Cidade Invisível: Saci, Cuca, Curupira, Sereia e Tutu moram no Rio de Janeiro convivendo conosco

A produção nacional inovou nos padrões dramatúrgicos e ousou no encontro entre folclore e suspense sobrenatural. Tratando-se de Carlos Saldanha, não poderia ser diferente. Consagrado na área de animação, manteve a chama criativa na troca para o cinema “tradicional”, abraçando o universo cultural brasileiro: Saci, Cuca, Curupira, Sereia e Tutu agora moram em plena cidade do Rio de Janeiro e convivem com cada um de nós. Deu super certo. Confesso que não sou grande consumidora de séries, mas vi tudo em dois dias.

“Cidade Invisível” chegou com tudo. A composição estética da obra e os efeitos especiais contribuem para nos transportar para o “mundo imaginário”, parecendo natural a convivência “daquelas criaturas” com o cotidiano da Lapa. O elenco é ótimo, formado por Alessandra Negrini, Marco Pigossi, José Dumont, Julia Konrad, Wesley Guimarães, Áurea Maranhão, Tainá Medina, Thaia Perez, Victor Sparapane, Samuel de Assis, Rafael Sieg, Jessica Corés, Jimmy London, Manu Dieguez, Eduardo Chagas. A floresta também é uma “personagem forte” na história, “mãe” de todo mistério que guarda aquelas criaturas.

Logo no início da história, uma festa junina resgata as boas raízes brasileiras. O drama começa com um grande incêndio que vitimiza Gabriela, mulher de Eric, o que motiva todo o desenrolar da história. Desolado com a morte da esposa, ele decide investigar a causa do incêndio. Mas um outro acontecimento – morte de um boto cor-de-rosa – atravessa seu caminho, envolvendo-o numa jornada de profundo autoconhecimento. Não vou dar spoiler, prometo. O roteiro sabe conduzir o espectador, lançando seus trunfos aos poucos. Cada episódio é uma delícia de assistir.

Os seres folclóricos são inseridos no contexto da cidade, num jogo entre misticismo e realismo. A inserção do elemento infantil dá o tom onírico à história através de Luna, a menina que sonha com o que aprendeu nos livros que sua mãe lia para ela. O pai é incrédulo nestes assuntos e o fato de ser policial dá o toque realista à trama. O elemento romance também não fica de fora, dando direito até ao “momento ghost”. O amor de um homem pela sua família, cai bem em qualquer tempo. Típico herói cotidiano. Sempre conquista.

Eric está no centro das duas tramas, a investigação do incêndio na floresta e o misterioso “boto-que-vira-gente” na caçamba de seu carro. Este fato leva-o aos bares da Lapa, confrontando-o com Inês – a “Cuca”; Camila – a Sereia; Tutu, cujo nome também traduz a “entidade” que representa e Isaac, o Saci. Este é o mais simpático de todos e seu jeito travesso compõe bem com Luna. Ambos são presenças cativantes em cena. A história transita pelo universo policial, passa pelo sobrenatural, o psicológico (mãe de Eric) e chega no conflito da posse de terra. Redondo, como todo bom roteiro deve ser.

Marco Pigossi enfrenta bem o desafio.  Todos estão bem em seus papéis; senti falta apenas de melhor articulação (verbal) em alguns momentos. A grande atuação fica por conta de Fábio Lago, presenteado com o momento mais transcendente da obra. Muitos atores esperam por uma oportunidade como esta, poucos a têm e muitos não estariam à sua altura. Performance linda. José Dumont abrilhanta qualquer elenco e merecia um desafio maior. Alessandra Negrini é ótima atriz, porém o roteiro parece ter deixado a personagem incompleta.

A bruxa se transformou numa espécie de “mãe de todos”, traindo a postura dominadora que chega a mandar matar. Eric foi um alvo inatingível e ela em dado momento comenta “não ter conseguido entrar em sua mente”. Manipulação pura, típica de uma “boa bruxa”. O caráter oculto da personagem é sublinhado no segundo capítulo, numa canção a Lúcifer, na boate. É ali também que se apresenta a bela Sereia (Jessica Corés), que passa a ajudar Eric contra Inês. Tutu (Jimmy London) é centrado mais em seu aspecto físico.

 Áurea Maranhão também brilha como a policial parceira de Eric, sendo a ponte entre a realidade e a “loucura” de seu colega. Thaia Perez, Victor Sparapane (o sedutor Boto), Samuel de Assis, Rafael Sieg também são boas escolhas, mas seus papéis não permitem “grandes vôos”.  A direção de Júlia Pacheco e Luís Carone exploram bem a beleza da natureza e chama a atenção o fato de uma produção brasileira não abusar do fator sensualidade, tendo belas mulheres no elenco. Mais um acerto. A impressão que se tem é de que cada elemento foi aplicado na dose ideal, sem tirar nem pôr.

Há uma delicadeza que paira sobre o espírito da obra, talvez pelo fato das lendas inconscientemente remeterem ao universo infantil. O Sítio do Picapau Amarelo é uma memória inevitável para quem assistiu. Ali tudo era possível, até viajar no tempo. Uma CIDADE INVISÍVEL é novidade. Quem assistiu, vai ver a Lapa com outro encantamento. E ao olhar para um jovem sem uma perna ou um pobre miserável vestido de sacos, pensar na metáfora que eles escondem. Aplausos para todos que fizeram parte deste projeto. A arte mais uma vez cumpre seu papel: tornar a vida muito mais bela.

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Essa é a coluna Ação & Reflexão por Bianca Montanas, até a próxima!

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