Entre tradições e mudanças, príncipes e nobres ainda vivem entre nós

Por Ibaldo Jr. 09/01/2022 em Conexão News

A nobreza medieval forjou a gênese de nossa civilização. Mais do que seu caráter guerreiro, foi na nobreza que brotou a literatura, expressão máxima de uma cultura, digna do nome. Poemas, novelas, genealogias, cronologias, tratados, enciclopédias, crônicas, hagiografias, com eles a nobreza no mundo, exprimiu e difundiu os códigos sociais universais. Por isso, ela foi o substrato que moldou a cultura exportada para o mundo até nossos dias.

Deve-se acrescentar, no entanto, que as instituições de nobreza variavam, sumariamente, de acordo com os costumes, tradições, culturas e, acima de tudo, de acordo com as leis.

Existe um equívoco generalizado, sobre as leis naturais que governam os direitos nobiliários e dinásticos, que se tornou um campo dividido. Por exemplo, é extremamente raro, que as pessoas interessadas na nobreza, compreendam plenamente, o direito legal de um chefe soberano de uma casa real, que detém a “fons honorum”, ou seja, o direito legal de premiar homenagear e enobrecer pessoas, em reconhecimento aos seus méritos.

Essa abordagem estabelece-se em um mundo onde uma grande maioria, estão divorciados dessa matéria. Mas a evidência está “ai”, para fazer o resgate, e apoiar os pontos legais, morais e éticos, fortemente exprimidos e altamente importantes.

O grande problema, é que as pessoas, em geral, tomam o conceito de realeza da Disney como real. O resultado de uma figura híbrida entre fantasia e características reais britânicas, é a melhor ideia que o público, não acostumado a monarquias, pode ter sobre o assunto. Nada de errado com o “reino mágico”, desde que permaneça no reino da ficção e da alegoria.

Portanto, o fato que as famílias reais possam manter seus títulos para sempre, mesmo após a deposição, é completamente absurdo, e a ideia de que um príncipe exilado possa viver em modéstia é inconcebível. A realeza (ou a soberania que habita na família, que uma vez governou, e toda a sua descendência) é um direito, e como tal, a menos que seja formalmente expressa pelas leis particulares de sucessão daquela família, é perpétua e inalienável, desconsiderando qualquer situação política, social ou condições legais republicanas.

Tais princípios são confirmados por opiniões de juristas famosos, como o Dr. Ercole Tanturri, que já foi Primeiro Presidente do Tribunal de Cassação [o mais alto tribunal na Itália], ao qual se juntou o Prof. Leonardo Puglionisi, Professor de direito civil e canônico na Universidade de Roma, e Dr. Raimondo Jannitti Piromallo, Presidente do Tribunal de Cassação (Jornal de Araldica e Genealogia n. 7-12 de dezembro de 1954), que também escreve:

“A soberania é uma qualidade perpétua, indelevelmente ligada e ligada nos séculos a toda a descendência daquele que primeiro conquistou ou reivindicou, e se realiza na pessoa física do Chefe do Nome e de Armas da Dinastia, independentemente de qualquer outra consideração ou investigação de natureza política, jurídica, moral ou social que possa ser feita sobre ele e que, como ensina a história, não pode influenciar sua qualidade soberana”.

Num significativo estudo sobre a nobreza, vários autores concluíram, entre estes (Marcello Luzi, 2016), que estudar a nobreza, independente de qual período e lugar, é uma tarefa difícil de pensar, e ainda mais, de escrever. Ao estudá-la, se percebe, que nem sempre riqueza e poder estiveram entrelaçados ao estatuto de nobreza. Compreende-se, desse modo, que a nobreza, ao longo da sua história, passou por transformações, por isso mesmo, não pode escapar da história: à medida que ela transformava seu meio social, ela também foi modificada.

No entanto, como analisar um antigo grupo, o da nobreza, inventado e reinventado diversas vezes no curso de sua história, suprimido da Constituição e a seguir reabilitado de modo mais ou menos visível, e que, no Brasil, bem como em outros países, não cessa de se agregar?

