Uma rua e duas casas II

Continuação. Este conto autoral de Renata Araujo, faz parte de um livro autoral de contos, o conteúdo autoral é protegido por lei e publicado em primeira mão e com exclusividade no Tribuna de Santa Cruz. A reprodução é autorizada com citação da fonte, exemplo: ARAUJO, Renata. Uma rua e duas casas: crônicas do Brasil que se foi, 2019. Disponível em: <https://tribunadesantacruz.com/2021/03/13/uma-rua-e-tres-casas/>. Acesso em: 16 de mar 2021. Confira a primeira parte neste link.

Reprodução: Paço Isabel

Olá, como foi a Escola?

Adelaide respondeu feliz, ainda vendo o rapaz entrar em casa:

Colégio, mãezinha, sou a mais nova pré-debutante da mui leal e heroica cidade do Rio de Janeiro! Disse gracejando, fazendo entonação empostada no final da frase e subindo as escadas para seus aposentos.

D. Severa respondeu empolgada: – Seu vestido está ficando simplesmente divino, serás a moça mais linda da última década!

D. Severa era a típica esposa de comerciante, mulher valorosa e organizada que ajudava muito o marido, não somente na gestão da casa, mas também das finanças e na organização da loja. A formosa casa onde moravam tinha elementos ecléticos e barrocos, resultando num conjunto clássico.

A casa contava com porão que servia para prevenção de enchentes e umidade no andar térreo, que era o xodó da matriarca e onde passava os dias a inventar novas decorações e a ler, bordar e organizar as coisas da casa.

Severa admirava e tinha certa inveja de D. Eufrásia Teixeira Leite, herdeira do Vale do Café da região de Vassouras, que havia deixado sua mansão das heras para ir morar em Paris, que aventura! Eufrásia foi a primeira mulher do mundo a operar em bolsa de valores! Tão inteligente e capacitada que chegou a operar em 13 países diferentes, com êxito, multiplicando muitas vezes a herança recebida.

Eufrásia e a irmã herdaram uma fortuna equivalente a 5% do PIB do Brasil com a morte precoce de seus pais. Sua mãe em 1871 e o pai em 1872, deixando títulos financeiros, títulos da dívida pública do Empréstimo Nacional de 1868, ações do Banco do Brasil e crédito de dívidas de terceiros.

Enlutadas, as irmãs milionárias, educadas, órfãs e já consideradas solteironas fizeram as malas e foram morar em Paris.

Ali, Eufrásia começou a operar nas bolsas de valores de todo o mundo, chegando a operar em 13 países diferentes, até onde uma amiga de sua mãe, que trabalhou na casa de Joaquim Nabuco (com quem Eufrásia teve um romance, como corria à boa pequena), havia contado, aprendendo com maestria funções do mercado financeiro que era dominado pelos homens. Pensava:

“-Que sortuda, Dr. Nabuco era tão bonito! Até seu recente falecimento era um homem bonito, que Deus o tenha! Só não é mais bonito do que meu Vicente, que precisa só engordar um pouquinho mais, está magro de ficar o dia inteiro para cima e para baixo no comércio”

Às vezes, Severa até duvidava da história de D. Lídia, que ouvira na cozinha da casa de sua mãe, contada diretamente, enquanto tomavam café e comiam bolinhos de chuva que só a mãe de D. Severa sabia fazer… sentiu uma saudade profunda por um momento de sua mãe e da casa onde crescera, mas logo se recompôs. Voltando ao que pensava sobre os feitos de D. Eufrásia, sabia que no fundo poderia fazer os mesmos prodígios, mas não sem desistir de sua maior riqueza: o casamento e sua filha, que tanto amava.

O amor que Severa dedicava à casa era uma extensão do amor que sentia por sua família. Pensava:

“-Não…nenhuma fortuna do mundo substituiria a falta daquilo, da sensação de amar e ser amada, gerir uma casa como esta, educar e apreciar todas as fases da vida de uma filha como Adelaide, tão fofinha, esperta e amorosa quando pequena e agora, que está se tornando moça, tão responsável e culta”.

Admirava as paredes, cuidadosamente adornadas que davam a cada cômodo uma decoração diferente, sendo as paredes da sala revestidas com painéis de veludo e molduras de madeira, contando ainda com colunas gregas de estilo clássico e lustres iguais para toda a casa, variando apenas nos tamanhos e cores, sendo os lustres dos ambientes internos menores e de cores claras e o da sala grande, com armações douradas e cristais pendurados.

Cada parede possuía desenhos variados, sendo notável o esmero na parede da sala em relação às demais, de aposentos interiores; no sentido de que os demais painéis foram apenas pintados e não estofados.

Os painéis da sala de estar e hall de entrada, em azul marinho, davam um ar sóbrio que ornava perfeitamente com a mobília pintada de dourado, com paisagens campestres ou em madeira, com design vienense, de efeito listrado e ultrabrilhoso nas superfícies arrendondadas e acabamentos dourados, com metais forjados em formas de laços e fitas.

Adelaide gostava de ajudar a mãe a arrumar tudo, amava muito aquela casa na verdade. Seu quarto, no andar superior tinha uma sacadinha lateral para a rua, sendo, as duas janelas da frente da casa do quarto de seus pais.

D. Severa fez questão, após debate formidável, que a menina ficasse com “o quarto da sacada”. Para alguns, o efusivo debate teria beirado uma briga com Sr. Vicente, pai de Adelaide. A finalidade era convencê-lo a deixar o quarto, que tinha a sacada para frente da casa, com a filha do casal.

