencer ao poder espiritual. Assim que como a aquisição de uma arma não fortalece o poder do povo, mas apenas lhe dá uma pequena parcela de poder temporal. O poder do povo é de outra natureza, a natureza emocional. A aquisição de uma arma não fortalece o poder da emoção, apenas reconhece que a emoção sozinha tem poucas forças para se impor.

Ainda que eu possa ter feito muitas confusões ao longo do meu texto, pois não sou intelectual (sim, eu tenho diploma, mas isso não faz de mim um intelectual) e não examinei todas as questões acerca dos temas que eu tratei, creio que eu consegui expor um pouco sobre como se deve tratar a política baseando-se no indivíduo e objetivando-se a Deus, e que qualquer desvio desse caminho pode resultar na derrota, não do indivíduo, mas do próprio povo, pois o indivíduo busca a morte para obter a salvação – sendo que é a vida que deve justificar a salvação e apenas depois de viver uma vida justa é que a morte deve chegar, nunca provocada por meios artificiais, que tirariam toda a justificativa da salvação. Buscar restaurar a forma do poder temporal para adequar-se a sua natureza, em harmonia com o poder espiritual e o poder do povo deve ser a pauta política primária de todos aqueles que tenham acesso a esse poder e endossar a teoria tripartite de poderes de Montesquieu é fazer justamente o oposto disso.

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Uma rua e três casas

Crônicas do Brasil que se foi

Este conto autoral de Renata Araujo, faz parte de um livro autoral de contos, o conteúdo autoral é protegido por lei e publicado em primeira mão e com exclusividade no Tribuna de Santa Cruz. A reprodução é autorizada com citação da fonte, exemplo: ARAUJO, Renata. Uma rua e duas casas: crônicas do Brasil que se foi, 2019. Disponível em: <https://tribunadesantacruz.com/2021/03/13/uma-rua-e-tres-casas/&gt;. Acesso em: 13 de mar 2021.

O texto, escrito em parágrafos curtos para facilitar a leitura na web, foi construído para facilitar a leitura, hodiernamente avessa a parágrafos longos.

O ano era 1910. Adelaide e Amélia vinham andando da Escola Normal da Corte (o pai delas se referia ainda assim ao Instituto de Educação do Rio de Janeiro, muito embora a diretora não gostasse quando alguém deixava escapar). Já estavam a duas quadras da entrada do Imperial Colégio Militar na Rua São Francisco Xavier e comentavam:

-Mas Adelaide, você não pensa ser curioso o fato dos colégios mais relevantes de educação da juventude carioca terem sido idealizados pelo Imperador? Sem falar no próprio colégio Pedro II? O Magnânimo era admirável na promoção da educação! Sei que é considerado subversivo dizer isso (deu uma rápida olhada para trás, agora falando em tom baixo) e que o pai do Álvaro e Albertinho não nos escute, mas esses militares se limitam a imitar ou a continuar a obra do Império e gastar dinheiro público com obras empoadas.

As moças eram lindas, com idades entre 13/14 anos, possuindo belezas um pouco diferentes: Adelaide tinha o cabelo escorrido e biótipo como de índia, no entanto, no lugar dos olhos negros ou castanhos, tinha herdado olhos azuis e um narizinho arrebitado, ambos da mãe portuguesa, o que lhe dava um ar exótico e mimoso. Amélia era ruiva, sua mãe era descendente de holandeses, e possuía o porte elegante e delicado de bailarina, costumava prender o cabelo cacheado em coque e lamentava-se de ter os grandes olhos gentis, quase da cor dos cabelos, num tom de mel que lhe dava um aspecto todo harmônico, compondo a tez de alabastro. Achava injusto não ter herdado os olhos verdes da mãe, ruiva como ela. Ambas não passavam de 1,65m de altura.

Ao que Amélia responde:

– Você adora falar o nome de Álvaro para aumentar minha dor-de-cotovelo e do Albertinho para seu bel-prazer. Sabes que ainda estou magoada com o que ele fez. Não se faz isso, me deixar esperando e ir flanar nas Praias do Centro da Cidade, com aquela filha do diplomata. Aquela ali se comporta dessa maneira indecente porque é rica, se fosse como nós, conservaria mais a modéstia e a virtude.

No que falavas estás certa, Amelinha, deveras, mas paremos de falar sobre isso, os militares aplicavam lei marcial aos jornalistas que ousassem falar disto na sequência do golpe de 1889 (e já sussurrava com medo que as ouvissem), melhor falar baixo disso e aliás, sobre Beto e Alvinho, olha quem está ali em frente ao pórtico, não são eles? Junto ao Oto e ao Fernando?

Ai meu Senhor, hoje não posso com isso, vamos, vem Lala… (Amélia chamava assim Adelaide quando estava com pressa ou nervosa e esse era o caso) vamos entrar aqui nesta rua que dá no mesmo, apenas sairemos mais perto da minha casa que da sua e você me paga caminhando, por ter atraído a presença deles com sua língua falante. Tenho que ir ajudar minha mãe nas pinturas dos tecidos que colocará nas paredes com colchetes.

Olhando para trás nervosamente perguntou:

E tu, o que farás à tarde?

Calma, Amélia, eles não estão nos vendo (e Adelaide segurava o riso, porque tanto viram, que já vinham andando apressadamente para as alcançar), acalma-te! Em tom divertido antevendo que se aproximavam disse, desconversando:

Vou fazer umas barras e desenhos nos panos para usar com o serviço de jantar. Mamãe quer bordar frutas. Frutas! Já viste coisa mais aborrecida? Queria desenhar faisões, flores e plantas da botânica brasileira, mas mamãe quer as estúpidas frutas…diz que gosta dos grafismos e sua boca enche d’água ao ver imagens de uvas e maçãs…despistamos, viste?”.

Nisso as alcança primeiro Álvaro, com seu físico de atleta de remo trabalhado na Lagoa Rodrigo de Freitas e chegando a elas afobado, disse com aquela voz deliciosamente barítona e divertida:

“- A quem as lindas moças pensavam despistar?” Algum meliante?

Nisso alcança o alegre grupo, Alberto, com sua voz um pouco mais rouca e a calma inerente a um campeão de equitação, atividade que praticava no Colégio Militar:

“-Isso mesmo, onde está? Quero ser o primeiro a dar uma lição em tão grande malfeitor, capaz de perturbar lindas flores como sois!

Adelaide ria e se agarrava mais ao material escolar que trazia em mãos, para disfarçar a alegria em ver o cobiçado rapaz com o qual sonhava de contínuo, ali em carne, osso e beleza a conversar com elas. Recebendo de contínuo olhares de soslaio do enamorado, aos quais corava e tinha o coração cheio de alegria. Já Amélia, que era um pouco mimada, estava namorando Álvaro e não suportava ser contrariada, apesar de começar a arrefecer em seu aborrecimento com o rapaz, pelo afeto que lhe aquecia o coração, e respondeu sem graça:

– Não passa nada, pensamos que vinha Consuelo com as meninas da rua do Mordomo, não é Adelaide?” Disse Amélia se referindo à rua defronte o Palacete Laguna, no entroncamento com a Rua Ibituruna, que até 1889 pertenceu ao mordomo do Imperador e fica do lado direito no sentido Centro da cidade, indo pela atual Avenida Radial Oeste que cortou o terreno do Palácio Imperial na direção dos colégios dos rapazes e das meninas.

