Uma rua e três casas V

“Beatrice na sacada” gravura por Michel Barcellos

Alexandre não percebera que a chance de fazer a obra tinha dado um novo sentido à sua vida. Tinha um foco no presente muito maior do que agora, que, pela ligação com seu passado lhe dava uma noção de eternidade. Antes vivia em ansiedade residente com uma boa dose de desesperança no futuro.

Frequentemente sentia agonia na própria existência, uma tristeza residente e inexplicável, para a qual não tinha qualquer fundamento razoável.

Sua vida era confortável, era competente no seu trabalho, não encontrava uma pessoa para compartilhar sua rotina, porque não queria dividir seu tempo com outra pessoa. Pensava que precisava enxergar sua individualidade novamente, coisa que não fica muito clara num casamento.

O desgaste que sofrera com sua ex-mulher não fora algo trivial, foi suficiente para que ele quisesse evitar “problemas” por um tempo.

Agora acordava motivado, o trabalho braçal ajudava a extravasar sentimentos ruins e estava se alimentando melhor, porque o grupo que contratou para ajudar na obra era de homens simples, acostumados com comidas naturais, menos industrializadas, então, fora a Coca-cola que surgia de vez em quando com o pão-francês e mortadela fina (a bobagem mais comum que consumiam) o resto dos lanches era de frutas e, quando a grana ficava curta, a limonada tomava o lugar do refrigerante.

Fizera um exame genético e o resultado o tinha divertido um pouco, batendo com as impressões registradas num diário de batalha que seu avô deixou. Na verdade, ambos antepassados (avô e tio-avô) tinham o hábito de escrever diários, com a diferença que o de Álvaro era mais objetivo, às vezes parecendo mais um livro de contabilidade do que um diário. Ali registrava obrigações e anotava compromissos, sempre fora da agenda, de maneira atemporal, possuindo orientação somente pela data rabiscada em algum canto.

Já as notas de seu tio avô Alberto eram muito detalhadas, com apontamentos históricos, descrições de viagem, impressões sobre as pessoas. Eram uma fonte histórica muito rica e importante, que confirmava algumas impressões que Alexandre tinha tido recentemente, no exame de sangue.

O resultado foi 64% europeu e o restante dividido entre América Central, Região Amazônica, Oriente médio, África. Faltaram apenas traços asiáticos e judaicos. Realmente, como num episódio de “Brasil: a última cruzada” da produtora Brasil Paralelo, o sangue do brasileiro é um tratado de paz com toda a humanidade.

O interesse na história de sua família, tinha melhorado o estado de espírito e melhorado um pouco o jeito desleixado e coadjuvante, para assumir as rédeas de sua vida e a aparência acompanhava a melhora no ânimo, ele ainda não tinha se conscientizado, mas estava muito bonito em uma idade que as pessoas nada mais esperavam dessa parte. Notava sim, que era muito bem tratado hoje em dia pelo sexo oposto quando chegava nos lugares e estabelecimentos, com uns sorrisos a mais etc, mas não tinha parado para pensar nisso.

Lógico que nos finais de semana sentia falta de companhia, especialmente porque o Carlão-baixinho (apelido que zombava do temperamento invocado do garçom do bar próximo de casa que era baixinho mesmo) não era a companhia ideal, muito embora excelente ouvinte nos intervalos de idas e vindas da bandeja de pedidos.

O pessoal do seu antigo prédio era casado e quando alguma das esposas aparecia, com as DR’s que surgiam ocasionalmente, subitamente ele passava a prestar mais atenção na TV do bar ou pedia a conta e ia pra casa.

“- Doutor.” O ajudante que tinha acabado de colocar o piso na sala de estar, ante sala e sala de jantar, agora chamava Alexandre.

“- Diga, Zé.”

“- Vamos instalar o corrimão da escada e os guarda-corpos das janelas. André e Marcos terminaram de colocar os revestimentos do banheiro do térreo e cozinha, ficou muito bom dá uma olhada lá daqui a pouco.”

“- Beleza.”

“- Ah mas vai faltar só uma massa no canto da lavanderia que acabou,  um pedaço pequeno e a loja fechou já.”