“-Nunca haverá de conseguir um bom noivo, se não puder olhar as estrelas, ter sonhos românticos e projetar o futuro, Augusto! Imagine se Rapunzel ou se Julieta não tivessem uma sacada? Nós já estamos resolvidos, meu senhor, vamos até o fim da vida na nossa alcova, mas Adelaide ainda precisa arrumar bom casamento!

Ao que Sr. Vicente respondia:

-Pois, debalde ao mostrar a fronte na sacada, mulher! Julieta terminou bem mal, deveras!

Dizia Sr. Vicente, ao final, cedendo, pois sabia que a filha tinha juízo e ademais, a esposa, estrategicamente, já tinha mandado fazer a pintura mimosa, com fundo rosa e turquesa claro nos detalhes, com motivos românticos como: guirlandas de flores, laços e paisagens bucólicas na parede do quarto com a sacada. Continuou:

“-Com essa pintura de moça que fizestes, como um homem de respeito conseguiria dormir aí? Bem, faça como quiseres, vou ao armazém ver as coisas.

Disse, cedendo ao final, rindo-se no íntimo, pois também ficava feliz em deixar sua filha com o lindo aposento, que só não era mais bonito do que a moça, que tinha definido o rumo de sua vida ao nascer.

Por sua família, Vicente se dedicava, saindo de casa às cinco da manhã todos os dias, para que às 6h pudesse abrir as portas de seu comércio. Sua jornada terminava às 20h, pois mesmo após fechar as portas ainda restava atender demandas dos funcionários, comida para família de um, adiantamento para compra de remédios a outro, arrumação, limpeza, caixa, contabilidade, estoque, reservar caixa para pagamentos no dia útil seguinte e só depois, então, poderia ir para casa, banhar-se, trocar de roupa e ir atender a mulher para a convivência em família e com a esposa.

A convivência, que era para ele o descanso do dia, era no jantar ouvir as novidades e os assuntos da esposa, que periodicamente ia à rua do Ouvidor e à rua Direita, atual Primeiro de Março e lhe trazia notícias do mercado, com a ótica de D. Severa, que obviamente era diferente dos amigos comerciantes.

Vicente gostava de ouvir a esposa porque, além dela sempre ter algo para falar, ansiava por aquela rotina, o banhar-se, vestir-se, ir jantar, sentar na saleta do quarto, olhar as estrelas da janela ou descansar na sua poltrona favorita na sala de estar e ouvir sua esposa, sua filha e alguma música no piano ou no gramofone.

Que investimento, aquele, aliás, amava a música, os livros e o jornal. Sim, o jornal era uma mania, fonte de informação e de sensação de pertencimento. Dia sem ler o jornal não era um dia completo.

Na esquina, onde hoje (2021) existe uma padaria, havia a loja do Sr. Vicente em 1910. O pai de Adelaide se referia ao negócio secular da família como armazém devido às suas lembranças de infância.

D. Severa não gostava de chamar o negócio de “armazém”, preferia “comércio”. Achava que “armazém’ dava a entender que o marido: engenheiro formado, admirador dos irmãos Rebouças e Miguel de Frias na juventude, desprezava os rumos que sua vida havia tomado, ao decidir gerir o negócio familiar.

Sr. Vicente assegurava que não, apenas tinha a sensação de que poderia ter feito mais, não fosse pelo clima que ocorreu no país após o golpe militar de 1889.

Monarquistas eram perseguidos como subversivos e seu pai, que fora fiel ao Imperador, fez automaticamente todas as portas se fecharem para a família nas indicações a cargos e grandes obras do período.

Sobrevindo em 1897 o óbito de Sr. Américo, pai de Vicente, a necessidade de cuidar dos negócios da família foi imperativa e ele aceitou a missão para preservar o legado familiar. Muito embora rentável, a atividade ocasionalmente o fazia se sentir reflexivo.

Vicente não contrariava a memória do pai, secretamente também se via como monarquista, bastava ver a conduta dos atuais governantes e a gastança desenfreada de dinheiro público, o abuso na criação de títulos ufanistas para substituir a dignidade da estrutura do Império.

Sentia-se vivendo numa imitação barata do que havia sido o seu País e temia pelo futuro, afinal os comerciantes eram os primeiros a perder seus negócios em ambiente revolucionário, sendo achacados pelo poder constituído e acusados de desigualdades, quando eram os primeiros a contratar, trazer inovações para o País e movimentar a economia, desde tempos imemoriais.

Bastava ver tudo o que alguns de seus amigos contavam sobre o que ocorria vez em quando no Uruguai e no Paraguai, saques, confiscos, desordem pública generalizada e muitos suicídios de negociantes falidos, de pais de família sem conseguirem sustentá-la, pagar tributos e manter uma vida digna.

Sr. Vicente não falava muito disso com seu amigo, pai dos meninos que moravam em frente ao seu negócio, porque este era militar e, embora fosse tenente, não queria ofendê-lo. Muito embora soubesse que o vizinho e conhecido, Sr. Ary criticasse demais os Generais de então, dizendo: “que eram bacharéis, não soldados” e que “havia quem desmaiasse ao ver sangue, seguramente; nada obstante almejassem o título de ‘generalíssimo’, somente digno daqueles que praticavam atos de notória grandeza em campanhas de guerra” e por fim que no Brasil só existiam “generalíssimos de academia”.

O discurso casava com o que dizia seu pai, para quem “se quisesse ainda encontrar guerreiros deveria buscar, no máximo, dentre capitães, pois ao passar disso, perdiam os bigodes e ganhavam diplomas”.

CONTINUA –

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