O Retorno do Realismo

Em fevereiro deste ano o mundo observou atônito ao início de mais um conflito entre dois países europeus. Em que pese serem os conflitos algo bastante comum na parte esquecida do mundo, e milhares de pessoas serem mortas arbitrariamente nos rincões da África, conflitos entre ex-metrópoles são mais raros de ocorrer, e se escondem atrás de uma aura de liberalismo político, sempre enfeitado pelas teorias de relações internacionais que escondem o uso da força para a resolução dos conflitos entre as nações.

A Guerra na Ucrânia foi uma amostra de que há, perante a comunidade internacional, um forte repúdio ao uso da força bruta, pelo menos para chegar-se a um resultado em solo europeu. É que várias guerras já eclodiram (e ainda eclodem) pelo mundo, não envolvendo o ocidente e, talvez por isso mesmo, sejam ignoradas por todas as demais civilizações.

Como não podemos ver os massacres semanais (quando não diários) a que são impostas diversas tribos africanas? Será que já nos esquecemos dos bombardeios norte-americanos no Iraque? Ou das bombas de napalm no Vietnã?

Os acontecimentos hodiernos no leste europeu nos mostram como a visão eurocêntrica do mundo permanece bastante arraigada no pensamento latino-americano.

Independente de quem vemos como certo ou errado, a grande atenção dada pela mídia nos adverte quem domina a narrativa dos meios de comunicação, e como isso é observado pelos ocidentais, e por aqueles que se acham ocidentais.

É uma pena que milhares de Ucranianos estejam sendo obrigados a deixar sua pátria, e a crise humanitária que isso tem gerado nos corrói por dentro, mas por que estas mesmas emissoras de TV que ora cobrem o conflito com tamanho “entusiasmo” não cobrem também os genocídios frequentes na África?

Além do racismo que isso descortina em todos nós, o conflito Rússia x Ucrânia nos desperta para a emergência do realismo como base das relações entre as nações.

Mesmo que se julgue ter a humanidade alcançado um nível “civilizado” de resolução de conflitos, o que observamos é que o país mais forte sempre poderá exercer seu poder de império onde quer que seu poder se esparrame.

A Guerra ao Terror de Bush já nos havia demonstrado isto, mas, como acima exposto, como não envolvia dois países ” ocidentais”, isto ficou bastante longe da visão de todos.

A narrativa de se lutar contra uma ditadura logo foi aceita, bem como a de uma caça às armas de destruição em massa, nunca encontradas, aliás.

O realismo do diálogo meliano continua sendo a teoria mais aceita na prática. Em foros internacionais, multilaterais, regionais ou bilaterais, o que vigora é a capacidade de destruição que um pode exercer sobre os demais, o poder de exercer a violência, de causar a aniquilação de sua contraparte.

Não importa o que pregam os arquitetos e artífices da ONU. O que conta para os Estados é a força que cada um possui, e como isso pode ser traduzido em ganhos práticos no cenário regional ou internacional.

O que ocorreu com a Ucrânia pode, dia ou outro, muito bem ocorrer com o Brasil. Basta que uma questão não bem resolvida seja posta em xeque por um poder maior que nós, e que sua população, motivada pela narrativa, seja levada a aceitar e endossar uma guerra para levar a democracia, evitar excessos na condução de políticas públicas, proteger os direitos humanos ou o meios ambiente…pontos que hoje, infelizmente, se tornam cada vez mais caros à agenda de certos países, que não escondem seus objetivos de tomar o que outros possuem.

O povo brasileiro precisa acordar para os perigos reais que rondam nosso país, para os conflitos retóricos que, nas políticas de alto nível, podem refletir conflitos militares em nosso território. Para que evitemos virar um Iraque, um Afeganistão ou uma Ucrânia, precisamos ter Forças Armadas adequadas, que nos permitam dissuadir ameaças estatais de vulto, e que garantam a soberania integral em todo o nosso território.

Precisamos de um Exército que possa apresentar tanto aos nossos vizinhos nossa capacidade de cooperação quanto aos demais do globo nossa capacidade de aniquilação; de uma Marinha que possa garantir a soberania do Brasil em nossas águas jurisdicionais, e que possa projetar-se em qualquer lugar do globo que necessite ver nossos interesses sendo respeitados.

Isto nos remete, sem sombra de dúvidas, aos debates do início de nosso reinado entre os procuradores Olbes (Cisplatina) e Marquês de Valença, sobre qual postura deveria a Armada Imperial adotar. Naquela época, o perigo da Santa Aliança era visível e real, bem como de uma recolonização por parte de Portugal. De forma que o debate político era ferrenho, e o povo discutia sobre a profissão das armas. Esperemos que não se precise que nosso país seja ameaçado com a aniquilação para que o povo brasileiro volte a debater esta questão.

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