“-Sério? Vou ver se D. Celeste tem na edícula da casa dela, quando reformei deixei lá uma lata inteira que sobrou, vou lá ver com ela.”

“- Tá ‘bão’” – respondeu o mestre de obras.

Naquele dia tinha levado para a obra um dos cadernos do seu avô, que tinham sido copiados e encadernados para facilitar o manuseio sem se preocupar com a conservação. Aquele volume escolhido, do final de 1917, estava tão bem escrito, com sentenças mais longas do que as anotações apressadas usuais. Ao que parecia, se tratava do período em que Sr. Álvaro teve que lutar pelo Brasil, na primeira grande guerra, o que o tinha deixado reflexivo e com saudades de casa.

O escrito original tinha ficado guardado em sacos azuis, onde sua mãe guardava seu vestido de noiva, para evitar o amarelado e, como os livros receberam os mesmos cuidados dedicados ao vestido – ficando guardados na mesma mobília – estavam muito bem conservados, apesar de alguns danos normais, em se tratando de cadernos.

Num trecho, Sr. Álvaro, escreveu reflexões do dia e algumas observações sobre a semana no campo, relatou os efeitos deletérios da guerra, generalidades sobre ações pontuais e batalhas, nomes de companheiros de tropa, de filhos que se perdiam e de pais que não voltariam para casa, a fim de manter o ocidente de pé.

Os relatos mais doloridos se referiam aos jovens sucumbentes nas batalhas, pois não poderiam ter filhos e uma vida ao retornar ao Brasil.

Os horrores que encontravam nas cidades aonde os nazistas haviam passado também causaram vívidas impressões ao jovem Álvaro. Eram cenários aterradores, de muita pobreza e catástrofes, que nunca mais lhe sairiam do espírito.

Num tempo de comunicações difíceis e de internações hospitalares longas, doloridas e complicadas, sem possibilidade de fácil localização dos soldados no exterior; num cenário de horror e incertezas, Sr. Álvaro (que tinha há pouco completado 21 anos) escreveu sobre D. Amélia:

“Sobre ela, uma das imagens mais lindas que tenho na minha mente e uso como fonte de esperança neste lugar. Guardo-a para não enlouquecer diante dos horrores que tenho visto nesse campo, do sofrimento quase palpável das pessoas e a brutalidade de alguns indivíduos, potencializada pela guerra; do ambiente de terror que temos todos vivido no acampamento, temendo por mim, pela guarnição, por perder definitivamente a vida que teria com ela… fixo na minha mente a figura de Amélia, quando eu saía mais cedo para o Colégio, apenas para durante alguns minutos vê-la aparecer na sacada, ainda com o cabelo preso displicentemente, conjunto de dormir comprido, de seda branca com o qual aparecia na sacada do quarto, com uma xícara de café nas mãos, olhando rapidamente a rua para ver o tempo e escolher o uniforme a usar. Não podia evitar pensar que seria aquela mulher com que gostaria de amanhecer e passar todos os dias da minha vida e não aqui neste ‘inferno ajeitado’, com o Otoni da maquinaria ou o Avellar da artilharia. Imagino o cheiro de flor de laranjeira da colônia que usava de contínuo, com o aroma do café da xícara que segurava…”. Alexandre notou o borrão da tinta nesse ponto, teria chorado seu avô ao escrever esse trecho?

Estava quase chegando na casa de sua inquilina para pegar a lata de massa corrida, por isso levantou a cabeça e parou, estático, meio chocado, intrigado e temendo estar louco, quem era aquela na varanda da casa que foi de sua avó?

Beatrice estava na janela, como um reflexo do trecho que Alexandre tinha acabado de ler. Olhou pra ele e realmente estancou por um instante e, se não fosse cristão e corajoso teria saído correndo. Não porque o quadro fosse feio, ao contrário, era lindo. Mas a probabilidade daquilo acontecer daquela forma que era espantosa.

Voltando a si e consciente que tinha parado no meio da rua, provavelmente com cara de espanto e o caderno quase caindo da mão esquerda, engoliu seco, olhou melhor e reconheceu a mulher que havia passado em frente à obra noutro dia, quando tinha acabado de instalar as janelas no segundo andar.

