Apuração de fatos demonstrada no filme “Spotlight – segredos revelados” tem preciosas lições a ensinar aos jornalistas em geral

Tendo em vista que os desprezíveis “vazamentos seletivos”, “diz leitor”, “segundo o motorista do Uber”, “o moço do açougue” e claro, o muito usual: “fonte próxima” não resistem a um exame ético-crítico.

“Ao voltar as suas atenções, quase que exclusivamente, aos criminosos das operações da Polícia Federal e aos políticos “profissionais”, as editorias de política se descolam dos debates políticos presentes na sociedade. Esses fatores ocasionam o apagamento e a deturpação da etimologia da palavra política que, como já visto, está ligada ao cidadão e à cidadania”.

Ricardo José Torres

Com base nisso e refletindo sobre o desserviço que a mídia presta à sociedade quando tenta fazer jornalismo político, decidi assistir novamente ao filme Spotlight, dessa vez com olhar analítico, tomando notas e comparando com os fatos apontados pelo pesquisador, o que possibilitou trazer as seguintes conclusões.

Quando se fala em descolamento dos debates políticos presentes na sociedade podemos verificar que é um fenômeno frequente nas redações da mídia mainstream. Certos comportamentos não-éticos se tornam gritantes, até mesmo pela observação de uma obra audiovisual como Spotlight.

No filme em questão, esse descolamento da realidade foi demonstrado na cena em que a equipe descobre que, anos antes, uma lista confiável de vinte padres abusadores de crianças (denúncia, boa pista) foi entregue na redação e nada de significativo foi feito pelos jornalistas locais; precisando vir alguém de fora para notar que havia algo ali valioso para a comunidade, algo que merecia apuração mais detida.

Na ocasião, apenas foi redigida uma notinha tímida e simplista, fácil de ser desmentida pela Igreja e absolutamente insuficiente para ser relevante e “derrubar todo o sistema” a fim de que este não pudesse se reorganizar e voltar a cometer crimes.

O jornalismo deve preservar o atendimento às necessidades do cidadão e jamais violar seus direitos à informação ou censurando o pensamento da sociedade, bem como primar pelo acompanhamento dos fenômenos políticos de forma honesta, pois os fenômenos políticos são a resposta para evitar uma sociedade bárbara ou de autotutela.

O povo brasileiro avançou nessas matérias e já sabe distinguir a narrativa de jornalismo, estratégia que, uma vez desmascarada, traz apenas rancor e descrédito para o jornalista/veículo. Afinal o Brasil odeia traidores.

Da mesma maneira, ofender o público, negar sua força, atribuir a robôs seu engajamento orgânico e seja qual for a idiotice levantada para não enfrentar a realidade de que jornalismo descolado da realidade é inútil, odioso e enganador, por isso repudiado.

Isto explica a audiência muitas vezes superior dos veículos/perfis/jornalistas conservadores em relação aos da velha mídia.

No que tange à alegação de falta de verificação das informações provenientes das delações premiadas na Operação Lava Jato, forçoso concordar que, perto da apuração realizada no filme, houve sim, meros vazamentos, inflados para atribuir peso à notícia, mas sem na verdade atender a finalidade de esclarecer a sociedade e sem contextualizar de forma correta, ponderando a quem se aproveita a informação e sem ouvir a outra parte.

Na verdade, a informação deve ser ligada indissoluvelmente ao contexto, à confirmação de veracidade prévia, não depois de publicada, preferencialmente.

Logo diante de vazamentos seletivos deve existir um fortalecimento da ética profissional na veiculação, porque na obra cinematográfica, houve exaustiva checagem, discussão, contextualização, provas e uma saudável opção por denunciar todo o sistema de pedofilia ao invés de denunciar apenas um escândalo como fato isolado.

Observa-se na obra também que as cautelas e procedimentos, ritos e prazos de elaboração de checagem, apuração e preparação às vezes irritam os denunciantes que não entendem tudo que está em jogo, mas é necessário fazer direito. Para o bem dessa própria sociedade.

“o cuidado elementar de todo jornalista, que é, antes de mais nada, verificar a quem interessa a informação que lhe cai no colo, confirmar sua veracidade e publicá-la – quando for o caso – em seu devido contexto, passou a ser algo perfeitamente dispensável”.

RICARDO JOSÉ TORRES

Por isso cabe ao jornalista não se apressar em postar/publicar matérias, deve-se obter confirmações do outro lado, fazer uma melhor apuração e às vezes alcançar todo um sistema denunciado, em lugar de apenas um indivíduo/fato de menor importância para assim atender a sociedade de maneira efetiva.

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