Meu malvado favorito – Macbeth

[Ação & Reflexão] | Coluna de resenhas descritivas e opinião | Por: Bianca Montanas.

Onde está Macbeth? Onde está Shakespeare, o manipulador de emoções e desejos sem preconceito, que transita entre o jovem romântico, o vilão pérfido e o mundo real e sobrenatural? Com seus ardis encantadores, não há público que lhe escape: jovens e adultos, leigos e críticos; por isso os palcos se renderam a ele. Não há pessoa que não se envolva por suas palavras (certeiras), cenas (instigantes) e enredo (muito bem) elaborado. Haverá espaço para ele no mundo do “novo normal”?

Shakespeare é sábio; Macbeth, soberbo; Shakespeare é perspicaz, Macbeth, traiçoeiro; Shakespeare é profundo, Macbeth é vítima de si mesmo. A vaidade do criador fez dele o maior dos dramaturgos, e da criatura, um monstro destruído pela própria culpa. Esta é particularmente, a característica que considero mais comovente nesta obra: o medo do mal que habita em si e que destrói a consciência. Se eles têm tantas diferenças, existe algo que os iguala: a unanimidade.

Fonte: Reprodução

Macbeth é aquele personagem à espera de um grande ator ou de um ator corajoso, disposto a correr riscos. Da mesma forma as atrizes, pois o espetáculo divide o protagonismo entre o casal. Lady Macbeth é uma vilã tão ativa quanto seu marido, difícil saber quem é mais terrível. Se no primeiro parágrafo propus uma relação entre autor e personagem, aqui defendo a importância da obra, no Panteão do Teatro. Não há dúvidas quanto ao seu estrelato.

Para os que não a conhecem, a peça começa com três bruxas falando que vão encontrar Macbeth no pântano, antes do pôr do sol. Não há de ser para o seu bem. Aqui Shakespeare insere o elemento sobrenatural recorrente em suas obras, que na minha opinião dão um tempero especial. É fato que a vida é fruto dos dois universos, físico e espiritual e este último empresta dimensão à trama. É a semente que começa a germinar o mal da ambição dentro dele.

Macbeth é primo do Rei da Escócia, Duncan. O Rei recebe notícias da guerra que trava contra a Noruega através de Malcolm, seu filho, um Capitão e outros personagens, narrando a bravura de Macbeth e suas “sangrentas execuções”. O Rei responde: “Ah, meu valente primo, notável cavalheiro!” Em seguida, ordena que o título de Barão de Cawdor pertencente a um traidor que será executado, passe para Macbeth.

Antes que os mensageiros cheguem com a notícia para o “herói”, dá-se o encontro das bruxas com Banquo e Macbeth, onde elas chamam-no de Barão de Glamis, de Cawdor e também de Rei. O primeiro título ele já herdou, mas os outros dois, não. Começa a se desenhar a personalidade do vilão, que fica perturbado com o encontro e com o teor das previsões. O mal sabe atuar com maestria e elas “somem no ar”, logo depois chegam Ross e Angus, trazendo a notícia de que Macbeth será “Barão de Cawdor”.

Ambição e confusão se misturam na sua cabeça. O Rei o recebe com honrarias e oferece-se para passar a noite em sua casa, como forma de prestigiá-lo. Ao retirar-se, o falso herói revela a sua faceta vil e sedenta por poder. Está determinado a fazer de tudo para galgar o mais alto posto da nobreza e poeticamente, ele confessa: “Estrelas, escondam o seu brilho, não permitam que a luz veja os meus profundos e escuros desejos”. O Rei será brutalmente assassinado.

Todo o peso desta tragédia é permeado pela beleza das falas de cada personagem, ora impregnada de malícia e perfídia, ora de nobreza e dignidade. Não é minha pretensão, nem seria bom entregar toda a obra neste artigo, até porque um dos objetivos é instigar a curiosidade do leitor. É preciso ter contato direto com cada cena desta história, de preferência vendo-a no teatro, ou ainda no cinema. Orson Welles protagonizou uma versão.

Chegou a vez de falar de Lady Macbeth, a mentora por trás de Macbeth e alvo de discussões calorosas. É fato que ela atiça profundamente a vilania do marido e é incisiva na defesa da idéia de matar Duncan, porém, não se nega também a vontade de Macbeth de eliminar o “inimigo”, ainda que isso lhe custe caro. Os momentos seguintes são de verdadeiro esplendor dramático, tanto no monólogo dos dois protagonistas, como no diálogo que se segue quando ambos se encontram.

Fonte: Reprodução

Em meio a juras de amor e sangue, o plano se delineia e a alma do personagem vai se transformando, tornando-se cada vez mais sombria e fechada em si mesma. É aqui que na minha opinião, se dá o momento mais lindo da peça. Macbeth sabe que o Rei é um homem de bem, mas foi totalmente inoculado pelo veneno das bruxas e não consegue retroceder. Parece prever o seu infortúnio, mas está totalmente dominado pelo desejo e não tem mais o domínio de si mesmo.

É então, que ele nos brinda com esta fala: “… Duncan sempre vestiu seu manto real com tanta humildade, sempre foi tão honrado em suas decisões de governante, que suas virtudes o defenderão como anjos com o alarido de suas trombetas, contra a abismal danação de seu assassínio.” Lindo. Ver um vilão com conflito moral, totalmente oposto aos de hoje em dia é algo que traduz humanidade. Sinto falta deste confronto, entre o desejo humano e a verdade.

Especialmente nesta obra estes frutos são memoráveis, como quando já avançada a trama, Macbeth vê o fantasma de Banquo – a quem mandou matar- na mesa de jantar, diante dos convidados, em seu próprio Castelo. Começa a demonstrar sinais de loucura e a se expor perante todos, dando início à sua derrocada. Grande momento do qual as obras atuais carecem, digo de forma geral, porque não são todas iguais obviamente; me refiro a um juízo comum de amoralidade, que impera nos dias de hoje.

Espero com este artigo aproximar mais as pessoas da obra de Shakespeare, pois muitas parecem ter medo dele – ou de tudo que tenha a alcunha de “clássico”. Já faz algum tempo que me empenho em mostrar que isso é um engano. Vale a pena conhecer Shakespeare e suas obras, perfeitamente acessíveis. Quem não gosta de drama, pode se divertir com as comédias. O meu destaque é para “A COMÉDIA DOS ERROS”, uma fábrica de risos. Os opostos partindo do mesmo eixo.

É sempre bom fazer um “raio x” do comportamento humano através do teatro. A arte é sempre uma boa lente pela qual podemos olhar a sociedade e Macbeth, infelizmente, não reinou apenas nos palcos; o sanguinário ambicioso, obcecado por poder fez escola na vida real. Nesta obra ele e sua amada Lady foram condenados e a justiça, refeita; hoje provavelmente não seria assim. Ainda bem que Shakespeare é de outra época.

Esta é a coluna Ação & Reflexão. Até o próximo texto!

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