Uma rua e três casas IV

Alexandre estava no segundo andar no recém instalado piso de madeira, sentia o piso firme recém-colocado sob seus pés, o vento correndo pelas janelas abertas, circulando pela estrutura ainda sem portas e se sentiu incrível.

A sustentação refeita em estruturas de madeiras dispostas em vigas resistentes, ora apoiadas, presas e cruzando em determinados pontos, com material e técnica repetida no telhado sobre sua cabeça e pensou que se parasse por ali a obra ficaria com aspecto de construções alemãs.

Era a hora do lanche da tarde, alguns pedreiros tinham ido à padaria para comprar os indispensáveis pães com mortadela fina com refrigerante. Outros preferiam café preto e pão na chapa. Ele tinha ficado na obra, aproveitando as frutas que trouxera, especialmente a melancia, a qual já comera quase a metade.

Sentiu o vento forte que corria ali e pensava em como seus últimos meses tinham sido bons para ele, nunca imaginou que seguir sua vocação secundarista de trabalhar com edificações traria tanta felicidade.

Desde a última tentativa frustrada de alugar a casa de sua vó Amélia decidiu alugar para D. Celeste, uma aposentada do Tribunal de Contas que vivia feliz na casa porque lembrava “a casa aonde cresceu no interior de São Paulo”, dizia ela.

Vendeu sim, mas o apartamento. Tinha sido muita sorte vender em plena pandemia, para um cientista que veio ajudar na fabricação de vacinas na Fiocruz.

Com os recursos, obteve o suficiente para comprar a casa de D. Adelaide.

O corretor e o antigo proprietário ficaram felizes em se livrar do problema, pois, com o início da pandemia a construtora sumiu sem efetuar pagamentos, tampouco dando início à obra, de maneira que estava reconstruindo a casa de dona Adelaide.

Já estava na estrutura do segundo andar. Refez as bases de sustentação, piso e contra piso do térreo e do segundo andar, escadaria reta de metal com madeira, corrimão e apoio de ferro em arabescos, acabamento em madeira polida, fazendo a ligação com o segundo andar pelo hall largo que havia na sala.

Sr. Vicente, pai de D. Adelaide tinha colocado a escada ali a pedido de D. Severa que não queria “nenhuma escada estragando sua linda sala de estar e tampouco “poeira de escada caindo na sala de jantar” logo, o hall no meio da casa foi construído largo, comportando a subida para o segundo andar e o corredor para a cozinha.

As grades protetoras em volta da descida da escada no segundo andar davam um ar clássico ao recinto, servindo de acesso aos quartos e banheiros.

De volta ao primeiro andar: no final do corredor a cozinha, lavanderia, com saída para a área de serviço e mini quintal que pensava recriar parte da atmosfera do jardim da casa de Botafogo que Machado de Assis descreve em “A Mão e a Luva”.

Tinha dado muito trabalho, mas tinha valido a pena. Praticamente tiveram que usar a referência por meio de fotos e depois descascar todo o imóvel por dentro, tirando camadas de tinta inclusive em algumas partes para analisar se havia cupins por dentro da estrutura ou em alguma outra parte, fazendo impermeabilizações, marcenaria, escolhendo madeiras, comprando revestimentos etc.

Para atender essas necessidades sem gastar tanto dinheiro, fez todos os cursos online que pôde, até de pintura campestre e de temas da flora brasileira para refazer a pintura de algumas paredes dos cômodos do fundo no estilo original.

Deu trabalho encontrar camurça para revestir as paredes como a original. Por fim substituiu a original (não mais comercializada) que estava arruinada, por uma sintética para fazer o estofamento dos detalhes da sala.

Passava os dias serrando, lixando, pintando, colando madeira, ajudando os pedreiros e o mestre de obras, debatendo com arquiteto sobre como finalizar os acabamentos do imóvel e decorar.

Curioso que antes nunca tinha dinheiro para nada, agora com a paixão que estava sentindo por aquele projeto por fazer acontecer aquela reviver a história de sua família, tudo acabou dando certo, estava já no segundo andar.

