As belas obras do Sr. Antonio Jannuzzi, construtor na então capital federal, Rio de Janeiro

Conheça um dos maiores, senão o maior construtor do Rio de Janeiro na virada do século XIX para o século XX, que nos legou a Avenida Central (hoje Rio Branco), execução das obras: Teatro Amazonas, Edifício Docas do Rio, palácios em Petrópolis: Fadel, Itaborahy e Ouro Negro.

Numa tarde nublada de novembro fui visitar um imóvel em Santa Teresa. Construído em 1890, de estilo neoclássico, me cativou de cara. Soube enxergar a beleza e a discrição elegante daquela casa, que não se nota da rua, somente pela observação dos fundos, pela rua de trás, aonde se vê a beleza da fachada.

Para as pessoas que me acompanhavam perguntei se a casa tinha sido de uma pessoa importante, considerando a presença da estrutura metálica de um antigo elevador (de alto custo) e de um cofre de cerca de um metro de altura, abandonado na parte externa da casa em um canto do terraço.

A estrutura grandiosa, com lindas janelas, simplesmente enormes, o pé direito altíssimo com o forro bem estruturado, janelas para ambos os lados de alguns cômodos (que ficam entre o corredor de acesso e as terrazas, no total de duas, que dão no pátio que liga o andar inferior da casa) possibilitam farta circulação de ar. A escada interna de madeira nobre, magnífica, muito estável e com guarda corpos em toda extensão demonstra que não houve economia. O paredão de pedra ao lado da escada que, incorporado à parte interna dos ambientes traz integração à natureza, modernidade e liga o corredor do andar de cima e a sala inferior em torno do mesmo elemento.

As fundações, muito fortes, as paredes, grossas. Os portais de portas e estruturas das janelas enormes e nada obstante o investimento feito ali, para ser uma casa de gerações, alguns reparos podem ser necessários, pelo tempo. Saber de quem foi a casa certamente trará tranquilidade ao comprador, pois foi feita para durar.

Pois bem, firme impressão ficou no meu espírito acerca daquele local. Do jardim, com plantas e árvores frutíferas (as minhas preferidas: abacateiro e bananeira), o que me fez pesquisar e saber de quem tinha sido a casa.

O estilo pouco usual em torno de um terraço interno, hoje vejo, é um claro indício de que se trata de uma obra de construtor italiano e em pesquisas, descobri ser de Antônio Jannuzzi, calabrês, filho de Fioravante Jannuzzi [1]. Nascido em 18.06.1855 em Fuscaldo, na Calabria, na Itália, projetista e construtor italiano, foi casado com Ana Kinster, com quem teve muitos filhos vindo a falecer em 1949 em sua bela residência em Santa Teresa no Rio de Janeiro, foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier, no Caju, em um imponente mausoléu.

A belíssima Ana Kinster l Coleção Sônia Vicente – bisneta de Antônio Jannuzzi.

Nasceu em 1854 em Fuscaldo, na Calábria, Itália. Em 1872 emigrou de para Montevidéu, Uruguai, onde permaneceu por pouco tempo. Chegou ao Rio de Janeiro em 1874. Empreiteiro de obras, dentre as quais destacam-se:

I) Casa do Estudante do Brasil (Flamengo),

II)  estrutura férrea dos bondes de Santa Tereza com praças de manobras,

III) Palácio Modesto Leal (Laranjeiras / RJ)

IV) Teatro Municipal de Manaus – AM, inaugurado em 1896 (com ornamentação externa do italiano Eurico Mazzolani, e interna do brasileiro Crispim do Amaral e do pintor italiano Domenico de Angelis. O teatro foi inaugurado pelo Governador do Amazonas Fileto Pires Ferreira em 31.12.1896

V) Palácio Pedro Ernesto (atual Câmara dos Vereadores) na cidade do Rio de Janeiro

VI) Abertura da Avenida Central (hoje Rio Branco), no Rio de Janeiro, com uma doação sua à cidade do Obelisco colocado no final da Avenida (Obelisco este feito em um único bloco de cantaria, tirado de sua pedreira no Morro da Viúva).

V) Construção sua bela casa na Rua Monte Alegre 482 em Santa Teresa no Rio de Janeiro e a casa da Rua Petrópolis 97 (hoje Aarão Reis, 97).

VI) Palácios Fadel, Rio Negro e Itaborahy em Petrópolis.

VII) Prédio da Cia Docas na Rio Branco.

