Uma rua e duas casas III

Crônicas do Brasil que se foi

Este conto autoral de Renata Araujo, faz parte de um livro autoral de contos, o conteúdo autoral é protegido por lei e publicado em primeira mão e com exclusividade no Tribuna de Santa Cruz. A reprodução é autorizada com citação da fonte, exemplo: ARAUJO, Renata. Uma rua e duas casas: crônicas do Brasil que se foi, 2019. Disponível em: <https://tribunadesantacruz.com/2021/03/13/uma-rua-e-tres-casas/&gt;. Acesso em: 29 de mar 2021.

Casa de Adelaide, desenhada por Amélia.

O ano é 2020. Alexandre Vieira II, neto do casal Álvaro e Amélia está na padaria, onde um dia – ele o sabia agora – funcionou o negócio do Sr. Vicente.

Ele está tendo um mau dia. Tenta vender a casa que foi de seus avós, mostrando-a aos interessados com o corretor pela décima vez, sem sucesso.

A casa está ótima, os cômodos lindos, seus avôs viveram uma grande história de amor ali e isso se refletiu na casa. Sim, tiveram uma boa vida.

A verdade é que Alexandre não sabe muito bem o que fazer com a casa, os tempos são outros. Acredita que precisa vender antes que o imóvel se degrade e seja invadido, ou precise ser demolido. Ele não quer que isso aconteça de jeito nenhum, precisa do dinheiro, mas não a esse custo.

Ainda mais agora, que encontrou os diários de sua avó nas coisas de seu pai.

De início ficou emocionado demais com a leitura daqueles 8 cadernos e teve que interrompê-la algumas vezes, seja por saudade, seja por tristeza ou alegria. Ler aquelas linhas era uma torrente de emoções que era difícil suportar às vezes.

Em variados cadernos estavam dados do cotidiano da vida de Amélia, registros de conversas e eventos, sentimentos, detalhes de festividades e registro de momentos tristes: como falecimentos de parentes e amigos. O dia do nascimento de seu pai em 1919 e o seu próprio nascimento em 1960.

A leitura lhe dava uma sensação estranha de que existem dimensões, camadas no tempo aonde aqueles eventos ainda estavam acontecendo:

“-Certamente Deus usa essas camadas para registro de eventos a serem julgados no dia do Juízo Final”, pensava, enquanto tomava seu capuccino e esperava o bom e velho pão na chapa.

Os itens eram apreciados desde seus tempos de Pedro II e depois, Ferreira Viana, colégio técnico ali em frente.

Alexandre tinha a mesma sensação quando estava na escola técnica e por alguma razão tinha acesso aos laboratórios na ala esquerda do colégio, que ficava do lado oposto ao auditório. Cheio de tubos de ensaio e equipamentos que não eram utilizados por falta de verba para oferecimento do curso, problema que havia, então.

Ele olhava para aquela estrutura e sonhava em como seria bom estar naquela sala, com todos os equipamentos funcionando, com os colegas uniformizados (decentemente, sem fazer o uniforme de ‘abadá’) e pensava que, aqueles que puderam estudar ali na época de ouro, foram privilegiados.

Seu amigo, Ivan, costumava dizer que a Escola então “-Rivalizava com a Federal de Química”.

Quando o amigo falava, Alexandre tinha dúvidas, mas ao olhar para o laboratório desativado, sabia que era verdade. A arquitetura, as instalações, projetos e o urbanismo de uma época dão uma vista geral de como era a vida das pessoas.

A casa de seus avós dava um testemunho de quão maravilhosa fora a vida deles e os diários, de como as pessoas eram cultas.

Escreviam, tocavam músicas, falavam idiomas de maneira perfeita, tudo aprendido na escola. Seu nome de batismo foi escolhido porque seu vô Álvaro dizia que: “-Alexandre foi o maior guerreiro que já existiu” e logicamente chamou assim ao filho, pai de Alexandre, que o chamou de Alexandre II.