Os rapazes, que regulavam em idade com as meninas, eram filhos de pai militar e mãe do lar, típicos brasileirinhos. Possuíam tez branca, com fundo de pele neutro (Álvaro) e oliva (Alberto), ambos com olhos pequenos e castanhos, sorriso largo; traços e cabelos cacheados/ondulados que lembravam as clássicas compleições dos gregos. Aliás, dentre as muitas divergências havidas durante a vida de ambos, o foco do debate atual era se provinham dos gregos ou romanos, utilizando conceitos que tinham aprendido na aula de antropologia com o Professor Heráclito.

Acreditando ter ascendência grega, Alberto buscava se comportar como filósofo, praticava equitação e era o mais erudito dos dois. Por sua vez Álvaro se considerava descendente de centurião romano, fazia muitos exercícios tendo destaque no remo, corrida e tiro (o que praticavam no colégio militar e nas lagoas de então, no Rio de Janeiro).

Mal sabiam que em pouco tempo esta seria a cidade dos aterros, em que os formosos leitos d’água seriam arrasados por um suposto progresso, adotado pela administração republicana/positivista que já havida modificado a orla de Botafogo, aterrado as praias do Centro da cidade, deixando as lindas igrejinhas como esposas sem marido no meio de grandes vias em posições incoerentes.

Aliás. Cabe pensar no quanto poderia ser democrático o acesso às praias, que não estavam adstritas naturalmente à zona sul do Rio, aos poucos privilegiados que podem arcar com o valor dos imóveis e o IPTU dali.

Havia praias na Gamboa, onde hoje é o Porto do Rio, em frente à Igreja de Santa Luzia e à Igrejinha da Praia d’Ajuda, Caju e entrada de mar em São Cristóvão, que realmente tinha uma Boa Vista para o mar. A Praia Formosa que hoje é uma estação de VLT, ao invés de passar por região favelizada que espanta quem se encontra no interior no vagão, poderia passar por uma linda praia.

Enfim, o “progresso”.

Voltando ao nosso quarteto, quase chegando no largo, que hoje é a Praça André Rebouças (e que de certa forma conserva o encanto), já se antevia as casas, de Amélia do lado esquerdo e a arvorezinha que ficava defronte à casa de Adelaide, que era um arraso de linda, mais ao final da quadra.

A casa de Amélia também, em estilo neoclássico tinha sido construída por seus avós no século XIX, assim como a de Adelaide. A casinha de dois andares atualmente está conservada e pintada de amarelo, mas na época era pintada de rosa, como “era moda em Paris” segundo a mãe de Amélia, uma ex-cantora lírica que ainda era apegada às modas do Velho Mundo.

As pilastras em estilo grego, com o frontão do portal triangular, sustentavam uma varanda, aonde a mãe de Amélia ainda exercitava o talento de cantora lírica nas festividades. Com o pé-direito alto como das casas de então, as portas e janelas altas e de acabamentos retos, como impunha o estilo, a casa tinha um ar clássico que combinava com os moradores.

O pai de Amélia era professor do Colégio Pedro II, intelectual, escritor, músico nas horas vagas. Gostava de conversar e era amigo do tempo da Escola Politécnica de Engenharia, do pai de Adelaide. As famílias eram próximas e a rua, uma festa. Toda ocasião relevante no calendário da igreja católica, era a mesma profusão de brincadeiras, portas, portões (caso existissem) e janelas abertos, com entra e sai de pessoas. Música nos gramofones, principalmente no dos pais de Amélia, que era dos melhores, importado de Paris.

A igreja frequentada pelas famílias da região era a tradicional Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, ainda de pé e em excelente estado de conservação, onde se deu o batizado da filha de Domitila e Pedro I.

O grupo se aproximava do portão:

– “Chegamos, infelizmente!” disse Álvaro em tom brincalhão, ao que Adelaide, andando de costas, despediu-se da amiga dizendo:

“Até amanhã! Terça é meu dia de passar na sua porta” ao que a amiga respondeu acenando:

Está bem! Com aquelas carinhas de quem terá muito a conversar no caminho do colégio, no dia seguinte. Alberto foi andando devagar com Adelaide, em parte para esperar o irmão, parte para acompanhar a moça até sua casa.

Voltando-se para a namorada, Álvaro perguntou a Amélia:

-Ainda aborrecida comigo? Só fui fazer uma gentileza à Josephine que não queria ir até a casa dela sozinha!

Amélia, se dando conta de que, com um ou dois sorrisos já tinha se esquecido do que ele fez, disparou em tom sarcástico:

-Siiim, é deveras muito gentil, se não fosse loira de olhos azuis, aquela empoada atrevida, você a acompanharia? Eu não gosto dos modos dela, Álvaro! É francesa, o pai dela é iluminista! Meu pai disse que pessoas como ele colocaram muita gente na guilhotina, causaram um banho de sangue e depois foram mortos pela mesma guilhotina que fizeram! Os modos dela não são os nossos e para seu governo saiba que não passas de um cãozinho que ele chama e vais abanando o rabinho correndo. Quero ver o que ela vai pensar se te vir ajudando Padre Jonas na Missa, vai rir de você por toda a eternidade!

Vejo que ainda estás enfadada comigo, sim, concordo com muita coisa que disse. De fato ela tem uns assuntos meio estranhos, mas não me dizem respeito, sou comprometido com você e só fiz uma gentileza. Se não estiveres tão enfadada comigo até lá, poderei te acompanhar no baile de quinze anos de Adelaide. Me disseram que o pai dela conseguiu um salão no Paço Isabel para realização da festa… bem, espero que te acalmes.

Ao ouvir falar do baile Amélia rapidamente mudou de humor. Só de lembrar, não somente do baile, mas de tudo que envolvia: a preparação, as compras na rua do Ouvidor, tudo!!! E ir ao baile com Álvaro… diante desses pensamentos disse, visivelmente mais feliz:

-Claro que sim, imagine, não estou mais aborrecida, apenas me prometa que não vai mais falar com aquela exibida!

Ao longe, Alberto chamou:

Vamos, já estou quase em casa!

Disse Álvaro, aproximando de Amélia e falando em tom divertido:

Tenho que ir, está na hora de desfazer o “Clube do A” (como ele chamava os 4 pela letra inicial dos nomes).

Em seguida se aproximou um pouco mais, o suficiente para Amélia sentir como se sentiria quando eles finalmente se beijassem, o que não tinha acontecido ainda, mas o suficiente para fazer o sangue dela circular mais rápido e o coração acelerar e disse, olhando-a nos olhos, ainda com o jeito divertido, como quem agora detém um “grande segredo”:

-Melzinha, deixe disso, senão terás que confessar ao Padre que andas irada. Ele vai te colocar na penitência e não poderemos ir ao baile e eu odiaria isso.

A mãe de Amélia, D. Angélica apareceu na sacada, quebrando o momento, dizendo:

Olá Alvinho, mande lembranças à sua mãe. Amélia, entre, já passa da hora de almoçar.

Recompondo-se como quem acorda de um sonho bom, Amélia olha pra cima respondendo:

Sim, mãe! Já vou.

-Até logo, Alvinho.

O rapaz a respondeu com um sorriso, andando por um momento de costas na direção de sua casa, despedindo-se piscando, com o olhar brilhante da adolescência.