E muitos outros edifícios. Aconselho aos cariocas apaixonados por arquitetura que comecem a buscar a assinatura de “Antonio Jannuzzi, Irmão & Cia” nos mais belos edifícios da belle époque carioca. Descobrirão muitas outras obras de relevo. 

Como consta em comunicação pessoal de Pedro Auler em agosto de 2017 sobre a casa de Antonio Jannuzzi em Santa Teresa:

“Antonio Jannuzzi construiu a sua residência na Rua Monte Alegre nº 34, pois na constituição de uma empresa, da qual foi o diretor técnico, são relatadas as obras que estavam em andamento, figurando dentre as obras por administração a construção de casa em terreno de propriedade do Jannuzzi.

Em 1913 a casa da Rua Monte Alegre nº 482, esquina na então Rua Petrópolis (hoje Aarão Reis) já estava ocupada, pois na qualificação de sócios é a residência informada para Jannuzzi pai e Jannuzzi filho. Em rápida pesquisa na Hemeroteca Digital é possível saber que as filhas, mesmo casadas, residiam também nesse local, sendo que o genro Luiz Frederico Carpenter[2] residia no vizinho número 97 da Rua Aarão Reis.

Em relação à casa da Rua Monte Alegre nº 34, há alguns anos foi realizada uma obra de restauração da fachada e da escada, com a demolição do guarda-corpo da varanda e do corrimão da escada em alvenaria e a instalação de guarda-corpo e corrimão metálicos, provavelmente como na época da construção.

Essa obra, provavelmente buscou algum benefício fiscal – IPTU – por ser Santa Teresa uma Área de Preservação Ambiental – APA.

A propriedade de Jannuzzi, pelo anúncio de leilão, descia a Rua Aarão Reis em 25m, devendo compreender, na época, os imóveis de números 97 e 93. Inclusive os pilares dos portões, de pedra, são idênticos aos do portão da Rua Monte Alegre.

O portão do atual número 97 é o acesso a uma residência antiga e, inclusive, existe uma estrutura metálica de um antigo elevador (aparece em uma foto) e pode ser que fosse a residência do Jannuzzi, pai.”

Chegando ao Rio de Janeiro em 1874, no ano seguinte fundou a firma Antonio Jannuzzi, Irmão & Cia., junto com seus irmãos, os quais eram seus principais colaboradores na empresa que funcionava de forma hierárquica.

Conforme nos conta Grieco (2005), Antonio exercia o cargo de diretor geral, na Companhia se subordinavam arquitetos, engenheiros e desenhistas. Jannuzzi e seus irmãos tinham formação de mestre-de-obra (RICCI, 1908, p. 7 apud GRIECO, 2005).

Participou ainda da Companhia Evoneas Fluminense, na década de 1890, criada para a exploração da concessão dada a Américo de Castro para a construção de casas operárias (RICCI, 1908, p. 8 apud GRIECO, 2005).

A Companhia teve a concessão cancelada em 1892 resultando em prejuízo à firma Jannuzzi, Irmão & Cia (RICCI, 1908, p. 22 apud GRIECO, 2005).

Sua relação com a produção de casas operárias continuou nos anos seguintes com a exposição de projetos desse tipo no Club de Engenharia em 1920, por meio da Associação dos Construtores Civis, onde atuou como presidente durante os anos de 1919 a 1928 (GRIECO, 2005).

Possuía especial preocupação com a construção de habitação para pobres e operários tendo produzido e publicado artigos sobre este tema em jornais no Rio de Janeiro.

Em 1898 a firma de Jannuzzi foi premiada na Itália com a medalha de ouro na seção Ítalo brasileira da Exposição Geral de Turim.

Também ganhou em 1906 o Diploma de Honra na seção “Italianos no estrangeiro”, da Exposição Internacional de Milão (GRIECO, 2005).

Na publicação “Il Brasile e gliItaliani”, de 1906, teve os seus principais projetos fotografados e listados.

A atuação de Antonio Jannuzzi se concentrava nas cidades do Rio de Janeiro, Petrópolis e em Valença, onde teve grande influência na cidade contribuindo com a municipalidade e a sociedade com ações filantrópicas, como a reforma e doação de diversas edificações.

A  Companhia da família, que teve o nome alterado em 1907 para Antonio Jannuzzi, Filhos & Cia., foi responsável pela atuação em Valença nas primeiras décadas do século XX.  

Em sua homenagem foi batizada a Rua Antônio Januzzi, no bairro São Cristóvão, município de Rio de Janeiro, estado do Rio de Janeiro, região Sudeste do Brasil.

