Semana Santa: maior país católico do mundo?

Quantos dias de consagração e reflexão foram perdidos no Brasil em prol do hedonismo.

Foi repostado há pouco tempo um texto que informa os dias e ritos da Semana Santa. A postagem acaba tendo efeito informativo, pois muitos brasileiros crescem hoje em dia sem estas noções em meio ao ateísmo ou outras matrizes religiosas, até mesmo pelos costumes protestantes (que tendem a ignorar as festas da Igreja Católica no que tange à performance litúrgica).

Na Igreja protestante a Semana Santa tende a ser um período de mais cultos e pregações, muito boas e instrutivas, mas nada muito focado na data, sendo o enfoque muito maior no sentido da pregação do momento.

O problema e a semana santa terminou sendo, para muitos, apenas mais um feriado prolongado, dia em que fatalmente comeria, beberia, descansaria e até pecaria mais do que o habitual.

Qual o problema?

Bem, a identidade nacional brasileira se funde às festas da Igreja Católica Apostólica Romana.

Do ponto de vista da religião de cada um não há perda alguma, mas no efeito psicológico coletivo, cultural e civilizacional “judaico-cristão” o problema é muito grande.

As crianças perdem referências de calendário, de estado de espírito, de reverência, de piedade, de reflexão metafísica, de inspirações artísticas elevadas, de leituras filosóficas interessantes, de releituras e realizações de missas como as do Padre José Maurício (Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1767 – 18 de abril de 1830).

Ainda, a inspiração para poesias, textos, músicas, óperas, enfim, obras elevadas, sem falar no senso de corpo nacional, de coletividade. Recentemente, o conservadorismo com seus expoentes mais recentes Olavo de Carvalho e Padre Paulo Ricardo dentre outros, vem trazendo um interesse maior se não pela religião, pelo menos pelas tradições nacionais que estão entranhadas na nossa memória genética e em sua falta, trazem sensação de desnorteamento e falta de pertencimento, afetando a auto estima.

Quantas vezes deixamos de comemorar Domingo de Ramos, Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa, Sábado de Aleluia e até o Domingo de Páscoa?

Doutra forma, porque precisaríamos de tantos feriados comuns, tantas festas, comidas e bebedeiras, será que não podemos nos dedicar a salvar a cultura tradicional de nosso País?

Será que não temos mais tempo para Deus em sua face doutrinadora terrena? A vida precisa mesmo ser uma eterna balada? Pensemos no que queremos preservar, no que nos é caro. Ao olhar para trás não lembro de detalhes de festas e baladas que fui, mas lembro de cada detalhe de celebrações familiares, religiosas e culturais que participei.

A seguir um texto do livro Festas Populares do Brazil, de Mello Porto, que demonstra o quanto decaímos como sociedade cristã. Que o Brasil possa acordar em enquanto é tempo.

SEXTA FEIRA SANTA (do livro Festas Populares do Brazil de Mello Moraes Filho).

O perdão das injurias, o bem pelo mal, eram, no dia de hoje, os orvalhos que reverdeciam as flores que se fanavam da fé.

A morte do Christo dissipava o horror da immortalidade e fazia scintillar a esperança nas plagas nebulosas da vida eterna.

A crença publica immobilisava-se nas raias contemplativas, onde as acções boas conferenciavam entre si

Como uma repercussão das palavras que o filho de Deus deixara cahir dos lábios no alto do Golgotha, o Imperador perdoava a criminosos. Inimigos vinham de longe reconciliar-se; as familias reatavam relações partidas; o filho rebelde inclinava diante do pai a fronte obediente; e o escravo fugido comparecia indultado perante o senhor.

(…)

Era o reinado da paz e do perdão ; o único dia talvez em que se considerassem bem aventurados aquelles que choravam! E a penitencia e a devoção encaminhavam à casa de Deus a turba pacifica.

Na Capella Imperial, as velas gastas na vigilia ao Santissimo fumavam, avivando o lume dos morrões esbrazeados e longos. A igreja conservava as portas cerradas em signal de dó, o interior era sombrio, e os sacerdotes, apparecendo da sacristia, tomavam o altar-mór: o officio da Paixão começava abrupto.

A adoração da cruz deitada ao longo no chao do presbyterio, o bispo e cabido faziam prosternados, findo o que, a communhão derradeira da semana celebrava-se solemne.

A Paixão, que iniciava-se por uma prophecia, era o Evangelho dialogado em canto gregoriano. Os Judeus, o Christo, Pilatos e os apostolos exhibiam-se na scena sagrada, tendo por interpretes o côro e tres padres, que, de dous púlpitos e da läge do templo, entretinham a acção, combinando trechos biblicos com as cadencias sublimes de antiguidade remota.

No desempenho da tragédia divina, os padres, elevando os braços, alteavam a voz. Eram os bradados.

A Paixão concluia-se pelo officio de Trevas, que, em tempos afastados, precedia de pouco a sahida da procissão do enterro.