________________ x ____________________

Mais para o final da rua, Adelaide entrou em casa e ficou vendo o Alberto acenando para ela da escada de casa (na esquina da atual General Canabarro com Oto de Alencar), a maior da rua em extensão, com a extremidade do terreno quase chegando na altura da casa de Adelaide, mas do lado oposto da calçada.

Em alguns instantes chega sua mãe, vindo de dentro perguntando:

– Olá, como foi a Escola?

Adelaide respondeu feliz, ainda vendo o rapaz entrar em casa:

– Colégio, mãezinha, sou a mais nova pré-debutante da mui leal e heroica cidade do Rio de Janeiro!

(CONTINUA)

A deseducação das elites da América

Pais abastados, com medo de entrar em conflito com a nova ortodoxia nas escolas particulares de seus filhos, organizam-se em segredo.

Bari Weiss

(janniswerner / Getty Images Plus)

Este artigo foi publicado hoje no City Journal . Segue íntegra, com agradecimento ao City Journal por permitir a reimpressão:

Os dissidentes usam pseudônimos e desligam seus vídeos quando se encontram para ligações clandestinas do Zoom . Eles geralmente coordenam treinos de futebol e caronas, mas agora eles se reúnem para traçar estratégias. Eles dizem que poderiam enfrentar profundas repercussões se alguém soubesse que eles estavam falando.

Mas a situação recente tornou-se flagrante demais para e-mails ou reclamações em teleconferências. Então, em um fim de semana recente, em uma rua arborizada no oeste de Los Angeles, eles se reuniram pessoalmente e me convidaram para participar.

Em um quintal atrás de uma casa de quatro quartos, dez pessoas estavam sentadas em um círculo de cadeiras de plástico Adirondack, comendo pacotes de Skinny Pop. Estes são os rebeldes: pais abastados de Los Angeles que mandam seus filhos para Harvard-Westlake, a escola particular de maior prestígio da cidade.

Pelos padrões americanos normais, eles são muito ricos. Pelos padrões de Harvard-Westlake, eles são medianos. Esses são casais com duas carreiras que atribuem seu próprio sucesso não a conexões familiares ou riqueza herdada, mas à sua própria educação. Portanto, parece-lhes algo mais do que irônico que uma escola que custa mais de US $ 40.000 por ano – uma escola com Charlie Munger, braço direito de Warren Buffett, e Sarah Murdoch, esposa de Lachlan e nora de Rupert, em seu conselho – está ensinando aos alunos que o capitalismo é mau.

Para a maioria dos pais, a  demonização do capitalismo  é o menos importante. Dizem que os filhos dizem que têm medo de falar abertamente na aula. Acima de tudo, eles temem que o novo plano da escola de se tornar uma “instituição anti-racista” – revelado em julho deste ano, em um documento de 20 páginas – esteja fazendo com que seus filhos se fixem na raça e dêem importância a ela de uma forma que os pareça como grotesco.

“Eu cresci em LA, e a Harvard School definitivamente lutou com questões de diversidade. As histórias que alguns expressaram desde o verão parecem totalmente legítimas ”, diz um dos pais. Ele diz que não tem problema com a escola fazer maiores esforços para corrigir erros passados, incluindo trazer mais vozes de minorias para o currículo. O que ele tem problema é com um movimento que diz a seus filhos que a América é um país ruim e que eles carregam a culpa racial coletiva.

“Eles estão fazendo meu filho se sentir racista por causa da pigmentação de sua pele”, disse uma mãe. Outro coloca uma questão para o grupo: “Como focar os holofotes na raça fixa como as crianças falam umas com as outras? Por que eles não podem ser apenas amigos? ” (Harvard-Westlake não quis comentar.)

‘Se você publicar meu nome, isso arruinaria minha vida’

Este grupo de pais de Harvard-Westlake é um dos muitos que estão se organizando silenciosamente em todo o país para lutar contra o que descreve como um movimento ideológico que assumiu o controle de suas escolas. Esta história é baseada em entrevistas com mais de duas dúzias desses dissidentes – professores, pais e crianças – em escolas preparatórias de elite em dois dos estados mais azuis do país: Nova York e Califórnia.

Os pais no quintal dizem que, para cada um deles, há muitos mais, com medo de falar. “Já conversei com pelo menos cinco casais que dizem: entendi. Eu acho que a maneira que você faz. Só não quero polêmica agora ”, relatou uma mãe. Todos estão ansiosos para que sua história seja contada – mas nenhum deles me deixou usar seu nome. Eles se preocupam em perder seus empregos ou machucar seus filhos se sua oposição a essa ideologia for conhecida.

“A escola pode pedir que você saia por qualquer motivo”, disse uma mãe em Brentwood, outra escola preparatória de Los Angeles. “Então você será colocado na lista negra de todas as escolas particulares e será conhecido como racista, o que é pior do que ser chamado de assassino.”

Um pai de uma escola particular, nascido em uma nação comunista, me disse: “Eu vim para este país fugindo do mesmo medo de retaliação que agora meu próprio filho sente”. Outro brincou: “Precisamos alimentar nossas famílias. Ah, e pague $ 50.000 por ano para que nossos filhos sejam doutrinados. ” Um professor na cidade de Nova York expressou de forma muito concisa: “Falar contra isso é colocar todo o seu capital moral em risco”.

Os pais que se manifestaram contra essa ideologia, mesmo de maneira privada, dizem que não deu certo. “Tive uma conversa com um amigo e perguntei a ele: ‘Há algo sobre esse movimento que devemos questionar?’”, Disse um pai com filhos em duas escolas preparatórias em Manhattan. “E ele disse: ‘Cara, é um terreno perigoso em que você está na nossa amizade’. Já tive o suficiente dessas conversas para saber o que acontece. ”

Esse medo é compartilhado, profundamente, pelas crianças. Para eles, não é apenas o medo de tirar uma nota ruim ou ser rejeitado por uma recomendação de faculdade, embora esse medo seja forte. É o medo da vergonha social. “Se você publicar meu nome, isso arruinaria minha vida. As pessoas me atacariam por questionar essa ideologia. Eu nem quero que as pessoas saibam que sou um capitalista ”, disse-me um aluno da Fieldston School, em Nova York, em um comentário ecoado por outros alunos com quem conversei. (Fieldston não quis comentar para este artigo.) “As crianças têm medo de outras crianças”, diz uma mãe de Harvard-Westlake.

A atmosfera está deixando seus filhos ansiosos, paranóicos e inseguros – e isolados até mesmo de seus amigos mais próximos. “Meu filho sabia que eu estava falando com você e me implorou para não falar”, disse-me outra mãe de Harvard-Westlake. “Ele quer ir para uma ótima universidade e me disse que uma declaração ruim minha nos arruinaria. Estes são os Estados Unidos da América. Você está brincando comigo?”

Woke-Weaning for Harvard

Estas são as elites da América – as famílias que podem pagar cerca de US $ 50.000 por ano para que seus filhos sejam preparados para os clubes de alimentação de Princeton e as sociedades secretas de Yale, o caminho deslizante para se tornarem mestres – desculpe, masterx – do universo. As ideias e valores neles incutidos influenciam o resto de nós.

Essa não é a única razão pela qual esta história importa. Essas escolas são chamadas de escolas preparatórias porque preparam os príncipes da América para ocupar seus lugares no que dizem ser nossa meritocracia. Nada acontece em uma escola preparatória de ponta que não seja um espelho do que acontece em uma faculdade de elite.

