Uma rua e três casas

Crônicas do Brasil que se foi

Este conto autoral de Renata Araujo, faz parte de um livro autoral de contos, o conteúdo autoral é protegido por lei e publicado em primeira mão e com exclusividade no Tribuna de Santa Cruz. A reprodução é autorizada com citação da fonte, exemplo: ARAUJO, Renata. Uma rua e duas casas: crônicas do Brasil que se foi, 2019. Disponível em: <https://tribunadesantacruz.com/2021/03/13/uma-rua-e-tres-casas/&gt;. Acesso em: 13 de mar 2021.

O texto, escrito em parágrafos curtos para facilitar a leitura na web, foi construído para facilitar a leitura, hodiernamente avessa a parágrafos longos.

O ano era 1910. Adelaide e Amélia vinham andando da Escola Normal da Corte (o pai delas se referia ainda assim ao Instituto de Educação do Rio de Janeiro, muito embora a diretora não gostasse quando alguém deixava escapar). Já estavam a duas quadras da entrada do Imperial Colégio Militar na Rua São Francisco Xavier e comentavam:

-Mas Adelaide, você não pensa ser curioso o fato dos colégios mais relevantes de educação da juventude carioca terem sido idealizados pelo Imperador? Sem falar no próprio colégio Pedro II? O Magnânimo era admirável na promoção da educação! Sei que é considerado subversivo dizer isso (deu uma rápida olhada para trás, agora falando em tom baixo) e que o pai do Álvaro e Albertinho não nos escute, mas esses militares se limitam a imitar ou a continuar a obra do Império e gastar dinheiro público com obras empoadas.

As moças eram lindas, com idades entre 13/14 anos, possuindo belezas um pouco diferentes: Adelaide tinha o cabelo escorrido e biótipo como de índia, no entanto, no lugar dos olhos negros ou castanhos, tinha herdado olhos azuis e um narizinho arrebitado, ambos da mãe portuguesa, o que lhe dava um ar exótico e mimoso. Amélia era ruiva, sua mãe era descendente de holandeses, e possuía o porte elegante e delicado de bailarina, costumava prender o cabelo cacheado em coque e lamentava-se de ter os grandes olhos gentis, quase da cor dos cabelos, num tom de mel que lhe dava um aspecto todo harmônico, compondo a tez de alabastro. Achava injusto não ter herdado os olhos verdes da mãe, ruiva como ela. Ambas não passavam de 1,65m de altura.

Ao que Amélia responde:

– Você adora falar o nome de Álvaro para aumentar minha dor-de-cotovelo e do Albertinho para seu bel-prazer. Sabes que ainda estou magoada com o que ele fez. Não se faz isso, me deixar esperando e ir flanar nas Praias do Centro da Cidade, com aquela filha do diplomata. Aquela ali se comporta dessa maneira indecente porque é rica, se fosse como nós, conservaria mais a modéstia e a virtude.

No que falavas estás certa, Amelinha, deveras, mas paremos de falar sobre isso, os militares aplicavam lei marcial aos jornalistas que ousassem falar disto na sequência do golpe de 1889 (e já sussurrava com medo que as ouvissem), melhor falar baixo disso e aliás, sobre Beto e Alvinho, olha quem está ali em frente ao pórtico, não são eles? Junto ao Oto e ao Fernando?

Ai meu Senhor, hoje não posso com isso, vamos, vem Lala… (Amélia chamava assim Adelaide quando estava com pressa ou nervosa e esse era o caso) vamos entrar aqui nesta rua que dá no mesmo, apenas sairemos mais perto da minha casa que da sua e você me paga caminhando, por ter atraído a presença deles com sua língua falante. Tenho que ir ajudar minha mãe nas pinturas dos tecidos que colocará nas paredes com colchetes.

Olhando para trás nervosamente perguntou:

E tu, o que farás à tarde?

Calma, Amélia, eles não estão nos vendo (e Adelaide segurava o riso, porque tanto viram, que já vinham andando apressadamente para as alcançar), acalma-te! Em tom divertido antevendo que se aproximavam disse, desconversando:

Vou fazer umas barras e desenhos nos panos para usar com o serviço de jantar. Mamãe quer bordar frutas. Frutas! Já viste coisa mais aborrecida? Queria desenhar faisões, flores e plantas da botânica brasileira, mas mamãe quer as estúpidas frutas…diz que gosta dos grafismos e sua boca enche d’água ao ver imagens de uvas e maçãs…despistamos, viste?”.

Nisso as alcança primeiro Álvaro, com seu físico de atleta de remo trabalhado na Lagoa Rodrigo de Freitas e chegando a elas afobado, disse com aquela voz deliciosamente barítona e divertida:

“- A quem as lindas moças pensavam despistar?” Algum meliante?