Das oito para as nove horas da noite, duas d’essas procissões percorriam as ruas da cidade: a do Carmo e a de S. Francisco de Paula. Escolhendo como typo a do Carmo, a sua descripção é cüriosa, resistindo severa a confrontos remotos.

Na primitiva, os personagens do cortejo eram menos numerosos; porém uma especie de prologo, de intermédio dramatico, n’uma enscenação de effeito, dava a conhecer os principaes caracteres.

Em 1831, por volta das quatro horas da tarde, a procissão do Enterro estava na rua, sendo utilisados, para se encarregarem de diversos papeis, cantores e músicos do officio de Trevas. Esgotadas as praticas de sexta-feira, na Capella Imperial, o Carmo enchia-se de povo para observar uma verdadeira scena de theatro.

Igreja do Carmo ao Centro, no largo do Paço (atual Praça XV).

A um signal convencionado, abriam-se as cortinas de damasco do côro, e as figuras que tinham de formar o préstito fúnebre, appareciam agrupadas, causando grande sensação. Minutos depois cerrava-se o panno, e aquelles personagens encorporavam-se nas ruas populosas ao cortejo admirável.

A procissão do Enterro, como se fazia mais recentemente, supprimira essa scena histórica, accrescentando, como compensação, novas figuras e mais avultados accessorios.

A procissão do Carmo sahia ás oito horas da noite. A multidão, apinhada no largo do Paço, defronte da igreja e na rua Direita, movia-se em massa, aqui e alli, como uma onda de asphalte fervente, negra e espelhante. alte fervente, negra e espelhante.

Rua Direita, Rio de Janeiro, aquarela e grafite sobre papel, por Félix-Émile Taunay.

O luar batia ao longe no mar e polia as paredes brancas e as saccadas dos edifícios, de onde centenas de famílias debruçavam-se sôfregas.

As luminárias douravam das janellas e saccadas as colchas fluctuantes ao vento, produzindo os reflexos iriados uma perspectiva brilhante.

Com os tambores forrados de preto, a bandeira enlaçada de crepe, e as armas em funeral, um batalhão da guarda nacional postava-se a um lado da praça, para as honras fúnebres do sahimenio A um momento inesperado, subito clarão golfejava da porta principal da igreja que se abria. A gente que occupava o adro, descia o povo separava-se em alas na rua Direita; os sineiros, no alto da torre, despencavam o corpo, abraçando a cabeça dos sinos ; e todos voltavam o rosto, estirando o pescoço, para o alpendre do templo As pessoas mais sisudas e discretas collocavam-se a maior distancia, o que deveras convinha á apreciação do apparatoso acto.

Bem como enorme pedaço de velludo negro, cortado por dois galões de fogo, assim era aquella trilha, serpeada pelas luzes das tochas em profusão.

A procissão havia sahido. De ha tantos annos passados, fallemos do prestito, revivendo recordações. Rompendo a marcha, e levando adiante de si a multidão que se atropellava, seis soldados de cavallaria de policia, com espadas desembainhadas, alinhavam o povo.

As mulheres suspendiam nos braços as criancinhas somnolentas, o chefe de familia dispunha, segundo a idade e tamanho, os filhos e as senhoras, para que bem vissem; e nas portas escuras, trepados em mochos, os escravos procuravam, da melhor forma, espiar o que se passava.

O reboliço e os arremessos eram infalliveis, como se pode deduzir.

E a matraca, batida por um indivíduo vestido de balandrão, troava…

Equilibrado por um irmão do Carmo, o lábaro romano campeava nas alturas com a vistosa inscripção em letras de ouro: S. P. Q. R.

A sua sombra, o Farricôco, envergando uma túnica escura, com capuz sobre a cabeça e mascara aberta para os olhos e boca symbolisando os Novíssimos do Homem, tocava uma trombeta, sustendo na mão esquerda uma comprida e fina vêla de cêra, de que a instantes sacudia os pingos.

Com este personagem bizarro começavam a passar os Terceiros da confraria, com seus hábitos proprios, empunhando grossas e pesadas tochas, conduzindo alguns, pela mão, um anginho, cada qual com um instrumento da Paixão.

N’essa procissão, como nas demais, os commerciantes portuguezes, que representavam as riquissimas irmandades, adornavam-se de suas condecorações nacionaes, cravejadas de finissimas pedras e de brilhantes de raro valor, Pode-se dizer que a confraria do Carmo comparecia toda, preenchendo os irmãos os grandes claros, os intervallos prolongados, entre a apparição dos personagens que a crença d’aquellas épocas suppunha haverem acompanhado o enterro do Christo. O préstito parava a miúdo; os anginhos, fatigados, iam quasi de rastos ; e o guião com o seu séquito de irmãos da Misericórdia, com castiçaes de pão e velas accesas, obscurecia os ares, azuladamente transparentes pelos brilhos da lua cheia.

E nem mais se ouvia a matraca; o Farricôco perdera-se de vista.

A este, porém, vinte minutos mais tarde, seguiam-se os quatro Prophetas maiores, em costumes de mouros, perfilando ao hombro escadinhas de pinho, marchando imperturbáveis.

