Saudosismo, não. Autoestima.

Talvez seja “fora de tom” neste momento com tantas pessoas sofrendo, falar de arte ou qualquer outro tema sensível que não, “sobrevivência”. Pessoas sem emprego, comida, dignidade e esperança numa progressão constante, clamam pela urgente regeneração de suas identidades e necessidades mais prementes, subtraídas por prefeitos, governadores e outras autoridades que deveriam zelar pela vida do povo, que paga seus salários. Lamentavelmente, há uma disputa entre eles pelo título: “o mais cruel do ano”. ‘

Perdoem o desabafo, mas como o tema desta coluna é “Arte e Reflexão” não é possível prescindir do ser humano e do momento pelo qual passa a sociedade. A arte não existe por si mesma, ela é um serviço “de homem para homem”, que através dela estende os limites da própria existência, “experimentando outras vidas”. No Brasil o teatro é uma manifestação artística forte, porém a tv é o ”produto queridinho nacional”. É através dela que o povo conhece outras realidades além da sua.

A televisão brasileira estreou com um universo riquíssimo de programas, indo do auditório ao teleteatro de Walter Forster e o Grande Teatro, ambos da TV Tupi. O último foi dirigido por Sérgio Brito com textos adaptados do teatro, por Manoel Carlos e contou com a presença de Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Natalia Thimberg, dentre outras grandes nomes dos palcos brasileiros. Cassiano Gabus Mendes, autor da novela-tema deste artigo, fez parte da história do Teleteatro Tupi.

 Com o tempo, o teatro deu lugar às novelas e sua linguagem própria. Um falso naturalismo se impôs e a novela passou a ser sinônimo de produto pasteurizado, pouco elaborado artisticamente. Mas nem sempre foi assim. As reprises atestam que o tempo não apaga as grandes atuações e as grandes histórias; ao contrário, elas deixam saudades. Personagens como Odorico Paraguaçu, Odete Roitman, Gabriela, Viúva Porcina, Sinhozinho Malta e tantos outros estão na memória do povo brasileiro.

Estou revendo uma das melhores novelas, na minha opinião, já feitas no Brasil: “QUE REI SOU EU?”, de Cassiano Gabus Mendes que foi ao ar em 1989. Por que resgatar uma novela tão antiga, neste momento? Porque é um excelente entretenimento, que aborda o absurdo da política no Brasil, a corrupção e a demonização das autoridades com um humor refinadíssimo. O elenco de primeira linha, a direção de Jorge Fernando e o texto de Cassiano juntos, criaram uma “rara obra perfeita”.

Sem nenhum pudor, pode-se dizer que novelas como essa são verdadeiras obras de arte. Hoje em dia não se vê mais “personagens”; o que se tem são atores impondo suas personalidades repetidamente, esgotando a linguagem cotidiana num falso “naturalismo” (com raras exceções). “QUE REI SOU EU” ainda pertencia a uma época em que grandes atores de teatro davam ao público a oportunidade de rir de suas próprias mazelas. Os diálogos perspicazes de trinta anos atrás, caberiam perfeitamente hoje.

A rainha de personalidade forte, (Teresa Rachel), os conselheiros (Jorge Dória, Laerte Morrone, Oswaldo Loureiro, John Herbert e Carlos Augusto Strazzer) que só pensam em falcatruas, dinheiro e mandar pessoas para a guilhotina (que nunca funciona), garantem bons momentos nesta trama. O equilíbrio na alta esfera do poder é Bergeron (Daniel Filho), honesto e que por isso atrapalha os “projetos” de seus colegas, ansiosos para livrarem-se dele.

Madeleine (Marieta Severo), esposa de Bergeron é escritora e sonha em “igualar as mulheres aos homens”; a Princesa Juliette (Claudia Abreu), virgem e romântica espera encontrar o grande amor da sua vida e se opõe aos casamentos por interesse da corte; Suzane e Lucy (Natalia do Vale e Ísis de Oliveira), as belas obrigadas a casar com suas “feras” por dinheiro – ambos bem mais velhos do que elas – são oprimidas e infelizes.

Tem ainda o herói jovem e revolucionário do povo (Edson Celulari) que luta contra as injustiças do reino; seus comparsas (Stênio Garcia, Marcos Breda), sua protetora (Ítala Nandi), sua namorada (Giulia Gam), o “mago” Ravengar (Antônio Abujamra) maquiavélico, aliado da rainha e sua parceira de maldades (Vera Holtz). Tem ainda o falso herdeiro do rei forjado para “subir ao trono” (Tato Gabus) e muito mais.  Cultura popular brasileira de alto nível. Orgulho nacional.

Nunca houve dificuldade das classes mais humildes em acompanhar o(s) folhetim(ns). Bons tempos, verdadeiramente democráticos, onde era possível se expressar livremente. As diferenças humanas não agrediam, ao contrário, mostravam a riqueza que existe em cada classe social sem a hipocrisia “politicamente correta”. Não havia vitimismo; os pobres do Reino de Avilan eram fortes e determinados, cheios de otimismo e nobreza de caráter. Hoje a amoralidade é vista como uma virtude.

Outra característica que chama a atenção em QUE REI SOU EU é um certo grau de inocência, não no sentido infantil, mas no sentido de priorizar o entretenimento. A realidade nua e crua é mais apta para filmes e minisséries, na minha modesta opinião. A novela pode e deve se atualizar, mas sem perder a sua vocação familiar. Precisa manter a leveza. Novela e revolução não combinam, são antagônicas. Só podem se unir numa boa sinopse, nunca como adoção dos valores da segunda, pela primeira.

O Brasil exala sensualidade e sempre abusou disso em sua dramaturgia. A mulher é o maior apelo da tv; cenas como a de “Sônia Braga-Gabriela no telhado”, registro obrigatório da memória televisiva, representa uma provocação – não uma exposição total. Passadas algumas décadas, um encanto se quebrou e o produto perdeu. O espectador também. O apelo gratuito não é a melhor expressão artística, principalmente num veículo tão invasivo.

É comum ouvir de algumas pessoas da área artística que “gente feia não pode fazer tv”.  Discordo veementemente; sempre vai haver lugar para o talento e a expertise de artistas consagrados. Um grande personagem só pode ser feito por um grande ator. Sem exagero, o Brasil tinha excesso de talento e grandes atuações na tv. Ainda existe, claro, mas em menor quantidade. Atores bons não são mais prioridade nas escalações de elenco. Ou talvez o conceito de bom ator tenha mudado.  

O Brasil exporta suas novelas para o mundo e é referência no assunto. Parei de ver novela há algum tempo, mas continuo gostando do gênero. Seria bom ver uma novela hoje que abordasse o drama dos cristãos no Brasil ou os absurdos que as autoridades cometem em nome de um vírus. Que falta faz Cassiano Gabus Mendes ou outros de sua grandeza. Chico Anysio com seu humor sarcástico também. Quem sabe Silvio de Abreu nos salva. Não creio, o tema é feio demais. Ainda bem que existe a internet para relembrarmos as glórias do passado.

Eu sou Bianca Montanas (Twitter @biancamontanas1), atriz, titular da coluna Arte & Reflexão, do Tribuna de Santa Cruz. Vamos conversar!

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