Os nobres atuais não constituem uma categoria sócio-profissional nos censos populacionais, não mais detêm privilégios, e não têm existência jurídica oficial desde a República. Suspensa no vazio, a nobreza sem privilégios, aparece como um grupo que se se ergue, e se refaz continuamente. 

Como pensar, a um só tempo, a extrema diversidade desse conjunto e sua unidade relativa, sem deixar de perguntar como isso é possível? Seria talvez, os recursos simbólicos comuns, que contribui para a manutenção de uma forma de coesão, e a densidade das relações e das trocas de toda sorte entre eles? Para mencionar apenas dois exemplos, o heraldista Régis Valette, dá a cifra de 15 famílias nobres enraizadas no Brasil, e estima que mais de 30 famílias apresentem “os sinais exteriores da nobreza” (Valette 1999:9). Para Raul de Negroni, que escreveu um ensaio de inspiração sociológica, o conjunto é muito mais numeroso; ele calcula, com efeito, em 50, as famílias nobres a formar um grupo estatutário que invoca a antiga aristocracia (Negroni 2004:17-19).

A intenção aqui não é recensear os membros da nobreza, escolher entre diferentes estimativas, nem determinar quem é ou não um nobre, mas sim detectar uma gama de representantes de casas nobres que detém o estatuto de príncipes, e outras titulações, e que a par de reverenciar e difundir a lembrança e os valores históricos de uma antiga possessão, detém a missão de preservar, reverenciar e difundir a memória, e os valores históricos, e culturais de um antigo reino, como custódios das tradições e da coroa a ser defendida.

No dizer de Dom Saul Palma Souto,“Essas Casas Dinásticas, são constituídas com limites e características, opções e ministérios, sob a orientação de um nobre governante que as impulsiona, vitaliza e modera, realizando, no contexto próprio, uma promoção de valores humanos e históricos — em sua concepção mais alta. Na verdade, todas as dinastias memoriais e casas nobres têm, por sua própria natureza, uma vocação de perenidade”.

Nesse diapasão, é interessante citar o autor Eric Mension-Rigau, doutor em História da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais e professor da Universidade de Paris VII, que realizou o meritório trabalho de pesquisa, junto a famílias da aristocracia e da alta burguesia francesa, e em que medida a consciência e a identidade nobiliárquica ainda existiam em seu país. 

O fruto dessa investigação resultou num denso e significativo livro — Aristocrates et grands bourgeois (Plon,Paris/94), no qual ele nos oferece uma saborosa e atraente visão do estado da nobreza atualmente, seus costumes, suas tradições, etc.

Eric Mension-Rigau lança luz sobre sua vida privada e suas mentalidades, enfatiza o papel da memória familiar por meio da valorização dos nomes, títulos, lugares e objetos que ancoram o destino da família, em uma continuidade histórica e em uma terra, berço original da linhagem. Descreve o tecido estreito de signos, práticas e representações com que a nobreza e a classe média alta, que a ela se agregam, preservam um modelo de sociedade, mantêm o desejo de exemplaridade, e se preocupam em transmitir os valores tradicionais.

“Para estes nobres, o savoir-vivre consiste também em criar a beleza e comunicar à vida social uma dimensão artística em todas as circunstâncias. Assim como a preocupação pelo estético deve primar, pelo ato polido, atuando com simplicidade, sem alardes, como um cidadão consciente e seguro de sua própria realidade, próximo de quem lhe é próximo pelo sentimento e pelo ideal”, relata o autor.

Em seus postulados, encontramos presente, uma nota essencial do espírito cristão: a perfeita adequação à sensibilidade alheia. Um verdadeiro cristão deve se preocupar sempre com a repercussão que seus atos podem ter junto ao próximo.

Em vista do espaço de que dispomos, limitaremos nossos comentários condizentes com a realidade de algumas monarquias depostas, que ainda mantém intacta suas prerrogativas dinásticas, e que é desconhecimento da maioria.

Nessa esteira, torna-se imprescindível citarmos aqui, exemplos dignificantes de casas dinásticas memoriais de governo em exílio, que a par de sua discreta publicidade, mantém e representam dignamente essa missão, de modo louvável e exemplar.

