O Presente de Natal da Brasil Paralelo

[Ação & Reflexão | Coluna de resenhas descritivas e opinião]

Por: Bianca Montanas

O artigo refere-se ao episódio 1/3 do Especial de Natal da Brasil Paralelo, produtora que vem brindando o Brasil com produções que enriquecem a cultura nacional, contribuindo decisivamente para a formação do imaginário brasileiro na direção correta.

A Brasil Paralelo brindou o Natal em grande estilo, oferecendo ao público o que ela tem de melhor: conhecimento de alto nível. Como parte do público, habilito-me a comentar a iniciativa, realizada “sem um centavo de dinheiro público”.

Na abertura o apresentador, Henrique Valerim, introduz o espectador no Universo Cênico e agradece: “tudo que foi feito aqui, foi com o dinheiro de vocês”.

O primeiro presente não poderia ser mais delicado – a música de Natal “Adeste Fidelis”, traduzida como: “Cristãos, Vinde Todos”. Acertou em cheio, a direção. A música preenche os corações com o clima natalino e imediatamente remete ao Menino Jesus, com toda a sua doçura. Começou bem. Pequena observação apenas, para a máscara dos músicos. Na Brasil Paralelo, “lacrar não pode”.

Na sequência, Ernesto Lacombe “entra de sola” no tema preferido do Conservadorismo: a família. Para debater, Ítalo Marsili, Luís Philippe de Orléans e Bragança, João Malheiro, Silvio Medeiros e o pianista Alvaro Siviero. Iniciam de forma sofisticada com o artista falando sobre Beethoven, declarando sua admiração e paixão pela obra do grande compositor. Entre outras coisas, conta que ele teria presenciado a Revolução Francesa e que era muito contestador, não se deixando ludibriar pela ideologia reinante.

Segundo Beethoven, “Como alguém que tem que ser igual, pode ser livre”? Gênio é gênio. Na carta-testamento que deixou para os seus irmãos mais jovens, discorre com sabedoria sobre a vida expondo as dores da sua alma, as humilhações que a surdez lhe causou e todas as consequências deste mal na sua vida social. Sua humildade emociona mais do que a própria dor. Ao se despedir, fez um apelo à “virtude que pode salvar o homem da sua miséria”, elevando-a perante o dinheiro. Homenageou ainda a sua arte, atribuindo a ela a força que o ajudou a vencer o suicídio. Uma genialidade que buscou sobretudo a grandeza, na arte e na alma.

Ítalo Marsili, indagado sobre o amor passeia pela história da Gata Borralheira, considerando equivocado o seu sonho de ser “resgatada da opressão diária” por um príncipe. Segundo ele, esta atitude a impede de viver o amor verdadeiro, pois a felicidade está nas pequenas coisas da vida, no trabalho diário de varrer o chão ou limpar o estábulo. Acrescenta que há muita fantasia em torno do tema, pois o amor está mais em se dar para o outro e sentencia: “amar é uma decisão verdadeira”.

O psiquiatra famoso sabe bem o que diz, abordando o tema de forma bastante pragmática. Típico do universo masculino ao qual me oponho veementemente neste caso. Que jovem/mulher ainda hoje, não sonha com romance e casamento? Além disso, a história é um Conto de Fadas escrito em 1697, onde a mulher não tinha muitas opções na vida. Mas a história vai muito além disso; há uma sutileza que demonstra o valor da virtude – a mesma que Beethoven citou em sua carta-testamento – premiando a vítima dos maus tratos e da inveja, que nunca se rebelou ou “pagou na mesma moeda”, mantendo-se íntegra. A nobreza de seus sentimentos leva-a à recompensa, que é o amor do príncipe.

Uma analogia ao cristianismo, que prega “a ressurreição após a cruz”. Conto de Fadas que se preza, traz sempre uma mensagem de amor e esperança. Não é por acaso que “Cinderela” mexe com nosso imaginário até hoje.

É claro que o doutor tem ciência de tudo isso, porém, ao encarar o relacionamento amoroso de forma tão prática as contradições humanas são subjugadas e o projeto do amor parece muito simples. Nem sempre é possível amar a pessoa ideal (a que gostaríamos), pois o coração impõe seus caprichos. Mas, uma coisa é certa: seja em 1697 ou em 2020, nenhuma mulher vai querer encontrar o amor num estábulo ou lavando roupa. Assim como nenhum príncipe, nem o brasileiro, quer a Gata Borralheira. Eles querem a Cinderela. Não é verdade, príncipe?

Falando nele, Luís Philippe de Orléans e Bragança ressalta a soberania da família e o direito dela “não ser incomodada”; enquanto João Malheiro destaca que os pais não sabem mais educar seus filhos, delegando esta responsabilidade para a escola que, por sua vez, não pode realizar o seu trabalho com excelência sem a participação dos pais. Pura tautologia. Ele diz que esta é a fórmula que está dando certo em todo o mundo; porém, as crianças estão adormecidas por falta de amor. Não apenas as crianças, mas as próprias mães – mais de 90% delas – também não se sentem amadas. Que família sobrevive a isso? Parece que a cultura do “light” e do hedonismo não funcionam.

Ernesto Lacombe alerta para a “facilidade de casar e descasar”, muitas vezes por falta de paciência e Silvio Medeiros diz que “é preciso esperar. O casamento é uma tarefa, tem que haver afinidade de princípios”. Como é bom poder ouvir tudo isso. A sociedade está tão vazia que não sabe construir nada, além de egocentrismo. Alvaro Siviero sempre adoça o assunto, falando do amor como sentimento. A arte nele transborda.

O número de filhos ideal também pode ser tema de uma conversa masculina e os papais surpreenderam na vocação. Ítalo e Silvio têm as maiores famílias, somando 11 filhos! Ouvindo-os falar, dá até vontade de voltar ao passado… A família também foi definida como uma boa “escola de generosidade”, onde se aprende a partilhar e servir uns aos outros, refletindo posteriormente na sociedade. Mas, como disse Luís Philippe, “não há família perfeita”. Para solucionar as diferenças e contornar os conflitos, a palavra é: perdão. Colocar-se no lugar do outro é um bom meio de perdoar, segundo Ítalo; Alvaro recorre à Química para defender a mesma idéia. Per = máximo; doa é doar-se; logo, per-doa significa “doar-se ao máximo” para o outro. Alma de artista…

Debate de conservadores não acaba nunca, porque eles têm muito a dizer. O príncipe desafia: “só quem se ofende, perdoa. Por que então, deixar-se ofender?”. Indica um exercício de análise do próprio ego. Quem tem coragem? Eles têm e provam. Falam sobre a inveja. Doutor Ítalo caminha para a câmera e lança luz nestas trevas:

“o antídoto contra a inveja é o nome do outro, pois o nome é o lugar que identifica o EU de cada pessoa”. Quanta profundidade, no primeiro dia de trabalho. Não acabou ainda. Alvaro Siviero dirige-se ao piano, para interpretar a Sinfonia Número 9, de Beethoven.

A-plau-sos!   

Eu sou Bianca Montanas e esta é a Coluna Ação & Reflexão. Espero que apreciem a leitura, e até a próxima!

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