O que isso diz sobre o estado atual dessa meritocracia, então, que quer crianças fluentes na teoria crítica da raça e “fragilidade branca”, mesmo que tal conhecimento venha às custas de Shakespeare? “As faculdades querem crianças – clientes – que serão pré-alinhadas com certas ideologias que originalmente vieram dessas faculdades”, diz um professor STEM em uma das prestigiadas escolas preparatórias de Nova York. “Eu chamo isso de desmame acordado. E esse é o produto que escolas como a minha estão oferecendo ”.

Os pais com quem conversei para esta história são experientes e espertos: eles percebem que é bizarro – na melhor das hipóteses – para uma escola como Harvard-Westlake discorrer constantemente sobre justiça social, já que gasta mais de US $ 40 milhões em um novo  atleta fora do campus complexo . Esta é uma escola que envia um relatório anual para cada família Harvard-Westlake listando as doações dos pais. No ano passado, o grupo “Heritage Circle” – presentes de US $ 100.000 ou mais – incluiu Viveca Paulin-Ferrell e Will Ferrell. Uma pata vermelha ao lado dos nomes de Jeanne e Tony Pritzker indicava mais de uma década de doações cumulativas.

Os pais dizem que é uma escola onde dar mais leva mais. Grandes doadores recebem convites para jantares especiais e, o mais importante, tempo e atenção dos responsáveis. Enquanto isso, seus filhos aprendem política radical-chique, que, é claro, não envolve nada realmente radicalmente radical, como redistribuir o patrimônio.

“Essas escolas são o privilégio do privilégio do privilégio. Eles dizem sem parar que tudo gira em torno da inclusão. Mas eles são,  por definição,  exclusivos. Essas escolas são para o topo da sociedade ”, uma jovem mãe em Manhattan me disse.

O poder na América agora vem de falar acordado, uma linguagem altamente complexa e em constante evolução. A Grace Church School em Manhattan, por exemplo, oferece um  guia de 12 páginas  para “linguagem inclusiva”, o que desencoraja as pessoas de usar a palavra “pais” – “pessoal” é preferível – ou de fazer perguntas como “de que religião você é? ” Quando questionado sobre o comentário, o Rev. Robert M. Pennoyer II, o diretor assistente da escola, respondeu: “Grace é uma escola episcopal. Como parte de nossa identidade episcopal, reconhecemos a dignidade e o valor comum à humanidade ”. Ele acrescentou que o guia vem “do nosso desejo de promover um sentimento de pertença para todos os nossos alunos”.

Uma professora de inglês de Harvard-Westlake dá as boas-vindas aos alunos de volta após o verão com: “Eu sou uma mulher branca queer de ascendência europeia. Eu uso [ela | ela] pronomes, mas também se sente confortável usando [eles | eles] pronomes. ” Ela anexou uma “carta de autocuidado” citando Audre Lorde: “Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação e isso é um ato de guerra política”.

Ai do garoto da classe trabalhadora que chega à faculdade e usa o latino em vez de “Latinx”, ou que tropeça na conjugação de verbos porque um colega prefere usar os pronomes eles / eles. Fluência em acordado é um marcador de classe eficaz e a chave para esses príncipes manterem o status na universidade e além. Os pais sabem disso, então Wake é agora a língua franca das melhores escolas preparatórias do país. Como disse uma mãe em Los Angeles: “Isso é o que todas as faculdades estão fazendo, então temos que fazer. O pensamento é: se Harvard faz isso, deve ser bom. ”

‘Educado em ressentimento e medo’

“Eu estou em uma seita. Bem, isso não é exatamente certo. É que o culto está ao meu redor e estou tentando salvar as crianças de se tornarem membros. ” Ele soa como um desertor da Cientologia, mas é professor de matemática em uma das escolas de ensino médio mais elitistas da cidade de Nova York. Ele não é politicamente conservador. “Estudei teoria crítica; Eu vi Derrida falar quando eu estava na faculdade ”, diz ele,“ então, quando essa ideologia chegou à nossa escola nos últimos anos, reconheci a língua e sabia o que era. Mas estava em uma forma mutante. ”

Este professor está falando comigo porque está alarmado com o preço que essa ideologia está cobrando de seus alunos. “Comecei a ver o que estava acontecendo com as crianças. E é isso que eu não pude suportar. Eles estão sendo educados no ressentimento e no medo. É extremamente perigoso. ”

A cinco mil quilômetros de distância, em Los Angeles, outro professor de escola preparatória diz algo semelhante. “Ensina as pessoas que têm tanto a ver a si mesmas como vítimas. Eles acham que estão sofrendo opressão em uma das escolas mais chiques do país. ”

Parece estar funcionando. Uma mãe de Los Angeles me disse que seu filho ouviu recentemente de um amigo, que é negro, que ele é “inerentemente oprimido”. Ela estava incrédula. “Esse garoto é um multimilionário”, disse ela. “Meu filho disse ao amigo: ‘Explique-me. Por que você se sente oprimido? O que alguém fez para que você se sentisse menos? ‘ E o amigo disse: ‘A cor da minha pele.’ Isso me surpreendeu. ”

‘Nós não os chamamos mais de Leis de Newton’

O programa de ciências em Fieldston faria qualquer pai desmaiar. As disciplinas eletivas para alunos de 11ª e 12ª série, de acordo com o  site da escola , incluem imunologia, astronomia, neurociência e farmacologia.

Mas a física parece diferente hoje em dia. “Não as chamamos mais de leis de Newton”, um veterano da escola me informa. “Nós as chamamos de três leis fundamentais da física. Eles dizem que precisamos ‘descentrar a brancura’ e precisamos reconhecer que há mais do que apenas Newton na física. ”

Um de seus colegas de classe diz que tenta fazer “as aulas de fatos, não as de identidade”. Mas ficou mais difícil distinguir entre os dois. “Eu peguei a história dos Estados Unidos e percebi que, quando você aprende sobre a história dos Estados Unidos, talvez você a estruture por período de tempo ou o que aconteceu sob cada presidência. Rastreamos diferentes grupos marginalizados. Foi assim que foi estruturado. Eu só ouvi um punhado de nomes de presidentes em sala de aula. ”

Brentwood, uma escola que custa $ 45.630 por ano, ganhou as manchetes algumas semanas atrás, quando realizou   “sessões de diálogo e construção de comunidade” racialmente segregadas . Mas quando falo com o pai de um aluno do ensino médio lá, eles querem falar sobre o currículo de inglês de seus filhos. “Eles substituíram todos os livros sem nenhuma consulta ou mesmo informando os pais.” O currículo não apresenta mais clássicos como  A Letra Escarlate,  Pequenas Mulheres,  Para Matar um Mockingbird e O Senhor das Moscas. Os novos livros incluem:  Stamped,  Dear Martin,  Dear Justice, e  Yaqui Delgado quer chutar seu traseiro.

“O reitor me disse, basicamente, que é importante mudar com o tempo”, disse o pai de Brentwood. Em um comunicado, o diretor de comunicações de Brentwood disse: “Diversidade, equidade e inclusão são componentes críticos de nossa educação e de nossa comunidade na Escola de Brentwood. Os eventos do verão passado criaram um chamado à ação para todos nós, em nossa comunidade escolar e além. ” Brentwood anunciou um dia letivo para o início tardio em 10 de março para o ensino fundamental “devido ao nosso estudo do livro do corpo docente sobre  Fragilidade Branca “.