Os cariocas devem ser gratos à memória de Jannuzzi, uma vez que foi responsável por magníficas, realmente icônicas obras na Cidade e Estado do Rio de Janeiro que delinearam a imagem da cidade no Brasil e exterior.

Bibliografia

Antonio Jannuzzi<https://www.youtube.com/watch?v=blGtVPJHRGo>Acesso em 19 de novembro 2021.

Antonio Jannuzzi 1854-1949

<http://www.acasasenhorial.org/acs/index.php/pt/artistas/617-antonio-jannuzzi-1854-1949>Acesso em 19 de novembro 2021.

A mística do parentesco. História de Antônio Jannuzzi. Disponível em: <https://parentesco.com.br/index.php?apg=pessoa&idp=32076&c_palavra=&ver=por#&gt;. Acesso em 19 de novembro 2021.

AUGUSTO, Paulo. O Album: Publica-se todas as semanas em dias indeterminados (RJ). Agosto de 1893. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/706841/293&gt;. Acesso em 19 de novembro 2021.

GRIECO, Bettina Zellner. A arquitetura residencial de Antonio Jannuzzi Ideias e Realizações. Dissertação (Mestrado em Arquitetura). Rio de Janeiro: UFRJ, 2005.

Il Brasile e gliItaliani. 1906. Disponível em: <https://archive.org/details/ICIB_il_brasili_e_gli_italiani_tiff&gt;. Acesso em 19 de novembro 2021.


[1]Antônio Jannuzzi Filho, Gilberta de Negreiros Jannuzzi, Armando de Negreiros Jannuzzi, Arnaldo de Negreiros Jannuzzi

[2]LUIZ CARPENTER (1876-1957)  NOTAS BIOGRÁFICAS

Pedro Elias ErthalSanglard *

1. LUIZ FREDERICO SAUERBRONN CARPENTER era filho do Major RICARDO CARPENTER e de Dona LUIZA SAUERBRONN CARPENTER. Nasceu no dia 27 de agosto de 1876, na cidade de Nova Friburgo, Estado do Rio de Janeiro, na casa nº 50 da Praça Paissandú – existente até hoje – e faleceu em 10 de abril de 1957, aos 84 anos, solteiro, no Rio de Janeiro, sendo enterrado na sua cidade natal, no cemitério luterano.

2. Seus primeiros estudos foram feitos no Liceu Nacional de Friburgo. Depois veio para o Rio, onde residiu inicialmente em Santa Tereza e mais tarde em Copacabana, no antigo n. 163 da Av. Rainha Elizabeth, onde cursou a então Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, formando-se em Direito no ano de 1898. Sua turma, composta por 13 formandos (12 homens e uma mulher) colou grau no dia 26 de dezembro, sendo Patrono o Conselheiro BATISTA PEREIRA e Paraninfo SOUZA LIMA.

3. Profissionalmente, teve sua vida dividida entre a carreira do Magistério Superior e a Advocacia.

4. Professor de Direito desde os 22 anos, lecionou em várias Faculdades, tendo ocupado os seguintes cargos, dentre outros: Lente Catedrático de Direito Processual da então Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro; Professor Catedrático de Direito Judiciário da então Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (hoje U.F.R.J.); e Professor Catedrático de Direito Civil da então Faculdade de Direito do Rio de Janeiro (hoje U.E.R.J.).

5. Advogado militante, inscrito na ordem dos Advogados do Brasil em 17/03/32, sob o n 1.109, possuía seu escritório na Av.Nilo Peçanha, nº 38-D/sala 216 e sua sede principal da advocacia era o então Districto Federal. 6. No dia 29 de janeiro de 1935 fundou, juntamente com outros professores de Direito de sua época, a FACULDADE DE DIREITO DO RIO DE JANEIRO. Redigiu seus primeiros estatutos e foi seu primeiro Diretor efetivo, no período de 1935 a 1938, além de exercer a cátedra de Direito Civil. Esta

Faculdade deu origem à atual FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ.

88 Luiz Carpenter (1876-1957) – Notas Biográficas 7. No dia 1 de setembro de 1935, era criado o Diretório Acadêmico daquela Faculdade, o qual recebeu o nome de CENTRO ACADÊMICO LUIZ

CARPENTER – C.A.L.C., numa homenagem dos alunos ao seu querido mestre que mais tarde doaria sua biblioteca ao CALC.

8. Por defender idéias progressivas para sua época, foi preso, juntamente com outros companheiros seus, a bordo do navio-presídio “Pedro I”, acusado de ter participado da intentona comunista de 1935.

9. O Direito Penal Militar era sua especialidade e foi o primeiro jurista a aplicar a supervisão sociológica ao Direito Militar.