Na impossibilidade de citar todas, mas baseados em pesquisa junto ao Arquivo Histórico do Centro de Documentação e Memória Histórica Provincial, e na coleta de informações junto a alguns nobres, citamos aquelas, que apesar de sua discretíssima presença, como tal, suas prerrogativas são públicas, e encontram-se, amparadas através de registros heráldicos e genealógicos, decretos, bulas, etc., onde em essência toda a vasta documentação atende a todos os requisitos de legitimidade, e plena validade legal, e cujos chefes oficiais e jurídicos dessas casas dinásticas, como tais são reconhecidos por seus pares, e em círculos monárquicos, através manifestações de excelsas famílias da nobreza, espalhadas pelo mundo.

Poderíamos ainda citar, os significativos privilégios, exarados por autoridades apostólicas, que sob sua acolhida espiritual, estendem sua solicitude a essas instituições régias, algumas, enraizadas em solo brasileiro. Nessa corrente, detectamos instituições como:

  • a Casa Imperial e Real Apostólica dos Godos de Oriente, cuja origem sueco-ibérica encontra-se em exílio no Estado do Rio de Janeiro, e cujo chefe Oficial e Jurídico é o Príncipe D. Herodotus Alexandros Iº,
  • a Casa Real Apostólica Avanyan de  Dizak, de origem armênia, sob o governo em exílio no Rio Grande do Sul, governada pelo Melik D. Dirceus Avanyan von Bagratuni Ibaldo,
  • a Casa Real de Lucena y Ventimiglia, de origem judaico-ibérica, em exílio no Estado do Rio de Janeiro, sob o governo do Príncipe D. Augustus Iº de Leão,
  • a Casa Principesca de Blekinge-Grão Ducal de Lapônia, de origem sueca, também em exílio no Estado do Rio de janeiro, governada pelo Príncipe Dominus Eurico Alvim-Gouveia Iº,
  • a Casa Principesca e Grão Ducal Lucentina, de origem judaico-ibérica, em exílio no Estado do Paraná, governada pelo Principe D. Basilio Theodotus Iº,
  • a Casa Principesca de Dasland e Ducal de Cithia, de origem sueco-ibérica, governada em exílio no Estado do Rio de Janeiro, cujo Chefe de Nome e de Armas é o Príncipe Dominus Alarico Costa Iº, ainda
  • a Casa Real e Ducal de Arpades, de origem húngara, em exílio no Estado do Rio de Janeiro, cujo Chefe de Nome e de Armas é o Príncipe D. Evandro I Arpades,
  • a Casa Principesca de Bessières e Ducal de Istria, de origem francesa, da qual é Chefe de Nome e de Armas, Dona Lorena Iª de Bessières, Duquesa D´Istria e Par de França, em sua fração correspondente ao Principado e Ducado da Ístria, e também
  • a Casa Real e Ducal de Schina, de origem grega, cujo Chefe de Nome e de Armas é o Príncipe D. Carlos Schina.

Estas últimas duas, apesar de seus chefes serem brasileiros, encontram-se atualmente no exterior, precisamente em Toledo (Espanha).

Todas essas Casas dinásticas, de governo histórico em exílio, amplamente reconhecidas, e profundamente alinhadas com a missão cristã, sustentam uma verdadeira autenticidade, legal e canônica, e continuamente, fazem emergir do esquecimento, os valores primaciais da nobreza, os quais os mantém vivos e pujantes, através de um corpo de nobreza atuante e comprometido.

Essas Dinastias, além de seus fundamentos históricos e sociais, tem uma base espiritual e um ofício próprio. Podemos dizer que certamente são memoriais, mas são igualmente missionárias, incentivadoras do bem, da justiça, do bom exemplo. Promotoras de valores eternos, e de um ministério ativo na consciência da dinastia, e na construção permanente eficaz, de sua missão.

Esta premissa fica explicita, no dizer do Príncipe D. Claudio Magnus de Saxe-Altenburg Bragança de Lucena, que “todos os membros de sua família, encaram os títulos, como uma consequência histórica e como uma imposição de deveres e ofícios, e como sinais de uma responsabilidade a ser vivida”.

Se as tradições régias são honradas, reverenciadas e respeitadas, então tudo pode ser definido em sua devida ordem. É isso!

Publicado primeiro em: http://m.anglia-com.webnode.com/artigos/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s