Em Fieldston, é oferecida uma disciplina eletiva para alunos do segundo e terceiro anos do ensino médio, chamada de “brancura histórica”. Na Grace Church School, os idosos podem fazer um curso chamado “Allying: Why? Quem? e como?” O currículo inclui um zine chamado “ Cúmplices, não aliados ” que declara que “o trabalho de um cúmplice na luta anticolonial é atacar as estruturas e ideias coloniais”, ao lado de uma fotografia de um carro da polícia em chamas. Harvard-Westlake, em seu extenso plano anti-racista anunciado neste verão, incluiu “redesenhar o curso de História dos EUA do 11º ano de uma perspectiva crítica da teoria racial”, entre muitos objetivos semelhantes.

Uma captura de tela de “Cúmplices, não aliados”.

Questionar qualquer uma das mudanças curriculares, dizem os pais, é se tornar suspeito: “Todos os bate-papos em grupo em que estou com os pais da escola, com exceção do grupo de pais preocupados, eles têm um padrão de envergonhar qualquer pessoa que compartilhe qualquer coisa remotamente político ou dissidentes da narrativa do grupo ”, uma mãe de Brentwood escreveu para mim. “Uma vez que alguém envergonha uma pessoa, muitos concordam. As vezes que falo para defender aqueles que eles envergonham, eles tentam me envergonhar. ”

Nessa visão de mundo, a própria complexidade é um tipo de racismo, nuance é uma fobia e o ceticismo é apenas um tipo de falsa consciência. Ibram Kendi, autor de  How to Be an Antiracist ,  expôs claramente  a lógica no Twitter recentemente: “A pulsação do racismo é a negação. E muitas vezes, quanto mais poderoso é o racismo, mais poderosa é a negação. ”

Um professor me disse que foi convidado a ensinar um currículo anti-racista que incluía uma “pirâmide” da supremacia branca. No topo estava o genocídio. No final, havia “dois lados de cada história”.

“’Dois lados para cada história’”, disse ele. “Aquilo estava na pirâmide racista.”

A pirâmide do racismo inclui “todos pertencemos à raça humana”.

‘Mãe, acabei de descobrir que sou racista’

Mas a consequência mais importante da ideologia do woke não é um currículo inferior de inglês. É que a ideologia, que parece afetar todos os aspectos da escolaridade agora, mudou a autoconcepção das crianças.

Considere esta história, de Chapin, a elegante escola só para meninas no Upper East Side, envolvendo uma garota branca nas séries iniciais que chegou em casa um dia e disse a seu pai: “Todas as pessoas com pele mais clara não gostam de pessoas com pele mais escura pele e são maus com eles. ” Ele ficou horrorizado quando ela explicou que foi isso que seus professores lhe ensinaram. “Eu disse a ela: não é assim que nos sentimos nesta família”. Vale a pena dar uma olhada nos vários grupos de afinidade de Chapin, que se tornaram obrigatórios em todas essas escolas. (Chapin não respondeu a um pedido de comentário.)

Para alunos do ensino médio, a mensagem é mais explícita. Um aluno de Fieldston diz que muitas vezes dizem aos alunos “se você é branco e homem, você é o segundo na fila”. Isso é considerado uma redistribuição normal e necessária de poder.

Em Harvard-Westlake, a escola administrou recentemente o  teste de preconceito implícito desmascarado  para alunos do décimo ano. Era tecnicamente opcional, mas vários pais com quem falei disseram que seus filhos se sentiram compelidos a aceitá-lo. Uma mãe confidenciou que seu filho lhe disse: “Mãe, acabei de descobrir que sou racista e prefiro europeus brancos”. Seu filho é mestiço. “Para meu filho voltar para casa e ouvir da escola que você é racista – fiquei chocado. Eu estava com tanta raiva. “

Uma mãe da família Brentwood diz que tentou, de pequenas maneiras, enfrentar isso. “Dizem que não entendo porque minha pele é branca.” Crianças como a dela estão sendo ensinadas a desistir da ambição e  ceder posições  que poderiam conquistar por meio do trabalho árduo para outras pessoas que são mais marginalizadas. “Meu filho está me fazendo perguntas óbvias como: Se eu trabalhar muito, não devo ser recompensado?”

Um gráfico usado em Brentwood inclui a frase “Eu cedo posições de poder para aqueles que de outra forma seriam marginalizados”
como parte de “tornar-se anti-racista”.

Desdobramentos em escolas de ensino médio americanas

Tudo isso “me fez pensar mais sobre raça”, disse um adolescente em Manhattan. O currículo, explicou ele, estava tentando ensiná-lo a se sentir obcecado por sua brancura, o oposto do que seus pais o ensinaram a fazer. Separar os alunos por raça em grupos de afinidade é racismo, disse ele. “MLK condenaria minha escola.”

Alguns estudantes estão se rebelando, o que, neste caso, parece vir a ser um republicano. Mas outros mergulham na pauta ideológica, o que criou conflitos com pais que não o fazem. “A escola assumiu o papel de guia moral, sendo eu a pessoa irritante nos bastidores que realmente não entende”, diz uma mãe de Harvard-Westlake.

Assim, as crianças aprendem como funcionam as novas regras do despertar. A ideia de mentir para agradar a um professor parece um fenômeno da União Soviética. Mas os alunos do ensino médio com quem conversei disseram que fazem versões disso, inclusive repetindo pontos de vista de que não acreditam em atribuições para que suas notas não sejam prejudicadas.

No Brooklyn, um professor conhecido por ser amigável entre alunos, riu quando me contou o mais recente absurdo: os alunos disseram a ele que sua aula de história tinha uma unidade sobre Beyoncé e eles se sentiram compelidos a dizer que amavam sua música, mesmo que eles não. “Eu pensei: eles nem mesmo têm direito às suas próprias preferências musicais”, disse ele. “O que significa quando você não consegue nem mesmo dizer a verdade sobre como a música afeta você?” Uma professora de inglês em Los Angeles reconhece tacitamente o problema: ela faz com que a classe desligue seus vídeos no Zoom e pede a cada aluno que torne seu nome anônimo para que possam ter discussões desinibidas.

Não existem dados de pesquisa confiáveis ​​sobre a liberdade de expressão entre alunos do ensino médio, mas na semana passada, a  Heterodox Academy publicou  seu relatório anual Campus Expression Survey, que descobriu que, em 2020, 62 por cento dos estudantes universitários pesquisados ​​“concordaram que o clima em seu campus impede os alunos de dizer coisas em que eles acreditam. ”

Contando com o boca a boca, os pais estão tentando descobrir quais escolas particulares em sua cidade evitam essa ideologia, se é que existe alguma. Eles me perguntam o que eu sei. “Eu não sei para onde movê-lo. Eu o puxo e é a mesma coisa. Mas estou com um aperto no estômago por mandá-lo de volta para a terceira série ”, disse uma mãe da Riverdale Country Day School, no Bronx, em uma preocupação repetida por muitos pais. (Riverdale não quis comentar.)

Uma Conspiração de Silêncio

Quando comecei a trabalhar nessa história, não senti tanta simpatia por esses pais. Cerca de  18 milhões  de crianças de escolas públicas não colocaram os pés em uma escola no ano passado. Um estudo divulgado no início de dezembro pela McKinsey and Co. descobriu que o aprendizado virtual prejudica todos os alunos, mas os  alunos negros são os que mais: a escola remota os atrasou em três a cinco meses em matemática, por exemplo. Esses números não começam a capturar os  efeitos paralisantes , incluindo a ideação suicida, que o ano passado teve no que os especialistas já chamam de geração perdida.