10. Ocupou inúmeros cargos e participou de várias entidades, tais como: foi membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB); membro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); sócio e ex-presidente da Associação Cristã de Moços (ACM); Membro da Comissão Legislativa do Governo Provisório; relator do projeto sobre a Lei de Minas.

11. Elaborou inúmeros trabalhos e publicou diversos Livros, dos quais, destacamos:

11.1.- “Da Prescrição”, em 2 volumes (3ª edição – 1958);

11.2.- Direito Penal Brasileiro e Direito Penal Militar de Outros Povos Cultos” (tese- 1914);

11.3.- “Sociedade Nova e República Nova” (1932);

11.4.- “Velho Direito Penal Militar Clássico e as Idéias Modernas da Sociologia Criminal” (tese- 1914);

12. Fundou e dirigiu a “Revista Universal da Doutrina, Legislação e Jurisprudência”e o “Anuário da Legislação, Jurisprudência do Supremo e Trabalhos do Congresso”.

13. Colaborou no Livro do Centenário dos Cursos Jurídicos com o artigo intitulado “O Direito Processual” (1927) e participou do Congresso do

Ensino Superior com a tese “Qual o typo de universidade que mais se adapta às condições do Brasil e a que orientação deve obedecer?”, realizado no ano de 1927, tendo discursado neste evento combatendo os exames vestibulares da época, bem como também colaborou na Revista Forense dando um parecer sobre a revogação do mandato (volume XXXVII) e com um artigo intitulado “A Conta Corrente”(volume LIII).

14. Destacamos a seguir alguns de seus pensamentos a respeito dos seguintes temas:

14.1.- Direito – “O fim do Direito é a luta contra a opressão e injustiças”

14.2.- Julgamento – “A moderação é o primeiro dever dos que se permitem julgar os outros”

Revista da ASBRAP nº 2 89

14.3.- Castigo – “A força, sob a forma do castigo, por mais severo, não impedirá o crime. Nenhuma instituição legal é apta para apreciar a culpabilidade moral. A idéia de castigo deu provas de sua miserável insuficiência.”

15. Entre seus familiares era chamado carinhosamente de “tio lulu”e conta-se que o advogado LUIZ CARPENTER pedia aos seus clientes para receber seus honorários em terras, pois almejava um dia distribuí-las aos pobres.

16. O saudoso Professor ROBERTO LYRA, seu colega e amigo, ao prefaciar o primeiro livro editado pelo CALC, em comemoração ao I Seminário de Estudos Jurídicos, realizado em 1964, é quem nos melhor descreve esta figura extraordinária que foi LUIZ CARPENTER:

“… O Centro Acadêmico Luiz Carpenter continua a honrar o seu patrono. Ele foi um homem bom, sincero e puro como poucos. Sua presença rescindia a autenticidade. Era tímido, porque verdadeiramente forte; era simples, porque verdadeiramente sábio.

“Já sexagenário, trabalhava no seu gabinete até tarde… Na prisão política, cuidava dos insetos, investigando sobre sua vida. O idealismo pioneiro de Luiz Carpenter inspira e guia o CALC.”

17. O CALC foi dissolvido em 1969 pelas forças da repressão que se abateram sobre os Estudantes de Direito do Catete, em consequência do regime de arbítrio e ilegitimidade que se instaurou no País com o golpe militar de 64. Mas, felizmente, em 1978, já no campus da UERJ, os alunos o reconstruíram, perpetuando no nome de seu patrono e inspirador, sua tradição de luta pela Democracia, Justiça e Liberdade.

18. No ano de 1985, a Faculdade e o CALC completaram 50 anos de existência, cabendo relembrarmos a figura deste grande Mestre que foi LUIZ CARPENTER, cuja memória o CALC mantém e manterá sempre viva.

19. Em 1994, a Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro inaugurou a Biblioteca LUIZ CARPENTER na sua sede regional da Comarca de Nova Friburgo-RJ, sua cidade natal, numa homenagem a um dos seus filhos mais ilustres.

20. Fontes de Consulta:

20.1. Revista “SÉCULO”, Órgão oficial do CALC, 1948/1949;

20.2. ALEGRIA, LOPO, Pequena História da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, 1985, Gráfica Riex Editora S/A.

20.3. ALEGRIA, LOPO, Assim foi Roberto Lyra, Liber Juris, 1984.

20.4. Arquivos da OAB/RJ, do IAB e do CALC.

20.5. Biblioteca da Faculdade de Direito da UERJ.

90 Luiz Carpenter (1876-1957) – Notas Biográficas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s