– Mas como pode isso? Pensava.

Bea olhou pra ele e pensou:

– Ah, é o senhorio. Como é gato! Não quero que me veja assim, mesmo que a última coisa que precise nesse momento seja me envolver com um homem desses. Deve ser casado, não tem homem assim disponível…não parece gay…”. Pensou Beatrice, disfarçando e saindo da varanda.

Alexandre já tinha começado a caminhar na direção do portão, sem saber se ela tinha percebido o espanto dele ou não. Tocou a campainha e D. Celi veio atender, toda arrumada como se fosse sair. A mulher passava o dia inteiro arrumada. Lembrava dela dizendo:

“-Meu filho, uma mulher que se preze, educada na minha época só sai do quarto com a toilette completa, pronta para passar o dia! Em 35 anos de casamento meu marido nunca me viu desgrenhada, nunca!”. Ele desconfiava um pouco da veracidade desse “nunca” e ria com o jeito da senhora, mas a verdade é que, ao menos ele, nunca a tinha visto desleixada.

“-Dona Celeste, pode me emprestar aquela lata de massa que deixei na edícula com o que sobrou dos reparos da casa? Deixaram acabar na obra e eu queria começar amanhã com tudo pronto e os acabamentos secos…”

“-Claro meu filho, um minuto que vou pedir pra pegarem pra mim, já volto, acabamos de lanchar, fale com a Creuza ali na cozinha para te servir um café”.

“-Não se preocupe D.Celi já estou incomodando muito”.

Nisso D. Creuza, uma adorável senhorinha de 87 anos que fazia companhia à parente – D. Celi – saiu da cozinha e disse:

“-Venha, filho, você anda magro demais, já foi ao médico? Acho que perdeu uns vinte quilos!”. Alexandre foi com ar divertido, pensando que para os mais velhos sempre estamos magros e desnutridos.  

Enquanto ele estava sentando na copa conversando com D. Creuza, Bea apareceu na porta “para trazer a xícara” que tinha levado para cima. Na verdade queria saber o motivo da visita e conhecer, nem que superficialmente aquele homem bonito.

“-Boa tarde”, ela disse a todos.

“-Boa tarde”, responderam em uníssono D. Creuza e Alexandre. Ela era mais bonita ainda de perto, pensava. Mas ela sim está um pouco magra, acho. Tem o ar um pouco triste também. Pode ser timidez, vamos ver.

“-Sou Alexandre, já nos vimos aqui na rua, não?”

“-Sim, eu passei em frente à obra outro dia. Está linda a casa, fiquei muito feliz por estar sendo reformada, sabe? Sou apaixonada por arquitetura do século XIX pra trás. Muito prazer, Beatrice.”

Outra Beatriz?

“-Beatrice? É francês seu nome?”

Sim, na verdade misturado, Beatrice Amelie Hendriks, minha avó era fã de D. Amelia de Leuchtenberg, como minha mãe achou que, para agradá-la ficaria esquisito Beatrice Amélia, então colocou Beatrice Amelie.

Piorou, o espanto de Alexandre agora não tinha mais tamanho! Tomou o café até o final e resolveu comer o pão na frigideira que D. Creuza tinha acabado de colocar na sua frente só para disfarçar.

De um lado Beatrice tinha o nome que lembrava sua ex e do outro sua avó! Lembrou da imagem na janela, agora já ligava totalmente a imagem que ali estava com o texto que vinha lendo. Lembrou de olhar para o impresso, para ver se estava fechado.

Na verdade Amelie e sua ex não poderiam ser mais diferentes! Sua ex era moderna, odiava coisas românticas, afetivo-familiares, conservadoras. Se desfazia das coisas a cada dois anos e gastava tudo que ganhava, para sempre ter todas as coisas no último modelo disponível.

Amelie não, parecia uma bailarina…delicada e natural, não tinha nada muito ostensivo, tudo era harmônico. Ele não estava entendendo muito bem o vínculo que acabava de se formar, apenas lhe pareceu…certo. Sim, tudo estava no seu devido lugar.

– CONTINUA –

2 comentários sobre “Uma rua e três casas V

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s