Os pais nesta história não são pais sem outras opções. A maioria tem o capital – social e literal – para tirar seus filhos e contratar professores particulares. O fato de eles não estarem se manifestando parecia-me covarde, ou pior.

A resposta cínica para o silêncio deles é duas palavras: Ivy League. “Definitivamente, há rumores de que a escola tem tipo, digamos, três escolhas para Duke e que se você se levantar contra isso seu filho será rejeitado”, disse uma mãe.

Outra explicação é o pensamento de grupo e a pressão social. “Às vezes, as pessoas mais inteligentes são as mais fáceis de enganar”, diz um pai que recentemente mudou o filho de uma escola para outra que ele julga ser um pouco melhor. “Se você tomou a decisão de entrar no conselho de Dalton por ter defendido todas essas visões esquerdistas para sempre e quer que seu filho entre em Harvard, não vai se levantar e dizer: ‘espere um segundo, rapazes.’ Você simplesmente não vai fazer isso. A maioria das pessoas quer ser sócia do clube. ”

Acho que é verdade que muitas pessoas preferem violar seus princípios declarados do que ser excluídas de sua rede social. Mas esta é uma situação que vai além de ser desviado para uma mesa ruim na gala de Robin Hood. Resistir a essa ideologia é ir contra todo o mundo institucional.

Não é apenas Dalton, uma escola que se comprometeu a ser “visivelmente, vocal e estruturalmente anti-racista”. Bain & Company está  twittando  sobre o “Mês da História da Womxn.” O Cartoon Network está  implorando que as crianças  “vejam as cores”. Os funcionários da Coca-Cola  foram recentemente instruídos  a “ser menos brancos”. Você não pode comprar ou vender os novos títulos problemáticos do Dr. Seuss no eBay.

Essa ideologia não fala a verdade ao poder. É o poder.

O mais alarmante é que a ideologia é cada vez mais prevalente na  escola pública local . O novo chanceler das escolas da cidade de Nova York é um defensor vocal da  teoria crítica da raça . Em Burbank, o distrito escolar disse aos professores do ensino fundamental e médio para parar de ensinar  To Kill a Mockingbird  e  Of Mice and Men . O distrito escolar de Sacramento está  promovendo a  segregação racial por meio de “grupos de afinidade racial”, onde os alunos podem “cultivar solidariedade racial e compaixão e apoiar uns aos outros sentando-se com o desconforto, confusão e entorpecimento que muitas vezes acompanham o despertar racial branco.” O distrito escolar de San Diego realizou recentemente  um treinamento em que professores brancos foram informados de que eles “assassinam espiritualmente” crianças negras.

“Não quero ficar emocionada, apenas me sinto impotente”, disse uma mãe em meio às lágrimas. “Eu olho para a escola pública e estou igualmente mortificado. Eu não posso acreditar no que eles estão fazendo com todo mundo. Estou com muito medo. Estou com muito medo de falar muito alto. Eu me sinto covarde. Eu apenas faço pequenas ondas.” Outro me diz: “É o medo da retribuição. Isso faria com que nossa filha fosse condenada ao ostracismo? Isso levaria as pessoas a nos condenar ao ostracismo?”

Tenho uma amiga em Nova York que é mãe de uma criança de quatro anos. Ela parece exatamente o tipo de mãe que essas escolas gostariam de atrair: uma empreendedora de sucesso, uma feminista e uma teimosa de Manhattan. Ela sonhava em mandar sua filha para uma escola como Dalton. Um dia, em casa, no meio do processo de aplicação, ela estava desenhando com a filha, que disse despreocupadamente: “Preciso desenhar na minha própria cor de pele”. A cor da pele, disse ela à mãe, é “muito importante”. Ela disse que foi isso que aprendeu na escola.

Vida longa ao Presidente!

Falemos da mais nova sensação do teatro carioca: a peça “Precisamos Matar o Presidente”. O diretor do grupo teatral Blabonga, Davi Porto, disse em uma entrevista que “o teatro, como qualquer outra arte, nasce de uma necessidade. A pandemia acabou unindo todas as necessidades… surgiu o descaso do governo atual, que ainda transformou cada artista em inimigo do Estado”. Mais à frente, conclui: ”de repente, tudo que restou foi o ódio”. Vou parar por aqui. Daqui para a frente, as palavras serão minhas.

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Segundo a definição de arte de um dicionário, “arte é a expressão de um ideal estético (ou seja, de um ideal de beleza) através de uma atividade criadora. É uma manifestação humana universal (existe em todas as culturas) que produz coisas reconhecidas como belas pela sociedade. Uma obra de arte transmite uma ideia, um sentimento, uma crença ou uma emoção. Mas a arte também pode ter finalidade transgressora, expondo ao mundo uma visão crítica e nem sempre agradável da realidade.”

Fazer arte não é uma tarefa fácil. Está implícito na arte o ideal de transformação da realidade; através dela o artista expressa a busca incessante do ser humano pela realização, a felicidade, a justiça, o mistério, a insatisfação com a própria existência e muito mais. O compromisso com o belo não deve ser encarado apenas no sentido estrito da palavra, mesmo porque hoje em dia a beleza saiu de moda. Isto é claro que gerou conseqüências (negativas) na arte. A distopia ganhou vez, como reflexo de uma sociedade vazia e sem esperança.

Alguns anos atrás, uma “performance” submetia seus atores a “urinarem uns nos outros”. Não há transgressão que justifique este absurdo. Por mais que se dê um nome bonito como “arte experimental” para este tipo de encenação, jamais poderá ser considerada arte. Ofender a si mesmo ou ao outro não passa de escândalo. A peça de Davi Porto “Precisamos Matar o Presidente” nasce, como ele mesmo diz, de uma necessidade e também do ódio. Mas ódio a que(m)? Ao roubo? Ao crime? À uma corja de corruptos insaciáveis que arrasaram com o país? Não! Ódio àquele legitimamente eleito por seu povo!

Será que Davi procurou saber quem realmente é Bolsonaro e o que este governo está fazendo ou apenas “foi na onda” dos colegas, que por sua vez foram na onda esquerdista-midiática e saíram por aí repetindo palavras de ordem e impropérios sem nenhum compromisso com a verdade dos fatos? Um artista precisa respeitar seu país e o seu público. Como alguém vai se comunicar com o público, tendo desprezo por ele? Pois a meu ver, Davi está desrespeitando milhões de brasileiros que votaram em Jair Messias Bolsonaro e até hoje o apoiam – ou será que o autor/diretor não vê as inúmeras manifestações de carinho e admiração por onde o Presidente passa?

O palco não é apenas um lugar de “exibição”, deve ser um lugar de comunhão, de encontro. Encontro de emoções, de idéias, mas sobretudo de respeito por aquele que saiu de casa para ver o espetáculo. É claro que o artista tem todo direito de ter suas preferências políticas, mas num país tão sofrido, com um povo tão humilde e trabalhador, será que é honesto “virar as costas” para o raro momento em que este povo conseguiu (graças ao milagre das redes sociais) ter alguma voz? A todo momento ouve-se a palavra “democracia” apenas de forma figurativa, porque democracia é antes de tudo respeitar a vontade da maioria. Isso nem é cogitado.