Pensava, levemente amargurado com tudo que estava acontecendo: seu divórcio e o que viu no caminho da padaria. Pensava:

“-Alexandre II… logo eu fiquei com o nome igual ao mais devasso…muita sorte. Meu pai se chamou Alexandre I e eu, II. Meu avô obviamente não tinha tido o desprazer de assistir aos comunistas destruírem a imagem de todos os personagens históricos, tachando-os de pederastas, devassos, sodomitas, idiotas, estúpidos e toda a banalização das figuras outrora tidas como heroicas, que serviram como base dos arquétipos mentais atuais. Graças a Deus não soube antecipadamente as merdas que falariam no futuro da Família Real brasileira, senão teria morrido ainda antes.

Além de todos os seus problemas estava triste: identificou após a leitura do diário qual era a casa da tia-avó Adelaide, bem como a casa de seu avô, com o tio-avô Alberto.

A casa de D. Adelaide estava prestes a ser demolida! Em outra visita do corretor de imóveis passou em frente e ainda estava com as portas, janelas do térreo, ferros da cerca baixa da mureta e do portão, lustre antigo na entrada, bem como as porteiras. Agora estava sem nada disso e com tapumes.

Se sentiu muito mal em passar defronte a ela hoje e saber, por uma senhora que saía do prédio ao lado, que seria demolida para dar lugar a algum edifício idiota, de arquitetura inexpressiva que teria apartamentos cada vez menores vendidos pelo triplo do valor da casa, que para ele era um palacete.

Sem saber bem o que fazer, tirou fotos do interior, dos pontos que conseguiu enxergar: o teto detalhado com tanta precisão em um dos diários tinha desabado, restando apenas uma moldura do forro, em madeira, toda trabalhada.

Da rua, conseguia ver pedaços de gravuras nas paredes, distribuídas nos cômodos conforme… preferência dos ocupantes? Era o que parecia…conseguiu antever painéis desbotados em veludo nas paredes, topos de colunas renascentistas ainda lindas, apesar do descaso, distribuídas pelo hall de entrada e nos cantos da sala.

Lembrou do que estava escrito nos diários, das festas lindas que foram feitas ali, nos jardins que existiam na época e que hoje eram prédios baixos, um de cada lado.

Havia menções às paqueras, declamações e saraus e subitamente foi tomado de uma saudade inexplicável, uma sensação de perda, dor quase física, não somente de uma casa, não somente do que foi vivido ali, mas de um mundo que passou que não volta mais.

Pessoas, valores e costumes, que poderíamos ter dado continuidade como povo, mas não. Fomos atrás de idiotices e doutrinas revolucionárias que nos trouxeram a isso. Escravizados pelo Estado, frustrados nos relacionamentos, tristes com Deus e sem legado.

E chamamos isso de modernidade. Pensou:

-Meu Deus, se isso é modernidade, não a quero, prefiro um mês nessa casa com minha família, do que minha vida inteira num país que me frustra, numa sociedade que me irrita, com relacionamentos que nada valem; tudo é falsidade e interesse. Um país sem missas campais, sem saraus, com cada vez menos músicos competentes e estrelas cada vez mais nojentas e pornográficas a influenciar todo o comportamento da juventude. Um país onde se lê cada vez menos e se escreve cada vez pior.

Olhou para a casa e disse ainda, em tom baixo:

“-Os invejo, meu único consolo é esperar Deus me levar para onde vocês estão.

Lembremos que era um mau dia e ele estava irritado, mas tinha índole de lutador, em pouco tempo ouviria algum pássaro cantar ou olharia para o céu e algumas árvores e ficaria bem, era assim que funcionava.

Alexandre pensou, enquanto olhava os painéis, que estes deviam estar presos com tachas de estofamento, pois os buracos no centro ainda estavam lá, como se houvesse uma sobreposição e o veludo fosse um…passe-partout?

Nos quartos do andar de cima, em trechos que se podia ver e não tinham caído com o tempo, ainda estavam detalhes das gravuras nas paredes: “Houve muito amor naquela casa para terminar assim…parece até meu casamento com a Beatriz” pensou. Sem ter mais o que fazer, resolveu desenhar esses detalhes tão logo pudesse, tirou fotos com o seu celular e resignou-se.