Este grupo barbado e de cabellos cacheados não passava isento de motejos. E os irmãos proseguiam, os anginhos mais desenvolvidos marchavam, balançando a perninha, e os Prophetas lá iam…

Um destacamento da guarda romana, com alabardas, lanças e escudos raiantes, assomava após, capitaneado por um Centurião, homem colossal e resoluto. De viseira e capacete de couraceiro, com sua banda de seda, franjada de ouro, levantava o passo graduado, deixando assentara pesada e enorme alabarda nas pedras, que estrondavam à pancada.

Os rapazes gostavam d’esta figura e applaudiam o desgarre. Os anginhos, portadores da collimna da canna e da coroa de espinhos indicavam que o sarcophago do Senhor passaria em breve.

Então, as três Marias, que eram músicos vestidos de dominós pretos e de mascara, avisinhavam-se, com as suas aureolas em volta da cabeça, fazendo leves mesuras, e murmurando lugubremente:

Behú! Behú!

A esses figurantes, que tornavam-se as vezes ridiculos a espiritos imprudentes e pouco reflectidos, succedia o coro dos músicos da Capella e o anjo cantor.

O anjo-cantor era uma belleza de dezeseis a dezoito annos, ricamente vestida e cingindo um diadema de ouro e brilhantes.

Subindo n’uma escada de degraus largos, quando entoava, desenrolando o sudario ensanguentado, a antipbdna O’ vos omnes qui transitis per viam — sentia-se que por alli ia passar alguma cousa de divino As flores, atiradas das janellas, forravam-lhe o caminho; o esquife do Senhor apparecia.

A semelhança de um lago de estrellas frias, o sarcophago de prata massiça oscillava ao hombro de frades do Carmo, de alva e estola atravessada, coroados de espinhos.

O religioso silencio que dominava as multidões, era apenas quebrado pelos rufos abafados de tambores, e pela marcha fúnebre que se executava longinqua. Em seguida, vinha o andor de Nossa Senhora, carregado por irmãos do Carmo. Como o esquife, este andor era todo de prata esculpida, mas guarnecido nas quatro faces por estreitas cortinas cor de violeta e douradas, que se terminavam em ricas franjas de ouro.

A sagrada imagem, no seu pedestal rodeado de cyprestes, impunha-se como santa, como virgem e como mãe! Esse cortejo era fechado pelo batalhão, cuja musica tocava, durante o trajecto, marchas fúnebres. Só depois das onze horas a procissão recolhia-se á igreja de onde sahira, ficando por mais algum tempo as imagens expostas á adoração do publico. Pouco depois, o sermão de lagrimas, outr’ora verdadeiros primores de eloquência, era decla­mado pelo orador mais celebre, aos fieis reunidos n’aquelle sacrario de dor.

Muita gente do povo percorria os Passos n’essa noite, visitava os Hortos, ficava estacionada nos adros das igrejas expostas ao publico igual procissão, que sahia de S. Francisco de Paula, tinha seus partidários, seus devotos, mas itinerário diverso.

Sentadas nas calçadas, ao longo das ruas, nos degráos das igrejas, as vendedeiras de doces e  confeitos arriavam os taboleiros, dentro dos quaes uma lanterninha de folha de Flandres, com uma vela accesa, alumiava os mostradores ambulantes.

A distancia, essa myriade de luzes movediças dava a idea de uma noite clara dos trópicos, com as suas moitas cheias de luz e suas campinas choviscadas de vagalumes.

Da Semana Santa, cujo livro de costumes o nacionalismo brazileiro atirou no olvido, salve-se ao menos esta lauda da tradição.

Doutro lado nas igrejas evangélicas era comum realizar cultos e principalmente entoar hinos tradicionais como o seguinte (Rude Cruz), porém, até a cantoria da Harpa Cristã foi suprimida dos cultos atuais.

Precisamos urgentemente voltar às procissões, encenações, práticas tradicionais que deixaram de ser apenas práticas religiosas, mas patrimônio imaterial do Brasil.

Rude Cruz (Harpa Cristã)

Rude cruz se erigiu
Dela o dia fugiu
Como emblema de vergonha e dor
Mas contemplo essa cruz
Porque nela Jesus
Deu a vida por mim, pecador

Sim, eu amo a mensagem da cruz
‘Té morrer eu a vou proclamar
Levarei eu também minha cruz
‘Té por uma coroa trocar

Desde a glória dos céus
O Cordeiro de Deus
Ao calvário humilhante baixou
Essa cruz tem pra mim
Atrativos sem fim
Porque nela Jesus me salvou

Nesta cruz padeceu
E por mim já morreu
Meu Jesus, para dar-me perdão
E eu me alegro na cruz
Dela vem graça e luz
Para minha santificação

Eu aqui com Jesus
A vergonha da cruz
Quero sempre levar e sofrer
Cristo vem me buscar
E com Ele, no lar
Uma parte da glória hei de ter

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