Nisso alcança o alegre grupo, Alberto, com sua voz um pouco mais rouca e a calma inerente a um campeão de equitação, atividade que praticava no Colégio Militar:

“-Isso mesmo, onde está? Quero ser o primeiro a dar uma lição em tão grande malfeitor, capaz de perturbar lindas flores como sois!

Adelaide ria e se agarrava mais ao material escolar que trazia em mãos, para disfarçar a alegria em ver o cobiçado rapaz com o qual sonhava de contínuo, ali em carne, osso e beleza a conversar com elas. Recebendo de contínuo olhares de soslaio do enamorado, aos quais corava e tinha o coração cheio de alegria. Já Amélia, que era um pouco mimada, estava namorando Álvaro e não suportava ser contrariada, apesar de começar a arrefecer em seu aborrecimento com o rapaz, pelo afeto que lhe aquecia o coração, e respondeu sem graça:

– Não passa nada, pensamos que vinha Consuelo com as meninas da rua do Mordomo, não é Adelaide?” Disse Amélia se referindo à rua defronte o Palacete Laguna, no entroncamento com a Rua Ibituruna, que até 1889 pertenceu ao mordomo do Imperador e fica do lado direito no sentido Centro da cidade, indo pela atual Avenida Radial Oeste que cortou o terreno do Palácio Imperial na direção dos colégios dos rapazes e das meninas.

Os rapazes, que regulavam em idade com as meninas, eram filhos de pai militar e mãe do lar, típicos brasileirinhos. Possuíam tez branca, com fundo de pele neutro (Álvaro) e oliva (Alberto), ambos com olhos pequenos e castanhos, sorriso largo; traços e cabelos cacheados/ondulados que lembravam as clássicas compleições dos gregos. Aliás, dentre as muitas divergências havidas durante a vida de ambos, o foco do debate atual era se provinham dos gregos ou romanos, utilizando conceitos que tinham aprendido na aula de antropologia com o Professor Heráclito.

Acreditando ter ascendência grega, Alberto buscava se comportar como filósofo, praticava equitação e era o mais erudito dos dois. Por sua vez Álvaro se considerava descendente de centurião romano, fazia muitos exercícios tendo destaque no remo, corrida e tiro (o que praticavam no colégio militar e nas lagoas de então, no Rio de Janeiro).

Mal sabiam que em pouco tempo esta seria a cidade dos aterros, em que os formosos leitos d’água seriam arrasados por um suposto progresso, adotado pela administração republicana/positivista que já havida modificado a orla de Botafogo, aterrado as praias do Centro da cidade, deixando as lindas igrejinhas como esposas sem marido no meio de grandes vias em posições incoerentes.

Aliás. Cabe pensar no quanto poderia ser democrático o acesso às praias, que não estavam adstritas naturalmente à zona sul do Rio, aos poucos privilegiados que podem arcar com o valor dos imóveis e o IPTU dali.

Havia praias na Gamboa, onde hoje é o Porto do Rio, em frente à Igreja de Santa Luzia e à Igrejinha da Praia d’Ajuda, Caju e entrada de mar em São Cristóvão, que realmente tinha uma Boa Vista para o mar. A Praia Formosa que hoje é uma estação de VLT, ao invés de passar por região favelizada que espanta quem se encontra no interior no vagão, poderia passar por uma linda praia.

Enfim, o “progresso”.

Voltando ao nosso quarteto, quase chegando no largo, que hoje é a Praça André Rebouças (e que de certa forma conserva o encanto), já se antevia as casas, de Amélia do lado esquerdo e a arvorezinha que ficava defronte à casa de Adelaide, que era um arraso de linda, mais ao final da quadra.

A casa de Amélia também, em estilo neoclássico tinha sido construída por seus avós no século XIX, assim como a de Adelaide. A casinha de dois andares atualmente está conservada e pintada de amarelo, mas na época era pintada de rosa, como “era moda em Paris” segundo a mãe de Amélia, uma ex-cantora lírica que ainda era apegada às modas do Velho Mundo.

As pilastras em estilo grego, com o frontão do portal triangular, sustentavam uma varanda, aonde a mãe de Amélia ainda exercitava o talento de cantora lírica nas festividades. Com o pé-direito alto como das casas de então, as portas e janelas altas e de acabamentos retos, como impunha o estilo, a casa tinha um ar clássico que combinava com os moradores.

O pai de Amélia era professor do Colégio Pedro II, intelectual, escritor, músico nas horas vagas. Gostava de conversar e era amigo do tempo da Escola Politécnica de Engenharia, do pai de Adelaide. As famílias eram próximas e a rua, uma festa. Toda ocasião relevante no calendário da igreja católica, era a mesma profusão de brincadeiras, portas, portões (caso existissem) e janelas abertos, com entra e sai de pessoas. Música nos gramofones, principalmente no dos pais de Amélia, que era dos melhores, importado de Paris.