Se não estivesse tão ferrado de grana compraria. Tão escravizado pela merda dos impostos que pagava para custear um Estado gigantesco. Ganhava bem, mas nunca sobrava nada, tinha que pagar caro por tudo aquilo que devia vir como retribuição de seus impostos e não tinha dinheiro para comprar uma casa que fazia parte de sua história, reformar e fazer algum centro cultural para divulgar alguma coisa que sua família tivesse defendido ao longo dos anos.

Talvez tivesse sido a gastança absurda e o descaso como dinheiro público que ocorreu a partir do golpe de 1889, se não fosse isso, o Brasil não tinha entrado nesse ciclo de super salários do funcionalismo militar e do alto escalão do funcionalismo geral.

Pensava ainda: Se fosse Império ainda, duvido que a doutrina fiscal austera de D. Pedro II teria deixado acontecer essa desgraça toda. Essa Constituição… ainda têm o desplante de chamarem de “cidadã”, só se for cidadã da Coreia do Norte! A de 1824 é muito mais liberal do que essa!

E ainda têm a cara de pau de chamar de “progresso”. Como meus antepassados tinham dinheiro para construir isso?

Pelo que li eu ganho mais ou menos o que ganhava meu avô…talvez porque não tivessem que dar todo o dinheiro para o Estado e ter umas esmolas de volta. É isso que somos: escravos do Estado, todos, sem distinção.

A atendente da padaria trouxe o pão na chapa que havia pedido e deixou na mesa. Ele agradeceu e teve o cuidado de não parecer que falava sozinho. Só o que faltava: parecer doido.

Alexandre se lembrou de outra coisa que o entristeceu na rua, andando um pouco mais, antes de entrar na Padaria. Diferente, mas com resultado parecido: a casa que outrora fora da família de seu pai, de esquina, foi “atacada por cracudos” que roubaram materiais de ferro, sem distinção, para vender ao ferro-velho ou como peça de demolição depois da pandemia. Todas as grades da mureta, portas, bem como o portão foram levadas.

Não foi sutil, deixaram as paredes quebradas e a mureta destruída.

A casa dos vôs se encontrava totalmente devassada e sem telhado para evitar que a ocupassem. Nos anos 80 o imóvel foi vendido para um curso de informática, que deixou-o, após falir, chegando nesse estado. Desanimador.

A casa de onde Alberto acenava para Adelaide, de onde se via passar as paradas de Sete de Setembro dos colégios, de onde se podia ver passar Thomaz Coelho com a Comitiva do Imperador na direção do Colégio Militar para as providências necessárias sobre a compra do Palácio da Babylonia (em homenagem à Pedra da Babilônia que existe no Campus, perto dos estábulos, quadras e campos de tiro).

Rua esta que era – na extensão da Quinta – caminho de D. Pedro I indo para a Igreja de S. Fco Xavier, com seu cavalo, a galope (o qual ainda é detentor do menor tempo no trajeto Rio-SP a cavalo, até hoje!).

Aonde, quando criança costumava assistir TV e onde seu avô e seu pai moraram e receberam os amigos para fazer trabalhos do Colégio Militar. Destruída.

Subitamente entendeu que:

“-A morte não se dá com o fim da vida, mas com o fim do mundo como o conhecemos, o fim das coisas, pessoas, obras e valores que dão sentido à vida. Entendo agora o meu ódio por revoluções, que destroem tudo com promessa de “um mundo melhor”. Aonde as revoluções militares e comunistas nos trouxeram? A esse mundo de feúria. Entendo agora, como nunca, a frase de G.K Chesterton: “A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns”.

Alexandre pediu a conta, tomou o caminho rumo a seu apartamento, disposto a redecorá-lo, colocando na sua residência um pouco do que tinha visto ali.

Subitamente teve uma ideia, parou e pensou melhor:

“- Vou vender meu apartamento, redecorar a casa da minha avó com alguns desses elementos em homenagem à tia-vó Adelaide e ao tio-vô Betinho”.

Saiu da padaria, ouviu os passarinhos nas árvores da rua enquanto caminhava… olhou o céu e à frente, no final da rua, avistou o portão do Colégio Militar. Pensou:

“-Bem, algumas coisas ainda nos restam e por essas coisas, vale a pena lutar e conservar.”

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