Vez ou outra se socorria aos registros escritos de sua família para lembrar de eventos, sensações, descrições e fatos relacionados àquela que seria sua casa.

Esses períodos que passou fazendo trabalho braçal, debaixo do sol, com poucas e leves refeições associadas ao trabalho braçal tinham feito muito melhor a Alexandre do que seus treinos na academia. Emagrecera muito.

O fato é que estava muito bem, certamente rejuvenesceu uns 15 anos com esse processo, a ponto de passar em frente de uma vitrine qualquer e se assustar com o reflexo. Tinha cortado o cabelo liso e escuro, rajado de fios grisalhos bem curto e gostou do aspecto que conseguiu.

Sentia-se renovado e mais forte do que quando tinha começado tudo aquilo, naquele dia em que, tentando vender a casa de sua vó, fez as reflexões que o levaram a empreender essa reconstrução.

Para seu espanto a intenção de trazer de volta a história da sua família tinha suscitado uma personalidade que ele jamais imaginara existir.

Notava ao passar na rua os olhares das mulheres e volta e meia recebia sorrisos de volta. Alexandre não levava em consideração o fato, pois o sofrido divórcio havia mexido muito com sua autoestima e o fez se fechar para relacionamentos, mas era muito bonito. Tinha herdado os olhos claros da família de D. Amélia e o cabelo escuro e liso do avô, Sr. Álvaro. O sol que vinha pegando na obra lhe conferia o aspecto de velejador.

Como tinha passado a maior parte da vida em escritórios, o sol não tinha feito lá grandes estragos em sua pele e a verdade é que ele simplesmente parecia muito mais novo, somente por estar vivendo ao ar livre e fazendo uma atividade que respondia à biologia masculina.

Ultimamente, por causa da pandemia, além da obra, se distraiu indo para o interior e fazendo longas trilhas e cavalgadas para escapar da neurose das cidades. Andava com verdadeiro nojo das palavras “álcool gel”, “vacina”, “cepa”, “variante’, a ponto de estragar o dia se ficasse ouvindo conversas sobre o assunto.

Em Penedo, descobriu-se exímio cavaleiro, montando sem qualquer dificuldade o cavalo branco que lhe foi cedido para fazer o primeiro passeio. O mesmo virou companheiro de muitas outras cavalgadas, chamava-o “Javier”. O dono tinha dado um outro nome, mas ele o chamava de Javier, a montaria entendia e isso era o que importava.

Alexandre não sabia, mas a equitação era talento nato de sua família e seu tio-avô Alberto tinha sido campeão de equitação em vários torneios na época do Colégio Militar e batalhas durante a vida militar que viria a abraçar.

Nesse momento passou na rua um daqueles “homens modernos” com físico inchado como um frango com hormônios, trabalhado com anabolizantes e comidas estranhas, correndo…de máscara.

De máscara?

Passaram duas moças bonitas. Alexandre pensou que deviam ser da mesma academia, pois faziam o mesmo exercício, porém vinham em sentido contrário, sem máscara, normais. Ao passar debaixo da obra, a conversa das moças chegou até ele no alto da obra: “-Doente…passa álcool gel em tudo e fica reaplicando toda hora, virou cacoete já…” risinhos ofegantes e seguiram o exercício.

Que geração desconforme, meu Deus. Nenhuma harmonia, nenhum interesse convergente, tantas coisas além da questão “homem x mulher”, tanta problematização e ideologia. Observou os pedreiros chegando e começando a limpar o andar de baixo. No dia seguinte muito trabalho os aguardava. Admirava as janelas colocadas no dia anterior e já se preparava para encerrar o expediente.

Tinha dado muita sorte com as janelas de demolição do mesmo padrão das que estavam anteriormente na casa de D. Adelaide, admirada as janelas em contraste com o céu azul do entardecer daquele dia de céu azul no Rio, quando a música conhecida há muito e que marcou sua vida soou ao longe.