A igreja frequentada pelas famílias da região era a tradicional Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, ainda de pé e em excelente estado de conservação, onde se deu o batizado da filha de Domitila e Pedro I.

O grupo se aproximava do portão:

– “Chegamos, infelizmente!” disse Álvaro em tom brincalhão, ao que Adelaide, andando de costas, despediu-se da amiga dizendo:

“Até amanhã! Terça é meu dia de passar na sua porta” ao que a amiga respondeu acenando:

Está bem! Com aquelas carinhas de quem terá muito a conversar no caminho do colégio, no dia seguinte. Alberto foi andando devagar com Adelaide, em parte para esperar o irmão, parte para acompanhar a moça até sua casa.

Voltando-se para a namorada, Álvaro perguntou a Amélia:

-Ainda aborrecida comigo? Só fui fazer uma gentileza à Josephine que não queria ir até a casa dela sozinha!

Amélia, se dando conta de que, com um ou dois sorrisos já tinha se esquecido do que ele fez, disparou em tom sarcástico:

-Siiim, é deveras muito gentil, se não fosse loira de olhos azuis, aquela empoada atrevida, você a acompanharia? Eu não gosto dos modos dela, Álvaro! É francesa, o pai dela é iluminista! Meu pai disse que pessoas como ele colocaram muita gente na guilhotina, causaram um banho de sangue e depois foram mortos pela mesma guilhotina que fizeram! Os modos dela não são os nossos e para seu governo saiba que não passas de um cãozinho que ele chama e vais abanando o rabinho correndo. Quero ver o que ela vai pensar se te vir ajudando Padre Jonas na Missa, vai rir de você por toda a eternidade!

Vejo que ainda estás enfadada comigo, sim, concordo com muita coisa que disse. De fato ela tem uns assuntos meio estranhos, mas não me dizem respeito, sou comprometido com você e só fiz uma gentileza. Se não estiveres tão enfadada comigo até lá, poderei te acompanhar no baile de quinze anos de Adelaide. Me disseram que o pai dela conseguiu um salão no Paço Isabel para realização da festa… bem, espero que te acalmes.

Ao ouvir falar do baile Amélia rapidamente mudou de humor. Só de lembrar, não somente do baile, mas de tudo que envolvia: a preparação, as compras na rua do Ouvidor, tudo!!! E ir ao baile com Álvaro… diante desses pensamentos disse, visivelmente mais feliz:

-Claro que sim, imagine, não estou mais aborrecida, apenas me prometa que não vai mais falar com aquela exibida!

Ao longe, Alberto chamou:

Vamos, já estou quase em casa!

Disse Álvaro, aproximando de Amélia e falando em tom divertido:

Tenho que ir, está na hora de desfazer o “Clube do A” (como ele chamava os 4 pela letra inicial dos nomes).

Em seguida se aproximou um pouco mais, o suficiente para Amélia sentir como se sentiria quando eles finalmente se beijassem, o que não tinha acontecido ainda, mas o suficiente para fazer o sangue dela circular mais rápido e o coração acelerar e disse, olhando-a nos olhos, ainda com o jeito divertido, como quem agora detém um “grande segredo”:

-Melzinha, deixe disso, senão terás que confessar ao Padre que andas irada. Ele vai te colocar na penitência e não poderemos ir ao baile e eu odiaria isso.

A mãe de Amélia, D. Angélica apareceu na sacada, quebrando o momento, dizendo:

Olá Alvinho, mande lembranças à sua mãe. Amélia, entre, já passa da hora de almoçar.

Recompondo-se como quem acorda de um sonho bom, Amélia olha pra cima respondendo:

Sim, mãe! Já vou.

-Até logo, Alvinho.

O rapaz a respondeu com um sorriso, andando por um momento de costas na direção de sua casa, despedindo-se piscando, com o olhar brilhante da adolescência.

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Mais para o final da rua, Adelaide entrou em casa e ficou vendo o Alberto acenando para ela da escada de casa (na esquina da atual General Canabarro com Oto de Alencar), a maior da rua em extensão, com a extremidade do terreno quase chegando na altura da casa de Adelaide, mas do lado oposto da calçada.

Em alguns instantes chega sua mãe, vindo de dentro perguntando:

– Olá, como foi a Escola?

Adelaide respondeu feliz, ainda vendo o rapaz entrar em casa:

– Colégio, mãezinha, sou a mais nova pré-debutante da mui leal e heroica cidade do Rio de Janeiro!

(CONTINUA)

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