Me pergunto porque a classe artística (não toda, claro) exalta um desgoverno que roubou bilhões do país, evadiu fortunas para ditaduras, prometia acabar com a liberdade de imprensa (o oposto do que defende e faz, Bolsonaro), defendeu e se aliou com terroristas, etc, etc. O governo está trabalhando ininterruptamente, “arrumando a casa”, cuidando de rodovias abandonadas há mais de quarenta anos, construindo ferrovias (milagre), enxugando o funcionalismo público de Brasília, recuperando a Petrobrás, gerando um milhão de empregos só no primeiro ano de governo, moralizando o BNDES e tantas pessoas fingem não ver! Talvez isso tudo não importe para muitos.

O banditismo se consagrou no Brasil. Não há respeito à autoridade, essencial num país que se propõe a crescer. A dignidade é um valor necessário que está sendo vilipendiado e este terreno não é favorável à evolução de uma sociedade, nem mesmo da arte. Davi fala em ”descaso do governo atual que o tornou inimigo de cada artista”. Bem, graças a Deus conheço artistas fantásticos que apóiam o governo e reconhecem a luta que está sendo para tentar caminhar, apesar dos inimigos internos. O que muitos destes artistas não entendem é que para ampliar as oportunidades é preciso refazer um sistema viciado em privilegiar um grupinho que fala em diversidade, mas na prática não a aceita.

Uma grande artista disse que “uma mulher que se preze não vota neste Bolsonaro”. Que Presidente exaltou tanto a figura da mulher quanto ele? Que misógino permitiria que sua mulher discursasse na cerimônia de posse? Difamam deliberadamente, agridem como nunca fizeram antes, estimulam o ódio o tempo todo e não se perguntam em nenhum momento se estão agindo com bom senso. Um ex-presidente é sabido que levava a amante para as viagens no avião da FAB de forma ilegal, sem anotar o nome da “passageira” para a esposa não saber. Foram anos assim. Em certo momento numa entrevista, referiu-se à mulheres “de grelo duro”! Um horror!!!. E aí, pode, feministas?

Que sentido terá a obra de Davi, se segundo ele mesmo “só resta o ódio”? Não pretendo ver a peça, mas deixo a pergunta: será que em algum momento houve o mínimo compromisso com a verdade? Este governo levou água ao Nordeste, (o PT falou durante anos sobre os pobrezinhos e a seca, mas passou anos no poder e nada) está levando esgoto a todo o país – sim, milhões de pessoas não têm esgoto no Brasil – e parece que isso não conta para a dita classe artística. Gostaria de saber a opinião dele sobre aquele ícone do teatro-feito-com-dinheiro-público chamado “macaquinhos”, que ganhou o edital do SESC para pisar em seus palcos!

Um show de mau gosto que desmerece o teatro, o povo brasileiro e a cultura nacional. O que pode ficar de uma obra como essa, quando cada um voltar pra casa? A transgressão é válida, mas o público para ela é reduzido. Ainda assim, tudo tem limite. Não há transgressão que valha o apequenamento do ser humano, nem mesmo do artista. A degradação nunca é uma boa escolha. O Deputado Otoni de Paula protocolou uma notícia-crime na PGR, solicitando a instauração de inquérito contra o grupo de teatro, para apurar o crime de incitação à violência. Parabéns ao Deputado, afinal este Presidente já sofreu um atentado. Porém, a temporada está mantida até o momento.

O Presidente criticado é tão democrático, que “não moveu uma palha” para impedir sua apresentação. Na resenha diz “… Aqui podemos tudo … fugir desta cruel realidade e gritar o que precisa ser dito”. Cruel é a fome e a ditadura da Venezuela e de Cuba que muitos apoiam. Perseguem gays, opositores, fecham jornais. Dá para entender? Cruel era ver sempre os mesmos artistas contemplados com patrocínio, enquanto tantos outros ficavam sempre de fora. Mas isso não importa para quem vive do ódio. Acho difícil um espetáculo se sustentar em cima de bases tão frágeis. Mas acho que isso não importa. O que conta mesmo são os cinco minutos de fama.

Piacesi: novo autor conservador no pedaço

“Eu escolhi me engajar na literatura, onde sei que existe um grande espaço a ser ocupado pelos conservadores. Tenho recebido feedbacks incríveis pelo whatsapp a respeito desse meu trabalho, que me deixam até emocionado.”

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O mundo é pequeno mesmo.

De fato não sou próxima de Guillermo Piacesi, mas posso dizer que temos uma história. Vocês compreenderão em breve.

Fizemos parte, por um breve momento, de uma mesma célula de um movimento de defesa da advocacia. Estávamos conhecendo o que sairia dali. Percebemos em momentos diferentes (ele percebeu antes), que se tratava de uma ‘furada’, de uma capitalização da força política dos advogados em prol de um grupinho que não visava ser a solução do problema, mas parte dele.

O tempo passou e continuei acompanhando sua trajetória pelo Facebook com alguns comentários em postagens e conversas cordiais, pois o Dr. Piacesi sempre escreveu muito bem.

Assim como muitos brasileiros se descobriu conservador e de fato, desde que o conheço se mostrou católico, sensato e razoável. Bem casado, vive em lugar frio, com lagos, cisnes, bons vinhos e livros, muitos livros. Uma vida em família. Como dizia G.K Chesterton:

“A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns”

Ao final de certo período e em outro cenário muito diferente, o reencontrei nas fileiras conservadoras, expandindo seus escritos do perfil do Facebook para o Jornal da Cidade, em coluna própria.

Conhecido e renomado pelo nome completo, Guillermo Frederico Piacesi Ramos, o escritor é também advogado atuante nas áreas cível, empresarial e tributária, tendo passado por grandes e renomados escritórios no meio jurídico. Pós-graduado em direito processual civil, é ainda membro de associações jurídicas que visam a guarda de conhecimento doutrinário. Ainda, autor de mais de 20 artigos relacionados ao direito processual civil e direito tributário, publicados em livros e periódicos especializados. 

Recentemente decidiu, conforme registrado em seus perfis nas redes sociais, escrever seu livro sozinho; escolhendo uma editora independente para lançá-lo e trouxe, em esforço próprio, o elogiado livro de contos e artigos: “Escritos Conservadores“, segundo Piacesi visando: “contribuir com a sociedade e difusão do pensamento conservador”.

O autor vem divulgando trechos da excelente obra nas redes sociais, em lives na internet (com isso podem verificar o que estou afirmando), e na coluna do Jornal da Cidade, onde escreve análises com pitadas de artigos da obra. Na coluna do autor consta também o whatsapp para contato pelo interessado em adquiri-lo, com diferencial da dedicatória. Ficamos por aqui com a palavra do autor. Eu sou Renata Araujo com mais uma dica cultural da Tribuna de Santa Cruz.