A canção antes era entoada para conquistar alguma namoradinha, interpretando a letra sobre aquilo que então não tinha vivido e depois, anos mais tarde em seu divórcio, com pleno conhecimento de todos aquelas sensações e sofrimentos:

Quase Um Segundo

Os Paralamas do Sucesso

Eu queria ver no escuro do mundo

Onde está tudo o que você quer

Pra me transformar no que te agrada

No que me faça ver

Quais são as cores e as coisas

Pra te prender?

Eu tive um sonho ruim e acordei chorando

Por isso eu te liguei

Será que você ainda pensa em mim?

Será que você ainda pensa?

Às vezes te odeio por quase um segundo

Depois te amo mais

Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo

Que não me deixa em paz

Quais são as cores e as coisas

Pra te prender?

Eu tive um sonho ruim e acordei chorando

Por isso eu te liguei

Será que você ainda pensa em mim?

Será que você ainda pensa?

Às vezes te odeio por quase um segundo

Depois te amo mais

Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo

Que não me deixa em paz

Quais são as cores e as coisas

Pra te prender?

Eu tive um sonho ruim e acordei chorando

Por isso eu te liguei

Será que você ainda pensa em mim?

Será que você ainda pensa?

Refletia sobre um ponto específico: “Às vezes te odeio / por quase um segundo / Depois te amo mais / Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo / Que não me deixa em paz / Quais são as cores e as coisas / Pra te prender? / Eu tive um sonho ruim e acordei chorando / Por isso eu te liguei.”

Esse amor, essa ligação, dependência quase física… sensação de ser o mundo de outra pessoa e ser correspondido, a metafísica de ser um momento emocional, sensorial e sentimental…sentir saudade dos pêlos e do gosto de outra pessoa? Ligar pra outra pessoa? Ligação de voz mesmo? Não uma mensagem de texto em aplicativos de mensagens?

Lembrou do rapaz correndo de máscara e riu. Aquele ali deve entender essa letra em sentido figurado.

Geração asséptica, neurótica, cenográfica, que não sabe o que é estar tão apaixonado assim pela pessoa certa. Por não saberem discernir o que é uma relação de futuro do que é irrelevante, supervalorizam pessoas más e são frustrados, abusados, roubados e até mortos.

Já não ria mais, agora sentia pena e via como as relações humanas se tornaram complexas e perigosas.

Antes o perigo era infidelidade. Agora é infidelidade, falta de lealdade, flexibilidade na orientação sexual (que impede de saber a estabilidade de comportamentos e reciprocidade numa relação), assédios e abusos diversos, mau caráter, violência.

A formação humana dos últimos tempos na tríade base familiar/educação/relações sociais está caótica e formando pessoas muito estranhas, neuróticas, histéricas, covardes, hipersensíveis, incapazes de distinguir perigo, egóicas a ponto da cegueira (quem não me amaria, quem não me aceitaria?), se tornando vítimas fáceis para pessoas loucas.

Por esse motivo estava agora decidido firmemente a morrer assim. Tanta coisa pra fazer…na verdade não via seu interior como um deserto, apenas um local tranquilo e confortável de estar.

“A melhor sensação do mundo é não estar apaixonado” pensava. Sabia que era comodismo, mas melhor acomodado que sofrendo. Anna, uma amiga colorida que tinha, costumava dizer que ele perdeu a fé em relacionamentos, só não sabia se era definitivo ou permanente.

-Chefe, acabamos aqui. Os pedreiros gritaram do andar de baixo.

-Estou recolhendo a corda, já vou descer! Respondeu.

Pegou a corda que estava espalhada pelo chão e ia enrolando no braço para guardar, ainda olhando para a rua quando vinha passando uma moça pela rua, caminhando na direção do outro lado na rua, no sentido da casa que alugara.

-Para onde será que vai? Se perguntou em pensamento.

Devia ter entre 38 e 45 anos, e chamou atenção de Alexandre pelo porte delicado, esbelto e a altura mediana e porque tinha um cabelo… ruivo claro, justamente como de sua avó Amélia. A compleição delicada denunciava os anos dedicados a algum exercício, seria ballet? Linda. Vinha andando com o olhar baixo em tom reflexivo, de maneira que do ângulo que Alexandre estava não se via os olhos. Levava a bolsa agarrada ao corpo como quem segura um travesseiro, passava um ar de insegurança, ansiedade talvez.