Segundo Piacesi:

“Aos poucos eu vou conseguindo espalhar meu recado por aí. Hoje mesmo comemorei que vendi um livro para o Amapá, o único estado da federação que ainda faltava para eu completar o mapa do Brasil. Sei que uma sociedade se muda pela cultura e educação, como escrevi aqui de manhã e sei que a esquerda possui a hegemonia da narrativa.
Escolhi me engajar na literatura, onde sei que existe um grande espaço a ser ocupado pelos conservadores. Tenho recebido feedbacks incríveis pelo whatsapp a respeito desse meu trabalho, que me deixam até emocionado.
Hoje uma moça agradeceu “em nome do Brasil” o que eu faço. Outra, em nome dos filhos… É tocante mesmo. Não faço nada demais, mas a carência de material conservador na literatura é tão grande que acontece isso: alguém me agradecer por algo que é apenas meu dever cívico.
Meu desejo é ver a maioria do povo brasileiro descobrindo-se conservadora, e enxergando que precisa se engajar de alguma maneira para frear o avanço da esquerda e para preservar as “Coisas Permanentes”, que são nossas tradições e valores, que sobrevivem a nós e que merecem ser conservadas e melhoradas.”

Valdinei Martins: liderança carioca do Movimento Conservador

O líder estadual do movimento conservador conversou com a Tribuna de Santa Cruz, para trazer aos leitores uma visão geral sobre conservadorismo, objetivos do movimento e quais os diferenciais do grupo que construiu campanha e sustenta o mandato do deputado estadual por São Paulo, Douglas Garcia.

Valdinei Martins se define em suas redes sociais como cristão, carioca e conservador.

Um pouco mais de conversa e notamos um homem obstinado em ajudar o Brasil a reconhecer suas tendências, a razão delas e assim, saber combater e reverter o resultado de tanta doutrinação e experimentação social praticada, vivida atualmente por todos, o que tem transformado a vida (outrora trabalhosa, mas com suas compensações), num verdadeiro campo de guerra. Martins conversou com a Tribuna via telefone, na semana seguinte à prisão do deputado federal Daniel Silveira, numa ambiente de recomeço e resistência. Acompanhe:

TSC: Obrigada por falar conosco, o movimento tem resultados que geram bastante admiração no meio da direita brasileira. Pode orientar nosso público sobre o trabalho de movimentos como o Movimento Conservador?

MARTINS: Há poucos anos, falar em movimentos organizados ou formação de base, era quase uma identificação esquerdista. O combate ao lulopetismo e depois a eleição do Presidente Bolsonaro mostraram que somos muitos e que temos força. Faltava agrupar de forma organizada essas pessoas. Daí a sociedade passou a ver a importância desses movimentos.

TSC: Qual o objetivo do Movimento Conservador a curto, médio e longo prazos e como as pessoas podem ajudar?

MARTINS: O Movimento Conservador se diferencia da maioria, principalmente por dois aspectos: primeiro o fato de não nos limitarmos ao confronto com a esquerda, nem à defesa de um “petismo de sinal trocado”.

Demonstramos, através de análises, teses, discussões variadas, a importância de se apoiar o Presidente Bolsonaro e como isso está diretamente relacionado à essência da nossa sociedade.

Em segundo lugar, nos dirigimos às pessoas de forma simples e direta. Embora tenhamos em nossos quadros eruditos e intelectuais, colocamos toda a estrutura à disposição das pessoas mais simples para que elas aprendam, entendam e participem.

TSC: Perfeito, essa consciência de que o conservadorismo é a postura dos mais simples, muitos dos quais durante bastante tempo ficaram relegados à espiral do silêncio, a ponto de serem mal interpretadas, como aprovando a revolução degradante de esquerda havida nos últimos anos. Como se descobriu conservador e conectou com o movimento e na condição de cariocas, como podemos ajudar o Rio? E nas cidades fora do Rio?

MARTINS: O conservadorismo é regado, ainda que inconscientemente, todos os domingos nas Missas e Cultos no Brasil. A doutrina cristã é o fundamento do conservadorismo. Todo o resto é importante, mas o fundamento resiste às mais devastadoras catástrofes e sempre podemos reerguer o edifício.

Quando era adolescente, me envolvi em movimentos estudantis de esquerda. Quando via e ouvia coisas como “enfiar grávidas no antigo Museu do Índio (que a esquerda chama de Aldeia Maracanã), para dar mídia quando a PM jogar bomba”, isso confrontava os ensinos bíblicos que recebi e me constrangia no espírito.

Depois, bastou estudar. O Movimento Conservador veio através do Dep. Federal Márcio Labre, o qual, em 2018, me apresentou ao Wellington Santos e este ao Edson Salomão, então presidente do Direita São Paulo.

Considerando nossos valores e o cenário de velha política e até extrema esquerda encontrada nas cidades, quanto mais você aprende sobre valores conservadores, suas atitudes mudam. Você se torna melhor como cidadão, empreendedor, cria seus filhos de forma mais cuidadosa… só isso já traz enormes benefícios à sociedade. Depois disso, transmitimos esses valores através dos encontros, eventos, meios de comunicação… Por fim, atuamos junto às esferas de poder, buscando produzir benefícios concretos à sociedade.

TSC: Muitos tem dúvida em como ser conservador nesses lugares ou ambientes, por exemplo num Rio de Janeiro dominado por políticos fisiológicos, de esquerda, grupos de interesse, etc? Qual orientação pode deixar?

MARTINS: O segredo é não tratar o conservadorismo como teoria, utopia ou coisa abstrata. Olhe as pessoas. Na maioria das organizações da esquerda há meia dúzia de mentiroso hábeis e um monte de gente enganada. Precisamos descobrir qual é o foco desse engano, qual é a isca usada. Depois atacamos este foco. Erram aqueles que atacam os desarmamentistas, por exemplo. Meia dúzia de teóricos os manipula através do medo. Precisamos atacar o medo e salvar as pessoas.

TSC: Nesse panorama, como identificar linhas políticas e diferenças entre conservadores, centrão, esquerda… pode falar sobre o P.C.O. que confunde e causa raiva nos anti-esquerdistas radicais, tão presentes na direita, quando suas postagens agradam a lógica conservadora e ganham adesão ?

MARTINS: Bom, o liberalismo, como é praticado no Brasil, é pautado pelo bem-estar social. Este bem-estar altera conforme fatores diversos e a conveniência política. Enquanto isso, a esquerda é motivada por ideologia. A ideologia ignora as necessidades e interesses dos indivíduos e eventuais consequências colaterais. Vide o “fique em casa”. Já os conservadores são motivados por princípios e valores. Estes princípios valores, muitas vezes transcendentais, servem tanto de freios quanto de impulsos.

O PCO é um caso interessante na esquerda, pois é o único partido de esquerda que mantém coerência lógica nas pautas que defende, independente das conveniências políticas. Já procurei exemplos nos Estados Unidos e na Europa e não encontrei.

O PCO defende o armamento civil, assim como os conservadores. A diferença está nos fundamentos e no objetivo. O nosso fundamento é a liberdade. O deles é a luta de classes. O nosso objetivo é a defesa do indivíduo e por consequência, da sociedade. O objetivo deles é a tomada de poder através da revolução. Para nós, o cidadão armado protege o Estado. Para eles, o cidadão armado derruba o Estado para a implantação de um novo. Depois disso, este novo Estado desarma a população. As semelhanças são apenas aparentes. Mas admiro a firmeza que eles tem de defender abertamente o que acreditam.

Muito obrigada pela entrevista, que o movimento conservador cresça cada vez mais e alcance resultados no Rio iguais ou superiores ao padrão de São Paulo, afinal a tendência é sempre melhorar, não é? Apesar de ser muito difícil competir com Douglas Garcia e seu gabinete.

Para o Tribuna Entrevista, por Renata Araujo.