Alexandre a olhou até a perder de vista. Mal sabia que tornaria a vê-la com muito mais frequência e que tinha o primeiro nome parecido com o de sua ex.

Beatrice vinha andando pela rua com o mesmo ar melancólico que acompanhava desde sempre, agora com pitadas de ansiedade beirando o pânico. Quando isso acontecia precisava se controlar, focava na respiração e fazia exercícios de autocontrole e uma meditação que seu terapeuta havia passado.

O fato é que os ataques agora estavam um pouco mais suaves, ainda ocorriam devido ao que acontecera.

Alguns meses antes, Beatrice fora enganada por um homem com quem ainda estava casada.

O sujeito a enganou, ocultando que se tratava de uma pessoa com passado violento. De família de exportadores de flores holandeses e produtos campestres precisou fazer uma viagem   a trabalho para o seu país natal, a fim de vender as terras e estabelecimentos para os primos. Não teria como, sozinha cuidar do negócio da família sem falar que crescera no Brasil e não tinha a menor afinidade com a Holanda.

Nesse período tinha deixado um cartão de crédito sem limite que possuía com Leonardo, que tinha gastado cem mil reais no nome dela. As despesas, variadas, tinham sido realizadas desde restaurantes a prostíbulos, passando por joalherias, lojas de roupas e barbearias. Até lipoaspiração o maldito tinha feito no cartão dela.

Quando questionado, a agrediu violentamente, deixando-a com todas as sequelas físicas e psicológicas que ostentava então. Seu advogado tinha conseguido avançar o processo de divórcio litigioso que visava tirar o sobrenome dela – Hendriks – que o canalha ostentava por aí em seus golpes.

Tinha muito medo de ficar sozinha, por isso tinha alugado um quarto na casa de D. Celeste. No início sentiu medo, por causa do balcão que há em seu quarto, mas D. Celeste instalou um sistema de segurança avançado e ademais, apesar da idade, era exímia atiradora. Por causa da função do ex-marido tinha armas em casa e ocasionalmente ia praticar tiro no Clube de Tiro em Jacarepaguá, para não perder o jeito.

Beatrice riu, repassando mentalmente o apelido de D. Celeste que havia dado “Lili Carabina”. A própria Bea fazia há alguns meses Krav Magá a fim de se sentir menos indefesa, o exercício lhe tinha dado reflexos interessantes, que lhe valeram reações rápidas que afastaram tentativas de furto no Centro da Cidade, mas a verdade é que perante Leonardo ela temia falhar.

D. Celeste viu pela câmera a chegada de Bea e abriu o portão, fechando assim que entrou.

-Conseguiu resolver minha querida? Perguntou a Bea. Sem esperar resposta, virando-se para dentro, D. Celeste  gritou: -Ernesto, traz as coisas para podar esse arbusto aqui perto da roseira?

-Já vou, um minuto. O faz tudo da casa respondeu. Trabalhava com D. Celeste desde que o marido da mesma, Sr. Murilo era vivo. Agora era parte da família.

-Consegui D. Celi (como a chamava) agora é só esperar a homologação e a comunicação ao cartório para poder tirar minha certidão de divórcio daquele monstro.

– Ah que bom, suba que seu quarto está limpo e já vamos colocar a mesa do jantar.

D. Celi guardava todos os ritos diários de sua vida de esposa de alto funcionário público e tinha adotado Beatrice como filha, uma vez que seus próprios filhos moravam no exterior e não pretendiam voltar.

– CONTINUA –

Este conto autoral de Renata Araujo, faz parte de um livro autoral de contos, o conteúdo autoral é protegido por lei e publicado em primeira mão e com exclusividade no Tribuna de Santa Cruz. A reprodução é autorizada com citação da fonte, exemplo: ARAUJO, Renata. Uma rua e duas casas: crônicas do Brasil que se foi, 2019. Disponível em: <Uma rua e três casas – Tribuna de Santa Cruz;. Acesso em: 13 de mar 2021.

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